A felicidade das vacas

Estava eu aqui nessa terça-feira de carnaval, minha única folga da semana, tentando fazer minha monografia, que deveria sair em tempo recorde: 2 dias para ler os textos e escrever algo razoável de pelo menos 30 páginas, quando fui tomada por um sentimento de frustração inacreditável e inconcebível, comecei a pensar como eu sonhava com minha mono no começo da faculdade, em como ela seria bem elaborada e inteligente, com uma leitura adiantada eu conseguiria fazer divagações verdadeiras e espertas, claro que a nota seria no mínimo um oito, pois eu passaria um ano só pensando e arrumando todos os capítulos.

Como vocês podem ver esse sonho está bem longe da realidade de uma universidade, vi todos meus amigos (aqueles que ainda não desistiram das Ciências Sociais) correndo para fazer uma tese final razoável, mas sem tomar muito tempo, com leituras apressadas e sem revisões ou releituras decentes, no fim nós estávamos tomados por esse desespero acadêmico, essa violência monográfica que só aqueles que passaram por esse pânico final conseguem entender.

Durante essa violência simbólica comecei a pensar sobre a felicidade das vacas e em como me afastei dessa tão fadada alienação.

Para aqueles e aquelas que não conhecem a Felicidade das Vacas vou dar uma breve explicação: a felicidade das vacas só pode ser alcançada pelo coração, o cérebro não entra na conta, porque você simplesmente se deixaria levar pelo sistema, sem questionar, sem pensar, sem racionalizar nada, ou seja, viveríamos como vacas, pastando e ruminando sem temer o amanhã, sem lembrar o ontem e o hoje seria somente o hoje.

Parece tentador?

Bom a mim parece mais do que tentador, e estava refletindo, como nesse momento de caos eu gostaria de estar “pastando e ruminando” sem reflexões, sem pensar sobre igualdades ou desigualdades, queria ligar a TV e não ficar questionando cada propaganda, cada fala do Bial, cada discurso machista da novela das “oito”, queria ficar olhando para a TV, rir do Zorra Total, não me sentir ofendida com piadas machistas ou conseguir ficar abismada em como o cabelo da Fatima Bernardes cresceu.

Mas não caros amig@s, eu escolhi outro caminho, eu escolhi o caminho que o ato de ligar a TV já é insuportável, questiono o hoje, o ontem e o amanhã, fico indignada quando ouço a voz macia do Willian Bonner dando uma noticia trágica ou tenho discussões acalorada com meus amigos sofredores das Ciências Sociais em como a mídia manipula informações.

A realidade não é tão simples, hoje não mais “pasto”, eu rumino ideias, rumino sonhos idealizados de revoluções, rumino igualdade entre os gêneros, rumino textos e mais textos buscando resposta para as mil perguntas que se formam em minha cabeça, mas que muitas vezes são impossíveis de colocar no papel. Eu requinto minha escrita e minha fala para me inserir em um mundo acadêmico cheio de violências simbólicas e normatividades, quebrando grilhões das normas sociais padrão e criando outros modos de padronização tão ou mais cruéis quando os do “mundo lá fora”.

E agora percebo: a Felicidade das Vacas não tem volta! Uma vez que adquirimos a capacidade de questionar, de exigir, de pensar, não conseguimos voltar atrás. Não me decido se gostaria de ter tomado outras decisões e ter vivido no bom e aconchegante “pasto”, só sei que continuo mais uma vez dentro da violência velada da academia, das imposições e normas que nos tornam cada vez mais e mais ligados a uma “felicidade racional”, ou seja, o prazer de pensar e muitas vezes acreditar que estamos acima daqueles que vivem a Felicidade das Vacas.


