A contingência da essência humana segundo Sartre

1 – Introdução

Segundo o pensamento filosófico sartreano, a existência precede a essência. O que isso quer dizer? Primeiramente, significa que o homem não possui definição alguma, ele não é nada antes de se fazer algo. Em segundo lugar, que a finalidade da ação do homem e de sua própria existência é se auto-definir segundo um projeto criado em sua subjetividade. Sartre inverteu a definição aristotélica para cria a partir disso o fundamento principal de sua filosofia. Segundo ele, dizer que o homem possui uma essência é dizer que ele é pré-definido por uma lei absoluta e universal que se encontra antes de sua existência, e que sua liberdade está restringida ao campo de possibilidades que essa essência lhe permitiria. Ao contrário, afirmar que o homem primeiro existe e depois se auto-define criando com as suas ações a sua própria essência, é postular a total liberdade humana presente na sua existência mesma. Em linhas gerais, a oposição de conceitos revela que para o existencialista a essência humana é contingente, não está determinada; e para o filósofo grego é necessária, implica uma definição a priori. Procurarei mostrar isso explicando primeiro os conceito do existencialismo de Sartre, depois a noção de finalidade de Aristóteles.

2 – Conceitos do existencialismo ateu

A tese nuclear do ensaio “O existencialismo é um humanismo” de Sartre trata da liberdade. Para o pensador, a liberdade é o fundamento primeiro da existência humana. Para efetuar esse empreendimento conceitual, o autor precisou partir do princípio de que Deus não existe para salvaguardar a total liberdade do homem. Não existe nenhum ser que pensou o homem, é ele que pensa primeiro, é ele que se auto-pensa e se auto-define. Esse ateísmo não pretende provar que Deus não existe, mas apenas revelar que mesmo se existisse, o fato do homem ser absolutamente livre não mudaria em nenhum aspecto. Para o filósofo, Deus não criou a essência humana porque Deus mesmo não existe. A raiz literária dessa ideia está na obra de Dostoiévski “Os irmão Karamazov” cuja frase é a seguinte “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Com isso o homem se encontra totalmente livre para deliberar sobre como ele quer ser e como quer fazer de si o que quiser. Em outros termos, criar a sua própria essência, não apenas se auto afirmando psicologicamente e socialmente, mas definir-se a si mesmo substancialmente.

Na doutrina sartreana, o homem não é um ser em si, mas um ser em ato. O homem só “é” quando age. O existencialismo afirma que o homem é aquilo que ele faz de si. A ação é o fator decisivo que estabelece a sua essência. Não existe uma lei moral universal que orienta a ação numa direção ou noutra como escreveu Kant, mas é o próprio homem que cria as suas leis ao deliberar segundo a sua liberdade inevitável. Esse princípio é universal, visto que não é possível evitar a escolha de um compromisso, pois a não-escolha é precisamente uma escolha. Decidir-se pela inação é agir efetivamente de maneira livre.

Um exemplo disso ocorre quando uma pessoa enfrenta a dolorosa necessidade de escolher entre algo altruísta como dispôr de bens que estão acima do necessário para a sua vida para ajudar vítimas de uma catástrofe ambiental; ou, em contrapartida, realizar um desejo que vem planejando há anos como viajar pelas praias da costa brasileira. É o que o filósofo chama de moral individual e moral coletiva. A primeira delas é concreta, a outra, ambígua, pois pode acontecer que ocorra como o esperado ou não. Sobre elas, ele faz a pergunta: qual das duas é mais útil?

O que seria correto fazer num caso desses, doar a poupança planejada para a viagem ou realizar o sonho de anos? Para Sartre não existe algo “correto” de fazer quando se é livre absolutamente. Independente da decisão que uma pessoa queira tomar num dilema como esse, sempre será a escolha mais correta. Não existe uma pessoa essencialmente altruísta ou egoísta, são as suas ações que a definem de um modo ou de outro. Por essa razão, escolher uma terceira via, a de não fazer nada, nem doar nem viajar, é necessariamente uma ação livre, “o homem está condenado à liberdade”. Toda ação também é válida, independente do que se fizer, será um bem feito.

Para chegar a essa posição super-humana, o homem precisa abraçar uma responsabilidade absoluta. Não é uma “ação particular” que faz o homem ser, mas um “compromisso total”. Nada no mundo condiciona a sua ação, pois ele é plenamente responsável pelo que faz de si mesmo. O expressão “plenamente responsável” quer dizer, segundo as letras do autor, que quando um homem escolhe ser algo livremente, ele o faz não apenas como uma decisão pessoal que somente diz respeito a ele, mas o faz para toda a humanidade. Todas as ações que uma pessoa escolha tomar segundo um compromisso total, isto é, a partir da sua liberdade, é uma escolha que transcende os contorno do indivíduo, sempre será maior do que a própria pessoa que decide, pois toda ação livre está aberta à humanidade, não apenas ao indivíduo que a praticou.

