Sobre a Summa contra Gentiles de Tomás de Aquino – Parte 1

1 – Conceitos introdutórios

Para chegarmos ao conhecimento dos princípios filosóficos-teológicos que Santo Tomás nos apresenta na Suma contra os Gentios, é necessário, antes de tudo, esclarecer alguns pré-requisitos. Primeiramente, os princípios abordados não são comumente conhecidos de todos, pois se tratam de elaborações metafísicas. Bem sabemos que essa disciplina não é a predileta da maioria, poucos a estimam, por isso, irei esclarecer passo a passo e da maneira mais clara possível para que o leitor desacostumado não se frustre com o presente trabalho.

Inicialmente, vamos compreender em que consiste o ofício do sábio. Sua tarefa essencial é conhecer as primeiras razões que regem a ordem das coisas. Em outras palavras, alcançar as verdades primeiras que fundamentam as demais coisas. Por exemplo, o trabalho de um pedreiro é construir casas, entretanto ele não o faz isoladamente e arbitrariamente, mas sob o auxílio e orientação de um mestre de obras. O conhecimento que o pedreiro possui da construção civil não é exatamente igual ao conhecimento do mestre de obras, porque o trabalho daquele é caracterizado mais pela prática do que pela teoria; por sua vez, o trabalho do mestre de obras é mais teórico que prático. A diferença é a hierarquia de funções, um trabalho teórico é mais fundamental por tratar de princípios do que um trabalho técnico que se consome com a efetuação. A primeira espécie de trabalho é chamada por Tomás de arte principal, logicamente a segunda seria arte particular. A constatação elementar que devemos reter é a de que as artes principais precedem as particulares. O ofício do sábio teria, portanto, essa particularidade, ele seria, por assim dizer, uma arte principal.

Compreender o modo como o sábio lida com os princípios metafísicos é sumamente importante, pois revelará a segunda maior característica do seu ofício. Esse modo pode ser compreendido como a maneira própria do sábio de chegar à sabedoria – o seu o objetivo final. Ele o executa pela ordenação de princípios particulares, mas seu objetivo, como falamos, não se detém aos próprios princípios que ele ordena. A razão do modo de trabalho do sábio ser assim está no resultado que proporciona. O fim último alcançado pela ordenação de princípios claros será o conhecimento de princípios sutis, os princípios metafísicos. Isso ocorre porque a ordem de princípios particulares demonstra que existe um bem universal implícito, esperando para ser revelado na ordenação. Isso quer dizer que o bem de um ser está presente na ordem, em outras palavras, ordenar o ser para o seu fim é encontrar o bem do seu princípio. Todas as coisas devidamente ordenadas apresentam um bem, um valor absoluto procurado pelo sábio. O ofício do sábio se compreende, portanto, em ordenar as coisas particulares para os seus fins e encontrar com isso o bem contido nelas mesmas. Ordenar é o modo como o sábio trabalha.

Contudo, o sábio não só está a procura do bem, mas, além disso, também está a procura da verdade. A noção de verdade se mostra uma importante aliada da compreensão do trabalho do sábio, pois ela, por sua vez, se encontra analogamente a primeira na ordenação de coisas. Podemos observar que a verdade não estaria apenas na ordem de algumas coisas particulares, mas, sobretudo, na ordem do cosmos. O universo tal como se apresenta a nós parece por si mesmo provar que na sua ordem figura a imagem da verdade. Quero dizer, a perfeição cósmica parecer nos dizer que ela guarda em si toda verdade necessária para a existência das outras coisas, isto é, que ela seria o princípio primeiro fundamentalmente mais importante que causou todos os seres. A verdade seria, portanto, o logos: o princípio inteligente do universo. Sendo assim, dizemos que a verdade é a inteligência como princípio máximo da ordem perfeita do cosmos. Devemos constatar com isso que nessa ordem possui um bem, isto é, o bem da inteligência. Tal bem é a origem de tudo, e por ser assim, também é o fim para o qual tudo se destina. Dito de outro modo, o bem universal alcançado pela ordem de todas as coisas é o próprio princípio de tudo: a inteligência, isto é, logos. O dado crucial tirado disso tudo é que o bem da inteligência, princípio do universo, é a verdade.