 

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8 responses to “A felicidade das vacas”

  1. Sérgio A. Ramos Jr. says :

    ” O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente, como um gato ou um cão – assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão.
    Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem meditar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da acção, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte.”
    -Fernando Pessoa, in ‘O Livro do Desassossego’

    • Carolina Ribeiro says :

      Após esse devaneio o meu texto ficou um extra! Obrigada pela contribuição incrivel Sergis! Fiquei feliz com seu comentz
      Bju Querido

  2. Silvelena says :

    É muito sofredor quando enxergamos o que muitos não enxergam…É sofredor quando sabemos o que há por trás dos fatos. É mais fácil e menos sofredor ter o senso comum, ir como gado e assim ter a tão chamada “felicidade das vacas”. Somos seres pensantes e críticos, por isso muitas vezes a felicidade não nos cabe, sabemos que todos – como diz o Eduardo usam máscaras – e percebemos estas máscaras em nosso dia-a-dia nas pessoas, assistir ao “Jornal Nacional” vira exercício difícil. Por isso que tentamos dentro do nosso mundo particular fazer com que ele seja o melhor de todos os mundos, pois ai fora só tem felicidade fingida e uma sociedade que não enxerga nada somente o senso comum.

    Parabéns pelo artigo! Sabia que você escreveria algo sobre o assunto. Não desista nem perca o ânimo em você!
    Beijos e aguardo o próximo.

    • Carolina Ribeiro says :

      Ah mãe eu procuro não perder o animo, mas as vezes o animo se perde de mim hahaha! To sempre na batalha Mãe, mas a felicidade das vacas já não está dentro das minhas possibilidades kk

      Obrigada pelo seu comentz mami!
      Saudades…

  3. Lara says :

    mano, é o seu melhor texto nesse blog!!!! E inserida no dilema da mono (que já passou, graças a mim e minha capacidade de enrolar…rs) me senti mesmo tocada com o que vc escreveu……..
    meio Foucaultiano isso né? Relações entre saber e poder, saberes “marginais” e hegemônicos….é foda, e eu fico sempre pensando até onde o saber pode ser emancipador, ainda mais depois de ouvir um grande discurso na primeira semana de aula sobre o constrangimento que a Universidade nos impõe, que, no limite, nos torna criativos e produtivos…..aí, pronto, enlouqueci, como todos esses cinco anos de graduação e, certamente, pelos próximos dois que virão….
    Espero que vc tenha se livrado da mono (se livrar é o termo que cabe aqui) e espero que não desista de encontrar a emancipação seja pelos meios acadêmicos ou não; se optar pelos primeiros, segue uma frase de um belo texto que li ontem: Para emancipar a outrem, é preciso que se tenha emancipado a si próprio…..desafio pra nóis mano…..

    bjocas no coração

    • Carolina Ribeiro says :

      Poxa mano vc curtiu mesmo esse texto? Foi escrito num momento de tamanha desilusão q vc precisa falar com alguem sabe? kkk

      Nem tenho muito o q comentar, a não ser que FOUCAULT ESTAVA CERTO, vivenciamos Foucault em diversas de nossas atividades, não só academicas!
      E a saída dessa opressão mano? Acho q como Foucault não achou uma, qm sou eu para conseguir? Mas vamos tentando

      Obrigada mesmo pelo seu comentário rico! Gostei muito de ve-lo aqui!

      Saudades manoo

      É NÓIS
      bjuu

  4. ingosabagego says :

    Existe algum livro que fale sobre esse dilema da felicidade das vacas? Ouvi falar muito disso quando fiz o curso de História, mas não lembro onde encontrar. Parabéns pelo post.

    • Carolina Ribeiro says :

      Olá, muito obrigada pelo seu comentário!

      Eu não sei se há alguma literatura específica sobre a felicidade das vacas, mas acho que vc pode achar algo nesse sentido procurando por “alienação” e também “sociedade do espetáculo”. Acho que também há algo relacionado a isso se vc pensar em cultura de massa e industria cultural:
      ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. Editora Paz e Terra.São Paulo. 2002.
      BOSI, Eclea. Cultura de massa e cultura popular. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

      Não sei se colaborei em algo, mas acho que por esse caminho, procurando especialmente pelos textos da Escola de Frankfurt acho que pode te trazer reflexões bem produtivas.
      Obrigada.

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