O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – Parte IV

Por Sérgio Alberto Ramos Jr.

Seis Orelhas:

Januário agora se encontrava na região de Diamantina, no vale do Jequitinhonha, onde a atividade mineradora era muito grande. Já bem próximo do Arraial do Tejuco, como então se chamava Diamantina, Januário foi convidado por uma comitiva que seguia em direção a uma ermida (pequena igreja), local onde vivia um ermitão que era tido como santo, pois estava a operar curas e milagres nos peregrinos que a ele se dirigiam.

Aceitando o convite dos romeiros, passou a acompanhar aquele punhado de homens simples até uma pequena aldeia que havia se formado ao redor da tal ermida. Tratava-se de uma vila paupérrima, com casas mal dispostas e cobertas por capim, muito primitivas. Januário com seu jeito sempre fugidio, foi tomando conta do que ocorria naquele comunidade simples e ingênua.

No dia seguinte pela manhã, ajudou os donos do rancho onde havia dormido a melhorá-lo, assim como o de outros romeiros, conseguindo muitas informações sobre as pessoas que ali moravam, porém nada conseguir descobrir sobre o misterioso ermitão que atraíra toda aquela gente.

À tarde voltou à igreja para fazer suas orações, ajoelhou-se e de olhos fechados se manteve concentrado, neste momento entrou na capela o referido ermitão que passou a reparar naquele homem, rezando fervorosamente, lentamente se aproximando, pode então reconhecer, apesar dos traços castigados pelo tempo e a vida no sertão, a feição do grande inimigo de sua família, aquele que houvera matado seus irmãos implacavelmente, fazendo que ele mesmo fosse obrigado a assumir o papel de um monge curandeiro para escapar de sua fúria vingativa, sem dúvidas aquele era Januário Garcia Leal.

O falso monge, que há tempos estava ludibriando os humildes moradores daquele arraial era Luis da Silva, ao encontrar o temido Januário, pensou em fugir, mas preferiu usar de sua incrível sorte e eliminá-lo de uma vez. Pediu ao sacristão para oferece abrigo e comida para o viajante mais uma noite, como gratidão por sua prontidão em ajudar os moradores. Januário foi então convidado a pegar todas as suas tralhas e se instalar na casa do próprio ermitão, teve boas acomodações e boa refeição, mas começou a desconfiar do fato do tal monge nunca o encontrar cara a cara.

Ao se retirar para dormir ficou atento aos ruídos dentro da pequena casa e ao ouvir o monge entrar, colou o ouvido junto à fina parede de tábuas, foi aí que ouviu em meio a cochichos o eremita dizer ao sacristão que o viajante que acolhera era na verdade um assassino e que viera ao seu encontro para matá-lo, sendo assim iria dar cabo neste ainda esta noite, estaqueando-o enquanto dormia.

Ordenou ao sacristão que esperasse do lado de fora, vigiando a entrada da casa, e dissuadindo algum curioso no caso dos gritos serem ouvidos e que logo em seguida voltasse para ajudá-lo a se desfazer do corpo, uma vez que, o que contassem ao ignorante povo do arraial seria considerado verdade.  Luis da Silva, confiante em seu plano agarrou um punhal e se dirigiu ao quarto onde estava Januário, silenciosamente caminhou em direção à cama, apertando firmemente o cabo do punhal com a mão direita e na esquerda um pequeno candeio, que segurava próximo ao rosto.

Januário fitava cada movimento do vulto que caminhava em sua direção, observando-o com os olhos semicerrados, ao chegar mais perto olhou o rosto coberto por uma barba abandonada há muito tempo e que se fundia com um cabelo em mesma situação, mal podia reconhecer Luís da Silva, a não ser pelos olhos, aqueles mesmos olhos nervosos e cheios de culpa, semelhante aos outros assassinos que encontrara até ali. Permaneceu em seu sono fingido até que homem parou ao lado da cama, mirou bem no seu peito e levantou o punhal acima da cabeça, usando toda a extensão de seu braço desferindo um golpe forte e pesado, mas que encontrou no caminho oposto o famoso terçado de Januário, levantado subitamente do meio dos cobertores enrolados sobre seu corpo.

O contragolpe atravessou o antebraço do falso monge, separando-o do resto do corpo. Em meio a berros de dor e desespero Luis da Silva arremessou o a chama que portava, espelhando pequenas labaredas pelo quarto, Januário saltou sobre seu inimigo, lhe atingindo várias vezes e arrancando-o a orelha ainda vivo. De pé, em frente ao corpo agonizante do assassino, Januário contemplava sua vingança enquanto vinha a sua mente a imagem do irmão pendurado na figueira, sem a pele, como um animal abatido. Antes que o fogo dominasse todo o aposento, atingiu a cabeça de Luís com um último e devastador golpe que o matou instantaneamente.

Enquanto o sacristão tentava conter o povo que se aglutinava na porta da casa, Januário se esgueirava furtivamente pelos fundos, apesar de partir totalmente a esmo, sabia que sua empreitada estava chegando ao fim e somente a orelha de Bento da Silva faltava e sua fiada.

 

Anúncios

Tags:, ,

2 responses to “O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – Parte IV”

  1. Luciano Bruno Ribeiro Garcia D'Alessandro says :

    Sr. Ramos Jr.,
    gostaria de saber onde o sr. quer chegar com publicações destes textos sobre Sete Orelhas?
    Seria muito importante antes de escrever algo sobre Januário Garcia Leal, que o sr. esclarecesse onde pretende chegar.
    Conforme li das suas publicações anteriores, o que me pareceu é que o sr. quer rememorar um suposto assassino com o nome Garcia Leal. Confere?

    • Sérgio A. Ramos Jr. says :

      Olá Luciano!

      Em resposta ao seu post, digo o que já havia explicitado na parte I deste artigo que aqui transcrevo em doses homeopáticas, que é o de abordar acontecimentos e personagens de nossa história com simples intento de torná-la mais interessante ao ouvinte (ou leitor). Como pesquisador do tema, você deve bem saber que este acontecimento e todos seus personagens carecem de fontes oficiais, sendo carregado de regionalismos, da tradição oral e versões até mesmo antagônicas. Como vê, essa sequência de “contos” sobre Januário e seus feitos ainda não acabaram e as versões, bem como as opiniões acerca de sua índole ainda serão abordadas. Além disso, as informações que utilizo ao redigir não surgiram na minha cabeça por meio de epifanias, os autores e obras no qual me baseio também serão devidamente respaldados e citados quando concluir essa narrativa, não antes ou durante, pois como disse, pretendo abordar esse assunto de maneira instigante, quase literária, e não através de uma maçante metodologia científica, elaborando um texto permeado de citações e estritamente pertinente a determinada versão. Concluindo, penso que rememorar, ou seja, trazer de volta à memória, faça parte do meu ofício, se vilão ou herói esse é um julgamento livre, individual e totalmente reservado ao leitor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: