Quem tem medo do Oriente Médio?

No último mês presenciamos um episódio único na história contemporânea, um verdadeiro tapa na cara tanto dos conservadores ocidentalistas, quanto da esquerda derrotista que havia desistido da esperança de mudanças.

Pudemos assistir no Oriente Médio a uma cena de efervescência política protagonizadas pelas massas populares, sem líderes carismáticos ou fundamentalistas tomando a dianteira dos acontecimentos. Pudemos finalmente ver em ação uma mudança democrática real, encabeçada pelos jovens, pelas mulheres e pelos movimentos sociais do país.

Mas porque toda a polêmica ao redor desse tópico? Porque todo esse medo do que pode vir dessa mudança?

Ora amig@ leitor/a, simples, o medo é de que o exemplo seja seguido aqui para as bandas do oeste, medo de que as massas exploradas do ocidente descubram que, assim como as de lá, tem o poder para reivindicar o que lhes é de direito! Medo de que as pessoas entendam finalmente a mensagem de Alan Moore em V de Vingança: “O povo não deve temer seu governo… o governo é quem deve temer seu povo!”.

Para tentar apagar essa chama que se espalha pelos países árabes desde dezembro do ano passado quando um mercador da Tunísia ateou fogo em si mesmo em desespero por ter tido suas mercadorias confiscadas pela polícia, os poderes do capitalismo ocidental (ou seria melhor dizer global?) se valem de diversos artifícios para imprimir em nossas mentes uma imagem negativa dos acontecimentos do mundo árabe.

Olhe para o Egito por exemplo, que recebeu mais destaque em nossa mídia, mas não foi o único nem o primeiro  a lutar por sua democracia. Há 30 anos o país das pirâmides vivia sob a opressora ditadura de Hosni Mubarack, apesar de nós do lado de cá do Oceano Atlântico nunca termos reparado nisso até agora. Esse governo sempre foi apoiado e financiado pelos dólares estadunidenses, assim como outras ditaduras do Oriente Médio e da América Latina nas últimas décadas. Em troca desse apoio o governo egípcio dava suporte às políticas israelenses e fazia pressão contra a influência do Irã na região.

Por esse motivo, os olhos mais atentos puderam perceber as mudanças no discurso do governo dos EUA de acordo com o fortalecimento dos movimentos populares no Egito:

No primeiro momento o apoio de Obama era para que Mubarack permanecesse no poder, afinal sua queda significaria perder um aliado importante na chamada “Guerra ao Terror”.

Vendo que os movimentos sociais ganhavam cada vez mais força e adesão popular, não apenas no Egito, mas ao redor do mundo todo, o discurso mudou: que saia Mubarack, mas só em setembro, quando se realizarão novas eleições. Assim haveria tempo para se peparar um substituto à altura.

Mas isso não foi o suficiente ainda, e as massas continuaram a se agitar. Vendo que esse era o fim inevitável o discurso mais uma vez s adapta e vira-se contra o ditador derrotado, exigindo sua saída imediata do poder, como uma última tentativa de não queimar muito o filme e ainda conseguir alguma influência junto ao novo governo democrático a ser instituído.

A revolução aconteceu depois de 18 dias agitação, conflitos entre manifestantes e uma efervescência política que há muito não se havia, e foi isso que assustou mais os detentores do poder.

Os manifestantes egípcios eram na sua maioria jovens e mulheres, com diploma universitário e desempregados, desiludidos com a realidade e o status quo de seu país e indignados com a política praticada pelo seu governo.

E esse é exatamente o motivo do medo: essa descrição (jovens, desempregados, desiludidos e descontentes) está longe de ser típica do Egito, ou mesmo do Oriente Médio, e pode ser aplicada à praticamente qualquer país, tanto Árabes quanto Latinoamericanos e Ocidentais em geral.

Conseguiu visualizar o tamanho da encrenca dos  donos do poder se essa história de sair às ruas e reivindicar mudanças virar moda?

Por isso a grande mídia ocidental (e capitalista) já pôs em prática diversas estratégias para deslegitimar as mudanças alcançadas por lá, como colocar a Irmandade Muçulmana numa posição de liderança dentro dos movimentos, e vinculá-los aos grupos terroristas favoritos da famigerada “Guerra ao Terror”.

É claro que nem tudo são rosas (ou nesse caso devo dizer jasmins?) e não veremos a ascensão de um novo modelo político e social que supere todos os problemas desses países, mas o fato de que um povo que viveu 30 anos sob um regime ditatorial conseguiu alcançar por sua própria conta, sem (ou melhor, contra) a intervenção imperialista dos EUA, merece destaque e celebração.

Agora são os militares que estão no poder no Egito, pelo menos provisoriamente se cumprirem sua palavra, e uma nova constituição será redigida e submetida a plebiscito. Não é a melhor situação, nem a mais democrática, mas já é um grande avanço no país.

O que devemos respeitar, e copiar, é a força e a coragem que levou o povo às ruas na defesa de seus interesses e na busca por mudanças! Essa situação que nos parece tão inacreditável é o que deveria ser natural! Afinal, se nós nos consideramos uma democracia, e temos tanto orgulho disso, deveria ser mais do que comum que estivéssemos acostumados a reivindicar nossos direitos! Ou será que o que temos por aqui não passa de uma pseudodemocracia? Uma ditadura mascarada do capitalismo ocidental/global? Onde muitos interesses (políticos e econômicos)  estão em jogo, e a voz de nosso povo está ainda mais abafada do que esteve por tantos anos a voz do povo egípcio?

Enquanto isso, por lá as coisas continuam: Tunísia, Egito, Jordânia, Argélia, Iêmen, Marrocos, etc… E por aqui também as coisas continuam… em silêncio.

