O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – Parte V – A Sétima orelha:

Por Sérgio Alberto Ramos Jr.

Januário caminhava sob o forte sol do sertão, cansado e com fome já havia perdido as contas dos dias e noites errantes, de vila em vila, fazenda emfazenda, contava com a hospitalidade de estranhos e já havia se habituadoa dividir abrigos com animais. Simplesmente tinha se esquecido do que era ter uma casa para voltar após um longo dia de trabalho, uma camaquente e farta refeição antes de dormir, sua jornada de vingança havia lheconsumido tanto fisicamente como mentalmente, por vezes acreditava queiria ser emboscado, que estava sendo seguido a todo instante e que, dealguma forma, morreria antes de encontrar o último assassino e seu irmão.

Estava se dirigindo para a região de Vila Rica, atualmente conhecida como Ouro Preto, ainda longe de avistar qualquer sinal de civilização estava exausto, faminto e sem mais víveres para prosseguir. Januário costuma vaviajar se orientando por rios e córregos da região, que conhecia muito bem, seguia então o curso de um pequeno riacho que descia dos morros à suafrente. Antes do cair da noite conseguiu avistar uma paupérrima cabana, cercada por uma mata fechada, quase não podia ser identificada, com muita dificuldade Januário conseguiu se aproximar e percebeu que a cabana era habitada, lá se deparou com seu único habitante: um homem velho e muito sujo, vestindo trapos e tão magro que parecia ter saído dos contos de assombração que os boiadeiros costumavam contar em volta da fogueira.

O homem se aproximou, revelando uma barba comprimida e o rosto cheio de rugas, ofereceu pouso e comida para Januário, conversaram bastante, o velho dizia que ali morava havia muito tempo, apanhando as drogas do sertão que possuíam fins medicinais e vendendo nas vilas próximas, uma prática desgastante e muito pouco rentável. Depois de uma boa noite desono, Januário colocou-se a arrumar suas tralhas e prosseguir sua jornada, cheio de incertezas, porém foi convidado pelo velho raizeiro para queaguardasse até o almoço.

Januário, de bom grado ficou, e enquanto a água a ser usada no ensopado borbulhava sobre o fogo, sentou-se próximo ao velho oferecendo-lhe também um cigarro de palha. Em meio à baforadas, Januário inquietou-se sobre o porquê daquele homem escolher uma vida tão agreste e isolada, ao ser inquirido sobre o passado, o velho homem sentou-se frente a seu convidado e com um olhar distante relatou que era um boiadeiro experiente e herdeiro de grandes pastos distantes dali, porém vivia de tal forma não por opção própria, mais sim por que era um homem caçado.

Disse que era perseguido por um assassino impiedoso, que havia desgraçado sua família, matara todos seus outros seis irmãos e arrancava-lhe as orelhas como forma de troféu. Afirmou ainda que era um homem de bem e que não sabia o motivo pelo qual esse homem da família Garcia estava lhe perseguindo.

Ao retornar o olhar que mirava o vazio de volta para o rosto de Januário, o velho estacou diante do braço estendido, tendo na mão fechada uma fiada com seis orelhas secas. Com os olhos já úmidos, o pobre velho fitou a expressão de ódio no rosto aquele que então passara a reconhecer, tinha a testa franzida e os dentes à mostra, como um cão enraivecido exclamoucom uma voz grave: – Januário Garcia Leal está bem na sua frente, Bento da Silva! E só me falta a sua orelha!!

Januário ainda perguntou a Bento se um homem de bem podia despelar a outro como se faz a um novilho no matadouro, porém não houve resposta,o velho estava atônito e evitava olhar para a face de Januário que podia sentir o medo e a perplexidade daquele sujeito já tão castigado pela própria vida. Pegando-lhe pelo braço e o arrastando para longe da mata fechada, disse que havida lhe sido um bom anfitrião, oferecendo abrigo e comida, sem o trair, e como prova de sua gratidão permitiria que caminhasse cem passos e que só depois atiraria, se errasse estaria livre, caso contrário o próprio Januário é que estaria.

Bento da Silva ainda lhe pediu perdão, mas desta vez foi Januário que nãolhe deu resposta, empurrando-o para frente, apenas disse:

– Caminhe!

Entre passos trêmulos, Bento da Silva foi se distanciando, sabendo que sua jornada de fuga e remorso estava para acabar, enquanto Januário, sempressa carregava seu bacamarte, sabendo que sua jornada de perseguições e vingança estava para ser completada.