Em terceiro lugar, uma constatação evidente e necessária: não só da procura pela verdade vive o sábio, mas também da rejeição de erros que se opõem a ela. Não existe mal mais nocivo para quem faz ofício de investigar a verdade do que ser enganado por erros. Refutar erros e investigar a verdade são duas atividades necessárias do oficio do sábio, são funções paralelas, quase a mesma coisa. Sem a primeira não se faz a outra, sem a rejeição do erro não se pode chegar a verdade. Definitivamente é preciso refutar os argumentos errados para se chegar aos certos. O ofício do sábio se compreende nessa dupla modalidade, de uma lado, ordenar princípios para ascender ao bem da inteligência e, do outro, refutar os erros contrários a verdade contida na ordem desses princípios.

O sábio cumpre o seu trabalho pelo estudo, não apenas o estudo abundante, mas o estudo da inteligência primeira. Esse objeto de pesquisa do sábio é chamado por Tomás de sabedoria divina. É ela a inteligência da qual o entendimento procura, pois é ela que possui as respostas para as questões mais essenciais. Sendo a detentora das respostas dos problemas mais elevado, também é o problema mais elevado e, além do mais, é o principal objeto de investigação do homem, pois o seu entendimento revela as noções últimas e mais importantes. É, por assim dizer, o estudo que leva ao conhecimento de Deus. A felicidade do homem está na finalidade da sua existência, dizemos, portanto, que a sua felicidade está na razão de seu ser, isto é, na sabedoria divina, o primeiro princípio. O que podemos concluir dessas informações? Ora, que o estudo mais elevado é o da sabedoria divina e que ela leva à felicidade em Deus.

Se por um lado, o sábio deve investigar a sabedoria divina, por outro, ele precisa analogamente refutas os erros contrários a ela. Todavia, tal operação não é tão simples quanto parece. Rejeitar os erros contrários a verdade apresenta pelo menos duas dificuldades pertinentes: a primeira delas é a de que se dispõe de pouco conhecimento das afirmações errôneas, isto é, pouco se sabe exatamente a respeito dos argumentos das doutrinas confusas; além disso, a segunda razão da dificuldade é que não há um reconhecimento universal da autoridade da Sagrada Escritura, nem todos que apresentam argumentos contra a sabedoria divina concordam que a Sagrada Escritura é a fonte mais segura da verdade. Essa dupla dificuldade impede que uma discussão adequada seja travada, pois o sábio é forçado a dialogar usando apenas argumentos provenientes de conceitos demonstráveis pela razão natural. Apenas a razão humana é chamada a participar do debate, qualquer interferência de argumentos adquiridos de princípios supra-racionais é excluída, pois somente a capacidade da inteligência humana é reconhecida universalmente. Existe evidentemente uma perda muito grande nisso, visto que a razão não pode compreender certos aspectos da verdade primeira.

2 – Limites e capacidades da razão

Trataremos agora do núcleo central do debate tomista: os limites e as capacidades da razão natural humana. A questão fundamental que norteia essa parte do trabalho trata da compreensão natural das verdades divinas, dito de outro modo, o que pode compreender a razão natural dos seres mais altos? Para analisarmos tal questão verificaremos que existem limites precisos na razão e que o homem não pode por suas próprias forças ultrapassá-los. E, além disso, que existem maneiras diferentes de se chegar ao conhecimento da sabedoria divina.

Que capacidade a razão tem de compreender os seres mais elevados? Ela está apta a fazer tal tarefa? O que está e o que não está acessível a ela? Para responder essas perguntas, iremos refletir primeiramente sobre a maneira como a razão conhece os princípios abstratos. Aliás, seria melhor dizer, as maneiras, pois se tratam de modalidades de conhecimento. Existem, duas modalidades do conhecimento de Deus: a primeira delas está apta a conhecer verdades divinas acessíveis ao processo cognitivo natural da razão. Faz parte dessa categoria, por exemplo, a compreensão de que Deus existe, isto é, não é necessário que haja uma revelação sobrenatural para que o homem perceba que a existência divina é segura. A própria natureza permite que essa conclusão seja emitida, basta verificar as provas da existência de Deus. Tomás explica tais noções na Suma Teológica, trabalharei esse tema em outra ocasião. A segunda modalidade do conhecimento de Deus não pode fazer o mesmo que o primeiro, isto é, não pode conhecer algumas verdades divinas, pois estas estão além da capacidade racional humana, são inacessíveis ao entendimento natural. Somente um esforço externo partido de uma razão mais perfeita que a humana poderia lhe transmitir tal conhecimento. É o caso, por exemplo, dos objetos de fé como a ressurreição dos mortos, coisas da fé que foram reveladas divinamente. De um lado, existe um conhecimento de Deus acessível a razão natural; do outro, o contrário, um conhecimento que não pode ser acessado pelas forças do intelecto do homem.

A razão disso está no fato de que não é possível conhecer o todo, apenas as partes. As verdades divinas compreendidas por via racional ou supra-racional são elementos da substância divina. Esse conhecimento total é impossível ao homem, pois “Deus habita em luz inacessível”. O lume da razão natural nunca será capaz de entender a razão de todas as coisas. O fato se explica, como falei, em que o conhecimento da substância implica o conhecimento do todo, isto é, entender a substância é entender integralmente tudo o que a compreende. Não existe nada no conhecimento de uma coisa que possa estar acima da compreensão da sua substância, pois essa compreensão é justamente a da essência da coisa. Se conhecermos a essência de algo, conhecemos aquilo que a define. Por exemplo, dizer que se conhece a essência de uma arte é saber identificar a sua substância e, com isso, se pode definir o que é essa arte. A substância é aquilo que a coisa é essencialmente e definir é dizer o que a coisa é.

O homem não pode dizer o que Deus é, só o que são algumas verdades acessíveis pela razão ou pela fé. O limite que impede a definição de Deus se encontra na própria natureza do entendimento humano que retira dos objetos externos os dados de sua compreensão da realidade. Tudo o que a razão compreende, antes passou pelos sentidos. Os objetos sensíveis em si não permitem que a razão natural deduza a substância divina, pois eles apresentam apenas vestígios da causa primeira. Eles são efeitos e enquanto tais não podem fornecer a razão dados da causa em si, apenas os indícios dela. Além disso, a capacidade da inteligência do ser está na natureza própria dele: um ser particular não pode conhecer a substância geral, apenas as particulares. O conhecimento da substância divina pertence somente a Deus, só Ele pode saber completamente o que é, só Ele pode definir-se a si mesmo. As verdades divinas que o homem conhece pela razão e pela fé não são nada mais do que substâncias particulares da essência absoluta, princípios da causa primeira. Estes são, portanto, os graus de conhecimento que o homem pode se beneficiar. Em suma, os limites da razão natural são muito marcantes, ela não compreende a substância de Deus nem algumas de suas verdades, apenas algumas partes do todo.

Entretanto, ainda há quem diga que as verdades divinas são compreendidas apenas pela razão natural. Esse otimismo racionalista não possui verdadeiras bases científicas, é antes fruto do senso comum do que da ciência, visto que uma análise mais séria do postulado otimista revelaria as dificuldades de se acreditar nisso, inicialmente porque existem três grandes inconvenientes em crer que a razão pode por si mesma compreender todas as verdades divinas. O primeiro deles é que as verdades divinas seriam para poucos. Alguns por “má disposição de temperamento” não se interessariam por elas; outros por não disporem de tempo livre devido a “afazeres materiais”, compromissos e trabalhos que sustentam as necessidades materiais da vida; uns mais, por preguiça devido a quantidade de estudo e dedicação que a busca pela verdade obriga. Por esses motivos, nem todos poderiam se dedicar ao trabalho do sábio. Se isso não é assim, evidentemente as verdades divinas que ultrapassam a natureza da razão são acessíveis de outra forma.

O segundo inconveniente seria o trabalho excessivo do empreendimento. As poucas pessoas que poderiam encontrar as verdades levariam muito tempo para realizar essa tarefa, pois a dificuldade para o homem investigar as verdades mais essenciais teria proporções tão grandes que toda uma vida seria pouco. Por último, não poderíamos deixar de ressaltar a fragilidade natural da razão que faria com que o ofício do sábio fosse impraticável. A razão humana não compreende de uma só vez o todo das coisas, ela avança lentamente observando as partes, compreendendo os elementos para só então postular uma ideia que pode estar no final das contas errada. Por causa da fraqueza da razão, haveria muitos erros no conhecimento humano de Deus.

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