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9 responses to “Quem tem medo do Oriente Médio?”

  1. Gabriel Alarcon Madureira says :

    Ótima análise Diego! E agora temos a Líbia também em plena efervescência revolucionária. Concordo com você sobre o discurso fluído e oportunista da diplomacia americana: ficam explícitas as mudanças de tom em prol das forças hegemônicas. Bem, está se falando muito que esse movimento árabe de contestação e derrubada de líderes é também a revolução do facebook e do twitter. Eu tenho cá pra mim que as coisas são mais complexas. E você, o que acha?

    • Diego Coletti Oliva says :

      Ouvi (e li) muito sobre a influência das redes sociais nos movimentos no mundo árabe, alguns analistas inclusive colocando as mesmas como o grande estopim das mudanças. E assim como vc, acho que não é tão simples. Com certeza as redes sociais causaram grandes mudanças na forma como as pessoas são capazes de se organizar e mobilizar, e tiveram seu papel no caso do oriente médio com certeza. Mas não me arrisco a dizer que foram o fator principal do movimento ter dado certo, nem tampouco de terem sido indispensáveis pra isso.
      Na minha opinião o que vimos foi muito mais o despertar de um povo cansado da opressão do que as consequencias das redes sociais.
      Elas foram importantes sim, muito importantes, mas o que aconteceu na praça Tahrir foi muito mais do que um grande flash mob revolucionário!

  2. Carolina Ribeiro says :

    Amado como sempre adorei seu post!
    Fora alguns errinhos de português hahaha concordo com sua visão, afinal fui eu uma das maiores incentivadoras para vc escrever sobre esse assunto!
    Além de uma “revolução das redes sociais” como salientou o Gabis tbm temos a posição “Veja” que nos diz que toda essa revolução foi feita para os “terroristas” do oriente médio tomarem o poder, e formarem no mundo um campo de guerra de homens-bomba
    Engraçado porque em todos os movimentos de revolução popular há o terror das potências perderem seus postos, com isso tentam sempre desacreditar as possíveis mudanças.
    … mas a elite sempre acha q sabe mais que o povo, não é mesmo? No Brasil mesmo que exista uma minoria pensante, acredito que a maioria esmagadora se acha completamente detentora da verdade, pois eles lêem a Veja. “Amém”

    Parabéns mais uma vez!

    • Diego Coletti Oliva says :

      Como eu já disse uma vez em outro lugar: “Leu na Veja? Azar o seu!”… Mas é verdade, os veículos dominantes da mídia (ou o PIG como diria Paulo Henrique Amorim) estão fazendo a maior lavagem cerebral sobre as consequencias negativas da revolução árabe (vide a capa da Veja dessa semana)… O que podemos fazer e dar nosso pitaco e esperar que as pessoas tomem consciência por si de que tem algo errado nessa história!

      Te amo meu anjo!Obrigado por me incentivar e por comentar!

  3. Silvelena says :

    Na minha classe profissional tem tanta ignorância que muitos professores se “acham” os bacanas por lerem a Veja! Realmente estamos muito longe de qualquer manifestação contra o poder.
    Baseio me na reunião de sindicato que estive, professor não se considera político…Portanto não termos mudanças tão cedo nesse País.

    Diego você arrasou no artigo, como sempre escrevendo esclarecedoramente. Tenho certeza que vai longe com essa história de escrever.
    Parabéns e muito sucesso

    • Diego Coletti Oliva says :

      É Silvelena, infelizmente alguns professores (ou muitos) ainda não se deram conta do tamanho do poder político que possuem, não apenas como cidadãos mas como formadores de opinião!

      Enquanto isso outro formador de opinião (a mídia, especificamente meios como a Veja e outros do mesmo alinhamento) fazem uma verdadeira lavagem cerebral nos seus leitores (esses com certeza muitos!) e assim nossas massas se mantem inertes e reacionárias!

      Obrigado pelos elogios, espero que eu consiga mesmo trilhar por esse caminho! Fico feliz que tenha comentado!

      Grande beijo!

  4. sebas says :

    É meu caro, a união de um povo que tem realmente um objetivo em comum e coragem para ir em busca do mesmo é capaz de realizar coisas que nem sempre compreendemos que está dentro de nós apenas adormecida (ou esquecida, ou sufocada). A presença do dedinho de tio Sam mais uma vez nos remete à pensar em como é possivel um pais exercer tanto poder de opressão sobre o resto do planeta. Deste episódio, o que gostaria realmente é que nós tupiniquins, tiremos proveito da lição de união em pról do bem comum. Acorda povo brasileiro! lembremo-nos do poder que temos nas mãos na hora de escolher nossos representantes nas urnas.
    Veja o exemplo mais recente : Bonus para professores de 20 porcento divididos em até quatro parcelas e Aumento real de até 45 procento para bolsa familia.
    É com fins eleitoreiros ou não é? professor vota em quem ? Espero realmente que aquele povo encontre o caminho para sua democracia e faça dela bom uso, o que pessoalmente acredito que ainda não conseguimos.

    • Diego Coletti Oliva says :

      Infelizmente tenho que concordar que por aqui nossa democracia é mais de fachada do que de verdade, mas acho que isso também não exclusivo do nosso país, o Ocidente em geral é assim, uma pseudo democracia submetida aos poderes do capital internacional e em especial dos EUA!

      Tomara mesmo que possamos aprender com o que está se passando no Oriente Médio, e que possamos quem sabe copiar algumas das iniciativas de lá!

      Enquanto isso só o que podemos mesmo é desejar boa sorte pra eles!

      Fico muito feliz que tenha comentado pai! Comente mais por aqui!

      Beijão! Saudades!

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