Bento da Silva transpirava mais o que o calor impunha, não estava correndo, mas se sentia ofegante, nunca sentira tanto medo e a morte tão perto, no seu âmago amaldiçoou seu finado pai e cada um de seus irmãos, lembrando que não tivera um dia paz desde que mataram João Garcia, eao calçar o centésimo passo ouviu o estampido e a violência do chumbo penetrando sua carne. Atingido na altura do pescoço tombou sobre o capim seco e sentiu sua vida se esvaindo rápido conforme a terra bebia seu sangue, e logo após estava morto, sob a crescente sombra de Januário, que se ajoelhou junto ao corpo imóvel, decepando a última orelha. Com o sinistro colar em suas mãos, Januário olhou para o céu chamando por João e exclamando que ele estava vingando, que a justiça a havia finalmentesido feita.

Considerações sobre a história das sete orelhas:

São muitas as versões acerca dos feitos de Januário Garcia Leal, algumas orotulam como meliante fora da lei, sendo que em outras ele é tido como um justiceiro implacável, longos trechos que aqui transcrevi foram extraídos doque foi considerada a sua primeira biografia: “A vida de Januário Garcia,O Sete Orelhas”, escrito por José Teixeira Meirelles em 1887. Porém, existem estudos e publicações mais recentes que permitem um olhar mais apurado sobre o caso, além de uma análise sobre a trajetóriada própria família Garcia, realizado em um brilhante trabalho de pesquisapor Marcos Paulo de Souza Miranda em “A Jurisdição dos Capitães”(ISBN 85-7308-625-4), de 2003. Obra no qual retirei praticamente toda a informação utilizada nesta narrativa.

Outro lugar onde é possível obter razoáveis informações sobre o caso é no Arquivo do Museu Municipal a cidade de Casa Branca – SP, que mantém documentos variados da época e onde tive o primeiro contato com a história das sete orelhas.

Os questionamentos acerca dos feitos de Januário, bem como seu destinosão muitos, existem vários documentos oficiais onde autoridades exigem sua prisão, bem como a de seu irmão Salvador e o seu tio Mateus, o que indica que possuía uma bando, e por tanto, não devia ter atuado sozinho em sua vingança e tampouco nos feitos que lhe foram atribuídos posteriormente. É fato que a ordem para a perseguição e prisão dos referidos Garcia partiu do próprio D. João VI, príncipe regente de Portugal.

De acordo com os registros, Januário teria ficado “desaparecido” até a ocasião de sua morte, que ocorre em circunstâncias bastante curiosas. Supostamente morto em um acidente provocado por uma porteira, que o atingira no crânio, ironicamente na região da orelha direita, causando um trauma que o levou à morte.

Porém, de acordo com trecho extraído da obra de Miranda:

“Finalmente a polícia resolveu mover-se, de fins de 1803 acomeço de 1804, em sua perseguição. Ele defendeu-se algum tempo, cometendo por conseguinte novos crimes; porém isso não lhe interessava, visto como terminara sua ação vingativa. Muito astucioso, escondeu-se bem escondido e fez constar por toda aparte que tinha morrido. A família abriu inventário de seus bensem cartório, fez-se a partilha dos mesmos e foi devidamente homologada pelo juiz. Januário Garcia Leal, como verdadeiramente se chamava, estava juridicamente morto. Era o que ele queria. Deixaram o pseudo morto em paz.”

Parece que muito ainda pode ser contado sobre o temível Januário Sete-Orelhas.


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6 responses to “O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – Parte V – A Sétima orelha:”

  1. Gabriel Alarcon Madureira says :

    Um final bem inusitado para a história das sete orelhas. O destino muita vezes não espera, mas vem ao encontro. Parabéns Serginho pela epopéia de Januário. Como sugestão acho que você deve continuar no esquema de literatura-histórica, já pensou em romancear a trajetória de outra figura histórica?

  2. Sérgio A. Ramos Jr. says :

    Oopa! E no momento estamos trabalhando nisso!

  3. Fabiano Silva Leal says :

    Sou do Leste de Minas, familia paterna Rodrigues Pena Leal e Materna Portela da Silva mas este caso além de cabuloso e bem tipico de historias contadas no norte de Minas mas parabens pelo belo trabalho de investigaçao historia, em Salinas no Norte de Minas existe diversos “causos” contados pelo povo que deveria ser investigado. Valeu!!!

  4. Marcia Kamal says :

    Januário Garcia não é uma história. É parte da nossa história. Sou descendente dele e fiquei sabendo de sua existência e feitos na minha infância, através de minha avó.

  5. francisco fialho says :

    Existe um livro, escrito por Luciano d’Alessandro, que conta a história de perseguições aos descendentes dos colonos de origem flamenga no Brasil
    o título do livro é: ‘O sete orelhas’
    editora Marmanese
    Que história é essa? o Sete Orelhas realmente era perseguidor de flamengos?
    Alguem pode explicar?
    Francisco Fialho
    frfialho@terra.com.br
    97979 7149

  6. Raquel Garcia Franco Passarello says :

    Januário Garcia leal era meu bisavô , papai contou essa história várias vezes.

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