Quem quer ser feminista?

Esse meu artigo será sobre uma temática que muito me indigna, mas muitas vezes me pego pensando se não deveria ficar feliz com esse assunto.

Durante muito tempo eu fui relutante em me denominar feminista, não por eu não acreditar em igualdade entre os gêneros ou não compreender a profundidade de ser feminista ou por qualquer julgamento moral, mas justamente por compreender que ao se denominar feminista você traz para junto de si e para o próprio mérito uma luta de muitos anos e de muitas mulheres guerreiras, muitas ideias e evoluções, mas também muitas barreiras a serem superadas.

Antigamente, lá pelos anos 60, boa parte da população ao ouvir alguém se dizendo feminista sentia todo um ar demoníaco, onde a mulher que se denominava nesses termos não podia ser considerada uma mulher “direita”. Mas, hoje em dia, percebo que isso mudou muito e é exatamente aqui que começa a se desenvolver a ideia desse artigo.

Entre conversas informais ouço com certa frequência mulheres se dizendo “feministas” e faço questão de colocar entre aspas, pois o primeiro pensamento que me vem à cabeça ao ouvir essas mulheres falarem: “Então, porque você sabe que eu sou feminista, né?”, eu penso “HEIN?”, normalmente essa frase e a expressão “feminista” é utilizada em momentos que essas mulheres, ou estão indignadas ao ver uma reportagem midiática de outra mulher que sofreu violência, ou quando surge um assunto debatendo mulheres e trabalho. Simplesmente a frase surge quando a mulher se comove com outra mulher sofrendo violência, ou ainda pelo simples fato de ser uma mulher que trabalha, ela já se sente no direito de denominar-se “FEMINISTA”.

Minha segunda reação após esse tipo de afirmação é começar um sermão sobre o que é feminismo, demonstrando que SER FEMINISTA vai muito além de acreditar que as mulheres podem usar calça e sair na rua desacompanhadas. Claro que eu sempre falo alguma coisa, mas sou cortada, porque “lá vem a Carolina com o discurso chato”.

O que mais me impressiona é que esse tipo de afirmação vem de mulheres que são machistas, fizeram escolhas machistas para suas vidas, criaram filhos e filhas completamente inseridos na ditadura androcentrica e acima de tudo sempre soltam comentários depreciativos sobre mulheres que não seguem a “conduta cristã” – não só mulheres pró-aborto ou prostitutas ou homossexuais que dentro dessa conduta são consideradas falhas gravíssimas de caráter, mas também mulheres divorciadas, mulheres que não usam maquiagem ou mesmo mulheres que traem seus companheiros.

Contudo, depois de passado o primeiro e o segundo baque de revolta eu começo a pensar: “Será que não sou muito intolerante e estou encarando da maneira errada: mais mulheres se chamarem feministas é um avanço?” “Será que o feminismo está indo além de uma militância distante e as conversas acadêmicas e chegando às mulheres de uma forma menos depreciativa?”. Mas, sem chegar a conclusão nenhuma, também me questiono que: “Pensar em ‘SER FEMINISTA’ como um sinônimo para ‘SER MULHER’ não é simplesmente um retrocesso e a ideia de Simone de Beauvoir (Não se nasce mulher, torna-se) está se perdendo?” “Não é uma falta de respeito uma mulher que, além de machista, deprecia outras mulheres que seguem vidas diferentes, tem escolhas diferentes, se dizer feminista?”

No fim, não consigo decidir, mas todas as vezes que a história se repete eu passo por todo esse processo novamente, e hoje refletindo novamente sobre isso e chegando ao mesmo beco sem saída resolvi dividir essa minha angustia com vocês e realmente quero saber o que vocês acham sobre isso.

“Os liberais geralmente vêem as mulheres como, em princípio, iguais aos homens – tudo o mais sendo equivalente – e, portanto lutam para dotar as mulheres das habilidades e oportunidades para vencer num mundo masculino. O feminismo neste nível teve tal impacto que a maioria das pessoas já não pensa nessas questões como ‘feministas’.” Londa Schienbienger

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4 responses to “Quem quer ser feminista?”

  1. Luiz Roberto Salvatori Meira says :

    A construção de feminilidade harmônica é premente numa sociedade que sofre e morre de câncer de mama, próstata e útero.

    Na busca desta construção estou deixando disponível num blog as matérias e comentários que tenho encontrado na web e realizado com amigos.
    Embora apresente visões distintas do que foi apresentado aqui, considero interessante verificar múltiplas perspectivas de feminilidade.

    http://miomas-matriarcado.blogspot.com

    “Família Harmônica” para construir Vida Harmônica.

  2. Carolina Ribeiro says :

    Olá Luiz, como vai?

    Minha visão é completamente contraria a “biologização” dos sexos, trabalho sim com construções sociais de gênero.

    Convido-te tbm a ler os meus outros artigos no blog.

    E só para ressaltar que meu artigo não está expondo feminilidades, mas feminismos, trabalhando com a perspectiva histórica e social do movimento de emancipação das mulheres.

    Obrigada pelo comentário.
    Continue visitando nosso blog, estamos abertos ao debate saudavel.

  3. Aline says :

    Olá Carolina acabei lendo seu post por acaso. Adorei!
    Sabe o que me questiono e muitas vezes me angustia? Justamente o pq das pessoas não entenderem o que é feminismo. Garotas que acham que pq trabalham, fazem o que querem ( saem por aí sem dar satisfação pro companheiro)acham que isso é feminismo, sendo que uma coisa não tem nada a ver com outra.
    Pessoas que dizem: “homens e mulheres são diferentes e portanto devem executar tarefas diferentes, se comportar diferente” Isso é o mesmo que dizer” Pessoas negras são diferentes de brancas então vamos ter direitos e deveres diferentes” ( se bem que sabemos que muitos pensam assim).
    E pessoas que dizem” Ah mas hj já esta tudo igual pra homem e mulher!” pergunto eu: “Hellooo, que mundo vc vive? Quanto tempo vc passa olhando o proprio umbigo ou fechado em seu lindo mundinho”
    Bom isso é só pra desbafar. Gostaria de conversar mais com vc.
    Até mais.

    • Carolina Ribeiro says :

      Ola querida, que prazer receber esse seu comentário, tbm angustiada como eu, procurando compreender essas “cabeças feministas”.
      Percebo q muitas vezes o FEMINISMO é usado como sinônimo de FEMININO, mas tbm são coisas completamente diferentes!
      …e pior de tudo, sim as pessoas acreditam piamente que estamos em pé de igualdade, mas que igualdade é essa onde femicídio ainda é uma das maiores causas de morte feminina, ou mulheres ainda ganham menos que homens, ou aqueles e aquelas que acreditam q por sermos mulheres então devemos ser tratadas como uma “classe” especial, ou zelo excessivo ou desprezo excessivo. Acho q estamos só na ponta do iceberg de todas as lutas q ainda temos a travar!

      Estou aberta a diálogo e mantenha contato meu e-mail é bruxadastrevas.catherinne@gmail.com

      Obrigada pelo comentário
      Quando tiver oportunidade leia e comente tbm meus outros artigos sobre feminismo na coluna Heterotopia Feminista!
      Abrs.

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