Depois da entrevista da UNICAMP

No dia em que cheguei ao departamento de sociologia da UNICAMP para entregar nossos projetos uma cena quase fantástica abalou qualquer resquício de confiança e auto-estima. Em cima das mesas, pilhas e pilhas de pastas, dossiês, caixas de sedex, e envelopes, um amontoado de vidas acadêmicas cifradas em cartas, históricos, currículos e projetos. Aquilo estava a FEDEX norte-americana na véspera de natal.

Mas mesmo assim nossos nomes apareceram na lista. Eu e meu casal de amigos favoritos tínhamos recebido data, sala e horário de entrevista. Doce ilusão: o pior ainda estava por vir.

Estávamos reunidos em espera, todos pleiteantes, colegas de várias universidades e lugares, automaticamente nomeados de concorrentes. Aos poucos surgiu a boataria de que um dos professores da banca era o Beakman em pessoa, direto da TV Cultura e dos anos 90. Óbvio: era o meu provável-futuro-orientador. Entrei na sala como um inocente ao cadafalso, no tempo e no espaço errados.

Seis figuras masculinas, baluartes da excelência acadêmica e ligeiramente esquecidos de que um dia também foram graduandos (ou será que se lembram tão bem que se satisfazem todo ano com sessões de tortura e vingança?). Confesso publicamente que fraquejei.

A volta interminável da UNICAMP até Indaiatuba (Tia Cleide…) em um ônibus desconfortável: somente as duas mãos ao rosto para esconder de mim mesmo que, de fato, não haveria possibilidade de passar para a prova teórica. Fui tomado por sentimentos de profunda negatividade. Eu me senti um produto de uma complexa e subjetiva equação, o resultante final de um arranjo obscuro de fatores e combinatórias, um resto de estudante. De repente, havia sofrido uma violência normalizadora, experimentado na pele tecnologias de poder e políticas de enquadramento, sucumbido passivamente à hierarquia, às técnicas, aos dispositivos de uma meritocracia inatingível.

As análises de Foucault materializaram-se diante de meus olhos e permaneceram, fluindo, latejando, esquadrinhando, inculcando um dos possíveis significados que a práxis teórica pode assumir. ***

E não passei mesmo na fatídica entrevista, mas posso gritar aos ventos e com orgulho que minha amiga, Ribeiro, C., sobreviveu e seguiu em frente.

 

 

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2 responses to “Depois da entrevista da UNICAMP”

  1. Carolina Ribeiro says :

    Uhu Tia Cleidee!!!! hahahaha e claro temos tbm a participação especial do grandíssimo Peixe!

    Meu que dias do cão, não é mesmo?
    Passei desse estupro acadêmico, mas me rendi na próxima etapa, infelizmente!

    Estou adorando ler as Histórias de Madureira, G. A., pois digo com orgulho q participei ativamente de todas elas!

    Amo vc meu amigo, marido, irmão!

    Bju carinhoso

  2. Silvelena says :

    Quantas emoções e decepções vocês vivem meus lindos…Fico muito feliz por viverem tão intensamente e dividirem conosco tudo isso.
    É maravilhoso acompanhar toda essa juventude de conquistas com vitórias ou não.
    Beijo muito carinhoso (de mãe coruja)

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