Maresia

Maresia

Sou paulistano. E isso já bastaria para que fossem definidas muitas coisas. Tenho na memória boas sensações de estar no carro durante à noite passeando pelas luzes da cidade, por cruzamentos, avenidas, prédios, por transbordamentos de vida noturna. Habitante da metrópole de asfalto e concreto cresci vivendo o cotidiano da cidade passando anos inteiros cortados por viagens para a praia – definida abstratamente como Santos –: aventuras infantis de carnaval e reveillon.

Tudo se constituía como grandes preparativos: aluguel de casa, revisão do carro, malas a serem feitas, guarda-sol, protetor, sungas e biquínis. Família em trânsito. E então, ao fim da descida da serra e na exploração das praias sem nome, imediatamente sentia a maresia, não só um cheiro de mar característico, mas um odor que despertava sensações, que desencadeava conexões mentais de férias, que marcava o momento como especial. Tempos depois mudei-me definitivamente para a praia, mudança de família, casa e residência, trabalho e escola. E foi o começo do conceito correto de desencantamento do mundo, de desmistificação, de fim da metafísica do desconhecido, de substituição do mágico, do encantador e do inusitado, por racionalidades práticas. A praia perdeu suas características imateriais e simbólicas. Nunca mais senti as sensações de maresia.

Morar na praia significa viver longos períodos de cotidiano corriqueiro intercalados pelas temporadas: verão, fim de ano e carnaval, como uma vivência de tempo cíclico ritualístico. Cada período com suas especificidades, com transformações nas padarias, nos calçadões, no trânsito, na vizinhança. Cheguei à Baixada Santista criança. Escola, almoços, videogames e jantas. E havia uma vida a ser descoberta, interações possíveis a serem imaginadas, e sonhos a serem tecidos. Precocemente já sentia saudades do que estava ainda por vir, tinha desespero pelo passar do tempo e angústia pela impossibilidade de viver todas as possibilidades.

Justamente nessas épocas de temporada o som da cidade transformava-se. Não era mais possível ouvir os ruídos longínquos das ondas ou os ventos noturnos, e surgiam então conversas de banhistas, buzinas e manobras de carros, sons e músicas de festa, aviões sobrevoando os céus com propagandas engraçadas, carrinhos de sorvetes, de churros, de paçocas. Nesses momentos eu costumava passar as férias na maior parte do tempo em casa, na maior parte do tempo, no quarto, e então, na maior parte do tempo, jogando videogame. E enquanto procurava tirar as licenças de direção e adquirir todos os automóveis do Gran Turismo no antológico Playstation, eu tinha uma reflexão interessante: angustiava-me saber que à rua a vida pulsava e transbordava, que as pessoas interagiam, que as existências se concretizavam em eventos mil. As horas de jogo “desperdiçadas” eram contrapostas às horas de vida real do lado de fora e emergiam sentimentos de remorso irremediáveis.

Hoje, tempos depois, tenho uma CNH, dirijo carros e motos de verdade, e a praia tornou-se apenas um espaço de férias com a família. Ouço ainda os sons da temporada e a vida pulsando do lado de fora. Entretanto, possuo uma visão diferente. Ao observar a doce rotina dos avós, a repetição infinita da vida doméstica, as conversas de parentes, e principalmente, ao olhar para si mesmo em momentos simples, não considero mais que exista desperdício de vida e que esta somente pulse em eventos que rompam o fluxo do tempo. Não, o transbordamento de existência permeia as subjetividades, as introspecções, as leituras de livros, as cotidianidades, os jogos de videogame. Há vida em todas as dimensões. Por isso, ao fim, parece-me que tudo esteja relacionado a como percebemos e significamos as coisas ao redor, sejam materiais ou imateriais, fazendo com que eu quase concorde com um complexo sociólogo alemão no que tange à impossibilidade de captar a realidade e ao que – o que importa mesmo – é a complexa relação entre forma e conteúdo[1].

Em suma, tudo para dizer que, menos criança, descobri que todas as coisas da vida possuem esse ciclo de percepção e não-percepção, do desencantamento do inicialmente empolgante e aventuresco. O tempo se rompe, mas infinito como é, torna-se a se recompor. O que fazer? Como reencantar os próprios simbolismos que criamos em nossas vidas?

Enfim, tudo para dizer que sinto saudades da maresia.


[1] Georg Simmel.

Anúncios

Tags:, , ,

2 responses to “Maresia”

  1. Diego Coletti Oliva says :

    Ótimo texto Gabis, como sempre! Até em mim que nunca fui um grande frequentador das praias bateu uma nostalgia da maresia.E sobre o desencantar e reencantar do mundo, muito ainda pode ser dito e pensado sobre o tema, tá uma boa reflexão filosófica que devíamos todos praticar!

  2. Nádia (prima Nádea) says :

    Gabis, adorei o texto! Além de identificar-me com as sensações que você descreveu de nostalgia com relação às experiências vivenciadas na infância, suas palavras me fizeram refletir sobre a beleza e importância de cada época de nossa vida, cada uma com seus próprios sabores e dessabores, cada uma com o encantamento que lhe é peculiar. “O tempo se rompe, mas, infinito como é, torna-se a se recompor”. Incrível. Parabéns! Beijos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: