Ser eterno não quer dizer continuar vivo

Por Andréia Regeni

Se alguém me disser que não escutava Strokes no começo dos anos 2000 está mentindo. Arrisco dizer que estaria mentindo, também, se dissesse que não gostou do seu primeiro disco, o Is This It (2001). Assumo aqui que concordei, e acho que em parte ainda concordo, com o que foi dito na época – como aquelas frases exageradas, mas necessárias, sobre a salvação do rock – de que todos pareciam apostar suas cartas finais naquele quinteto nova-iorquino com instrumentos vintage na mão e cabelos ensebados. Se entregar àquilo não foi difícil. Grande parte da minha pré e adolescência foi regada com músicas de rádio, como a Kiss Fm, A 89 e a Brasil 2000. Era um período de formação, mas desde aquela época já era fácil se chatear com o conteúdo repetitivo dessas emissoras. No mais, comprava-se CDs, na Galeria do Rock na maioria das vezes. Lá era um lugar onde se encontrava material de algumas bandas fora do mainstream que entediava facilmente. Aí surgiu o meio-termo, algo que aparentemente agradava os dois lados. Lembro-me de resenhas que comparavam a voz (mecânica, mas legal) e o estilo de Julian Casablancas com o de Lou Reed. Absurdo! Mas aquilo me fez feliz por um bom tempo.

Tempo suficiente para conhecer o White Stripes, que lançou seu primeiro disco (homônimo) em 1997, mas que só foi chegar aos meus ouvidos no começo do século. Me apaixonei! Ao mesmo tempo que via uma proposta estética diferente, ouvia um rock cru mais singular. Em 2003, com o lançamento do quarto disco da dupla, o Elephant, a 89 (extinta Rádio Rock) lançou uma promoção intitulada Vermelho e Branco. Era um quiz. Uma pergunta por dia durante uma semana, se não me falha a memória. Se você acertasse todas, ganhava os quatro discos da dupla. Eu fui a vencedora. O que foi muito legal, pois os dois primeiros trabalhos de Jack e Meg White, o The White Stripes e o De Stijl (2000), eram difíceis de encontrar.

Já em 2006, os Strokes lançaram seu terceiro disco, o First Impressions of Earth, que, na minha opinião, foi sua queda. Um disco frio, sem músicas pra se lembrar no futuro. A partir daí, começaram as carreiras solos: Moretti com o Little Joy, Fraiture e Casablancas em carreira solo, etc.

E o White Stripes lançaram seus últimos dois discos, o Get Behind Me Satan, em 2005; que não foi um disco ruim, mas que eu escutei tão pouco – sabe aquele disco com gosto de fim? Isso se concretizou, em termos de gravações de estúdio, em 2007, com o Icky Thump, que eu nem fiz “avaliações”, tive medo de escutá-lo inteiro; ao mesmo tempo que Jack White lança o Racounters e faz inúmeros projetos e parcerias.

Bom, com toda essa ladainha quero chegar a questão principal. 2011: Strokes, depois de muito mimimi, lança Angles, que mais parece ser a sucessão da carreira solo bizarra do Casablancas; aquela coisa que beira ao trash com essa vontade (?) dele de se parecer com um ídolo 80’s. Não vejo motivo aparente pra trazer aquela atmosfera do disco solo do Julian, o Phrazes for the Young (2009), pro novo disco dos Strokes. Posso estar soando conservadora demais, mas a gente percebe quando tem algo errado num disco. Inovar é bom, mas, aqui, inovar não é a palavra adequada. Perdeu-se a autonomia.

Depois de tantos anos, eu não precisava me preocupar com isso. Eles fizeram a parte deles há dez anos. Mas por que continuar? Ninguém ali parece estar participando daquilo porque está passando fome.

E aqui, eis um exemplo a ser seguido: o fim do White Stripes, declarado pela banda também nesse ano. O motivo? Preservar a memória.

Moral da história? Não existe um limite quando o assunto é dinheiro (entre outros interesses). Mas, sim, felizmente há exceções.

Ser eterno não quer dizer continuar vivo.

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