A razão disso está na finalidade da ação (falaremos dela mais detalhadamente na terceira parte). Para o filósofo qualquer coisa que o homem escolher ser é um bem, não há possibilidade de escolher ser algo sem que isso seja um bem, pois a ação prova a liberdade do homem, sem ela não haveria consciência. A ação necessariamente é um bem se o homem é livre, haja vista que não poderia ser um mal algo proveniente da positividade que é a liberdade. Se é um bem, também é para todos, já que ninguém está excluído de exercer a sua liberdade, agir livremente, como vimos acima.

Com isso, nos vemos diante de uns dos conceitos existencialistas mais difundido: a angústia. Diferente de Heidegger que diz que a angústia do homem está no fato de que ele existe para a morte, a filosofia de Sartre vai dizer que o homem é angústia porque é plenamente responsável. A angústia está na liberdade da escolha e na responsabilidade que ela implica. As paixões, por exemplo, não levam o homem a fazer nada, pois ele decide antes de tudo, ele é em tudo responsável, até mesmo pelas sua próprias paixão, ele mesmo escolhe ser afetado pelas paixões que tem.

Além disso, o filósofo também parte do principal conceito metafísico da doutrina cartesiana, o cogito, para defender as suas ideias, entre elas, a da subjetividade. Subjetividade no existencialismo não quer dizer “escolha do sujeito individual por si próprio”, mas que não há conhecimento fora do sujeito. O cogito é a “verdade absoluta da consciência”. Descartes estabeleceu as bases do racionalismo e do subjetivismo ao dizer que a prova da existência do ser humano é o pensamento, coisa que na verdade Santo Agostinho já havia feito, entretanto, o racionalista procurou estabelecer esse princípio pensando o homem enquanto homem, isto é, sem as doutrinas teológicas criadas na Idade Média.

Sartre procurou provar que subjetividade não que dizer individualismo, mas, em último caso, intersubjetividade, pois não é apenas o indivíduo que pensa e todo o resto são coisas do mundo, inclusive as demais pessoas com quem ele se relaciona. Intersubjetividade quer dizer que pelo cogito o outro não é uma coisa do plano imanente, isto é, material, mas, sobretudo, é uma liberdade para mim, um “eu-outro”. “Eu”, porque o sujeito que se compreende nesse termo é puramente livre; e “outro”, porque é uma realidade diferente do “eu”. Reconhecer que o outro possui uma liberdade idêntica a minha é compreendê-lo como eu mesmo me compreendo, por essa razão, o que existe de mais essencial em mim, também existe no outro fazendo dele uma espécie de mim.

Mas como isso é possível se não existe a essência universal do homem? Ora, o filósofo não fala de uma essência universal do homem, mas de condições humanas. São elas que dão ao homem a característica universal de sua existência. A condição humana universal é o “conjunto de limites a priori que esboçam a sua situação fundamental no universo”. Isso se prova porque a universalidade do homem não é dada, mas construída por ele mesmo. O homem se realiza pelo compromisso livre que é universal, existente em qualquer tempo em todos os homens. O humanismo existencialista se fundamenta na transcendência, não nos mesmos termos do humanismo clássico, mas num humanismo que postula a transcendência do sujeito.

4 – Conceito de finalidade

Como já mencionei, após explicar a inversão sartreana dos conceitos de essência e existência, irei apresentar agora o conceito de finalidade presente na Ética a Nicomaco de Aristóteles. Farei isso com o objetivo de sobrepor a afirmação à refutação, isto é, a tese à antítese, pois tal noção ajudará o leitor a entender porque estaria incorreto a tarefa existencialista de reordenar os conceitos explicados acima. A noção de finalidade esclarecerá, portanto, como a essência deve necessariamente anteceder a existência e como a partir da ideia de finalidade o existencialismo procurou provar o contrário da realidade humana.

Para iniciar a etapa, é preciso compreender que a finalidade de uma coisa é uma das principais preocupações da especulação filosófica. Trataremos do termo coisa nesse ensaio não exatamente como a definição clássica, isto é, o antagônico de representação como foi discernido pelas escolas realista e idealista no decorrer da modernidade. Usaremos o termo principalmente para estabelecer o objeto de relação que o sujeito se presta a fazer. Todas as coisas diferentes do sujeito são, portanto, coisas que se relacionam a ele. Entretanto, também é possível incluir o próprio sujeito como uma coisa, pois ele, ao contrário do que pretendeu Descartes, também é objeto de si mesmo. A definição mais próxima seria, portanto, a de que toda coisa seria um existente.

Sendo assim, dizemos que toda coisa possui telos, isto é, a causa final de sua existência. A finalidade de uma coisa é realizar aquilo para o qual ela existe. A finalidade da ciência é a verdade, a da religião é o sagrado, a da arte é o belo, etc., todas as coisas existentes estão direcionadas a outras superiores, suas finalidades estão localizadas em princípios que por sua vez estão acima do nível imanente das coisas, em outras palavras, estão em princípios transcendentais. Esses transcendentais são bens em si, o destino último absoluto do qual as outras se projetam. A verdade alcançada pela ciência, o sagrado contemplado pela religião, o belo construído pela arte, são todos universais e pertencem a ordem transcendental.

