Incompleto

Na maior parte das biografias de escritores, sociólogos, músicos, intelectuais e artistas, encontro o habitus incidindo sobre a formação, criando condições anteriores, fornecendo arcabouços de cultura, propiciando sociabilidades criativas, multiplicando estímulos à autonomia e ao desenvolvimento. É claro que existem às exceções que superam não só um habitus medíocre, mas privações materiais de existência ou quadros políticos opressores. Mas ter crescido em um meio completamente imerso na cultura de massa – onde a rotina e o cotidiano foram sempre programados e autoafirmados a partir da televisão – implicou decisivamente nas minhas idiossincrasias intelectuais. Ou melhor, na minha não intelectualidade.

Ter vivido uma socialização a partir de imagens e discursos direcionados ao homem brasileiro médio maculou inexoravelmente alguns mecanismos cognitivos. Uma existência de década e meia na ausência de textos escritos criou um sentimento profundamente paradoxal em relação ao ler e escrever. Ao mesmo tempo em que as capas e contracapas exercem fascínios e provocam sede – em que as primeiras páginas introdutórias inebriam pela novidade -, o trabalho a ser concluído, a ardilosa tarefa de permanência na atividade concentrada, e a perspectiva do close reading, de repente, operam uma aversão súbita à tarefa. E assim do amor ao asco emerge a desistência. Ao mesmo tempo em que pensamentos epifânicos milagrosamente irrompem do fluxo de existência e da reprodução das estruturas de tempo e espaço – fazendo com que eu crie uma multiplicidade de diários, contos, poemas, esboços e ensaios – transborda a incapacidade de fechamento, de síntese, de autoria. E assim da criatividade ao cansaço emerge a incompletude.

E então quais são as causas da paixão pelos livros? Ora, a única explicação plausível reside no modelo das ideias e formas apriorísticas. Um tipo ideal de amor platônico obcecado pela posse e completamente desprovido de possibilidades de usufruto. Eis as minhas prateleiras coloridas de capas que foram apenas tocadas, provocadas e seduzidas, abandonadas como páginas misteriosas nunca lidas. Livros que com o tempo tornaram-se objetos aglutinados num borrão da cena cotidiana, que só raramente conseguiram explodir nas suas potencialidades individuais, e que mesmo quando captaram a atenção de seu dono, foi para apenas sentirem a força traiçoeira e irresistível de um desejo fugaz.

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