A Cláusula Pétrea da Filosofia do Carpe Diem

Toda ruptura exige o exagero, a ultrapassagem, a superação, o mergulhar autêntico nas experiências. É preciso hipostasiar os planos, os discursos, as idéias, fazer reverberar ao infinito as intenções e enfatizar fortemente os pleonasmos. Flertar com o perigo, escolher a insanidade, saborear o totalmente absurdo. Eclipsar para os extremos aquilo tudo que nunca havia sido planejado ser vivido. Errar muito, perder bons momentos, introjetar constrangimentos inúmeros e aprender. Talvez. Viver metodologicamente a vida louca nem sempre é possível.

Agora pareço compreender finalmente as provas que precisava fornecer para mim mesmo. A utopia do equilíbrio se mostra menos distante, mais concreta, potencialmente dissociada do paradigma do horizonte que nunca chega. O foco agora é na estrada, nas curvas, nas paradas, pouco importa onde quero chegar porque não saber o que se quer é direito absoluto, é cláusula pétrea da filosofia do carpe diem.

Não está sendo sutil lidar com o fato de que a dinâmica das cisões internas dos sistemas diversos – seja o do próprio self construído, o do campo científico, o dos movimentos literários, ou o das ideologias políticas – obriga a exacerbação irracional, a entrada vertiginosa nas coisas anteriormente impossíveis, a coragem de apostar a si mesmo sabendo que ganhando ou perdendo, as perdas e os ganhos serão sempre a transformação irreversível do objeto apostado.

Depois do turbilhão, após à carnavalização polifônica, dissonante, barulhenta e caótica, me aproximo mais do meu próprio consenso. Afino as sintonias e as vibrações corretas para experienciar as coisas interessantes e mágicas de uma forma saudável, sem perder grandes oportunidades e momentos únicos, sem vomitar, perder a memória ou a consciência. Isso não foi bom.

O equilíbrio entre manter e romper, entre ficar na mesmice do certo e curtir o entusiasmo do errado, é um grande desafio, mas deve ser sempre aquilo a ser buscado por todos que desejam viver os dias intensamente e por todos que lutam contra a tirania invencível do tempo veloz.

Tu não procures – não é lícito saber – qual sorte a mim qual a ti

os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses

não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será,

sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu,

ou seja o último este, que contra a rocha extenua

o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança,

pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido

ávido o tempo: aproveita o dia de hoje, muito pouco acredita no que virá.

[A última parte em latim.]

dum loquimur, fugerit invida

aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Horácio, (65 AC – 8 DC) (Odes 1.11)[1]


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4 responses to “A Cláusula Pétrea da Filosofia do Carpe Diem”

  1. Carolina Ribeiro says :

    Meu amigo, li seu texto assim q foi postado no Blog, só que eu simplesmente não consegui comentá-lo no momento, precisei de uma reflexão, e adivinha? Não sei o q dizer, só que estou maravilhada com seus palavras, e também procurando o carpe diem da vida, sem exageros, mas sem ser chato, massante e complexo!

    Sei, por nossas conversas, q pensamos demais, avaliamos demais, e dentro da filosofia carpe diem precisamos aprender a DEIXAR FLUIR, não q eu consiga fazer isso, mas acho q precisamos tentar!

    Adoro seus textos e sempre lerei com carinho!

    Bjo grande meu Stephusband!

  2. Marilda Madureira says :

    Mais uma vez sensacional… quando irá publicar seu promeiro livro ???

    bj e parabéns

  3. Raphael says :

    O carpe diem não surge no declínio do império romano, onde não há nada a perder e nem o que planejar?

  4. Sérgio A. Ramos Jr. says :

    Fantástico!! Muito bom!! esse texto deveria ser usado no tratamento da depressão!!hehe!! É isso aí Manin!! Queremos tudo isso que a vida tem de bom!!

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