Qual é, portanto, a finalidade da existência humana? Para Aristóteles, o telos humano está na sua ação ética que destina-se ao sumo bem, isto é, a virtude que procura a felicidade. Essa é a realização do telos do homem. Mas, como é adquirida a felicidade? Pela aprendizagem, isto é, pela via imanente? Ou talvez por providência divina, pela via transcendente? Para Aristóteles, a felicidade é uma atividade virtuosa da alma, parte do material, mas destina-se ao espiritual, isto é, mesmo se for adquirida de forma imanente pela virtude sempre está destinada ao transcendente. É “algo absoluto e autossuficiente, sendo também a finalidade da ação”.

A felicidade só é adquirida pelo homem porque este se volta ao espiritual. Os animais não são felizes segundo Aristóteles porque não são capazes de buscar o sumo bem pela ética. Pode-se falar de uma felicidade natural que visa apenas a realidade imanente das experiências sensíveis. Os animais poderiam desfrutar desse postulado, mas o homem, devido a sua natureza incongruente, não se contenta com esse tipo de felicidade. Cercado pela realidade imanente, o homem anseia pelo transcendente, a realização de seu telos não está na sua própria natureza. O ser humano não se realiza em sua dimensão natural. A plenitude de sua vida não está na suas definições imanentes; a plenitude da vida humana supera o próprio do homem enquanto ser natural.

Toda existência possui um princípio espiritual chamado essência. A essência dá a existência o seu fundamento inicial e o sustentáculo da sua continuidade. Existência é o fato de um ser existir, a idéia que se faz da existência e que lhe confere realização é a essência. Por exemplo, em tempos longínquos, antes do homem inventar a roda, ele primeiro a pensou. A roda já existia em princípio na sua forma substancial como essência, depois foi realizada materialmente de fato como existência. Em primeiro lugar está a essência, depois a existência.

No campo humano ocorre o mesmo, o que realiza a existência humana é a sua essência. A felicidade, telos humano, não pode estar na própria existência do homem. Dito de outro modo, a existência humana não pode ser a fonte da felicidade do homem. Analogamente, a felicidade não está na matéria. Esperar encontrar a felicidade no imanente é apostatar-se da realização do telos, é experimentar o sentimento de angústia idealizado pelo existencialismo ateu. A felicidade é o princípio da existência humana, pois para ela a ação humana se volta, para a sua própria essência. Por isso dizemos que essencialmente o homem é feliz ou que a essência do homem é a felicidade.

O existencialismo ateu por sua vez inverteu essa ordem e postulou a liberdade incondicional do homem em outro contexto. Para Sartre, a existência precede a essência, isto é, o homem primeiro existe e depois cria para si a sua própria essência. O homem é uma coisa oca que se preenche pela sua própria vontade. Como é possível o homem sendo nada fazer-se algo por si mesmo? É na verdade uma tese absurda. É apodítico que haja uma essência antecessora da existência, pois o homem não pode simplesmente existir e depois se autodefinir. A definição já existe, sem ela não poderia existir. É a definição anterior a existência do homem que lhe permite buscar aquilo que ele é, o seu telos.

Aristóteles. Ética a Nicômaco, São Paulo, Abril, 1973
Sartre, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo, São Paulo, Abril, 1973

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2 responses to “A contingência da essência humana segundo Sartre”

  1. Diego Araújo da Rosa says :

    Li o artigos de vocês sobre Sartre. Achei-o muito bem escrito. Em resposta gostaria de deixar aqui o meu ponto de vista em relação a alguns pontos da filosofia do francês:

    Analise de máximas sartreanas:

    1°) “Não há determinismo, o homem é livre”. No entanto, a de se considerar que Sartre acreditava que “a experiência precede a essência”, quer dizer, se, por um lado, estamos condenados à liberdade, por outro, somos escravos dela, na medida em que ainda não experimentamos.

    2°) “O existencialista não crê na força da paixão”. Este modo de pensar contraria o de Shakespeare. Em “Romeu e Julieta” o escritor inglês conduz um casal de amantes ao suicídio, contrariando a razão.

    3°) “O homem é o futuro do homem”. Sim. Como só a experiência é capaz de nos revelar o verdadeiro sentido das coisas, o futuro pertence à contemporaneidade. Porém, a de se ressaltar que, muitas vezes, repetimos os erros do passado, ou seja, a História não é um acontecimento linear. Logo, o inverso também é válido – o homem é o passado do homem.

    Fonte desta analise: (SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo, Col. Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1973. p. 15-16).

    Abraços, Diego.

  2. Goh says :

    Concordo Irmão.

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