O jogo na educação – Episódio I – A ameaça ao tradicionalismo em sala

Por Eduardo Augusto Küll

Desde muito pequeno aprendemos a jogar, acredito que o jogo é inerente ao ser humano desde a fecundação com a competição dos milhares de espermatozóides. Claro que os jogos que queremos utilizar e citar nesta pequena saga não irão matar milhões e nem teremos apenas um vencedor, mas segundo Johan Huizinga em seu livro Homo Ludens: “Como a realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana, é impossível que tenha  seu fundamento em qualquer elemento racional, pois é no mito e no culto que tem origem as grandes forças instintivas da vida civilizada: o direito e a ordem, o comércio e o lucro, a indústria e  a arte, a poesia, a sabedoria, a guerra e a ciência. Todas elas tem suas raízes no solo primitivo do jogo.”

Mas aprendemos a jogar no instante que nós nascemos, ou por qual razão um bebê grita de prazer ao brincar? Ele grita pois há lógica naquilo que ele faz e para ele isso é suficiente. O brincar é prazeroso e ao mesmo tempo desenvolve o raciocínio e outras capacidades citadas posteriormente. Mas neste momento fica definida a grande diferença entre brincar e jogar, onde segundo Prof. Dr. Márlon Soares da UFG em seu livro Jogos para o ensino de química: O jogo necessariamente possui regras definidas e a brincadeira não possui limitações baseadas em regras. Um jogo oficial de futebol usa as regras definidas pela FIFA, tanto no interior da Ucrânia como na copa do mundo, já a famosa “pelada” entre amigos pode quebrar as regras para melhorar a diversão ou facilitar o acesso à mesma.

Assim o uso de regras limita o jogo, cria a dificuldade e coloca o cérebro para funcionar e é nisso que focaremos esta primeira parte, o cérebro e seu uso nos jogos.Além disso precisamos entender que o ser humano é um sobrevivente nato e possui instintos que o levam a ser competitivo. Logo este sempre quer vencer e luta para tal, por isso, segundo Huizinga, o blefe e a trapaça fazem parte do cotidiano.

O homem desde sua origem, busca a felicidade, independente de sua cultura, de suas características étnicas, de sua classe social ou do seu nível de escolaridade. Todos também (pais, mães, professores…) desejam o melhor para a criança, para o jovem e para o adulto. Em síntese, a humanidade busca, constantemente, a plenitude do ser humano em qualquer fase de sua vida, como também no seu cotidiano. Todas as pessoas sonham em ter um manual mágico onde para cada problema exista uma página com a resposta perfeita.

Nesta busca pelo manual mágico, a ciência tem contribuído apontando caminhos, desmistificando conceitos e abrindo perspectivas para a mudança dos paradigmas vigentes. Estudos sobre o cérebro humano e a ludicidade recebem nossa atenção especial, pois se utilizados como estratégia de desenvolvimento, levam a uma vida mais plena e prazerosa, isso até mesmo antes do nascimento do indivíduo, pois suas reações, que serão apresentadas logo após seu nascimento, estão ligadas aos estímulos que recebeu durante a gestação. Compreender a conduta do feto é o primeiro passo para se conhecer o desenvolvimento do ser humano, assim, acredita-se que o brincar e a inteligência estão presentes no ser humano antes mesmo dele nascer.

Estudos relacionados ao cérebro humano colocaram em xeque muitas teorias, mas o conceito de inteligência é o que tem se mostrado como uma das pesquisas que mais revolucionou o meio educacional e, portanto, é a que tem influenciado diretamente na busca de mudanças dos paradigmas vigentes. Isto porque a humanidade passou por muito tempo entendendo a inteligência a partir das concepções de René Descartes (século XVII). Sua teoria postulava que o pensamento deduz-se a existência, surgindo daí a famosa frase: penso, logo existo, que deu origem à teoria do conhecimento racionalista.A partir daí, a razão tornou-se um instrumento poderoso de autodeterminação do ser humano. Acreditava-se que por meio da razão o homem encontraria suas repostas, teria dignidade, seria valorizado na sociedade e alcançaria sua plenitude.

A supervalorização da razão deu origem aos valores e crenças vigentes responsáveis pelas ações dos adultos de hoje. Outro fator marcante foi quando Alfred Binet, pesquisador francês do início do século XX, criou os testes de quociente intelectual (QI), através de enfoques lingüísticos e lógico-matemáticos. Os estudos de Binet repercutiram no meio educacional mundial, influenciando escolas no uso excessivo da razão.

Nos anos 50 (do século XX) os estudos da neurociência se intensificaram, causando um grande impacto no meio educacional. Em destaque Roger Sperry (Nobel de Medicina e Fisiologia em 1981 por ter provado cientificamente que o cérebro humano tem funções diferenciadas em seus dois hemisférios) e Ned Herrman (teoria sobre a dinâmica cerebral, mapeando o cérebro em quatro quadrantes) que com suas pesquisas descobriram que o hemisfério esquerdo há predominância da razão e no direito da emoção.

Estes e outros estudos mostram que o cada ser humano pensa, cria e aprende de maneira diferente dependendo da predominância de um dos hemisférios ou da ação inter-relacionada de ambos. Assim, Howard Gardner, pesquisador atual provou sua teoria sobre as inteligências múltiplas quando uniu o uso de computadores aos estudos neurológicos. Com imagens perfeitas, Gardner conseguiu visualizar qual parte do cérebro é utilizada quando fazemos atividades como ler, resolver problemas, escrevendo, rindo, etc. A pergunta que a maioria faria, talvez fosse:

– Mas qual é a relação do uso do lúdico e as descobertas da dinâmica cerebral?No estudo do mapeamento cerebral foi determinado que o brincar está localizado no quadrante superior do hemisfério direito do cérebro. Como se sabe, a mente humana tem potencial ilimitado e o homem usa muito pouco deste potencial. Inúmeras pesquisas apontam um percentual de utilização do cérebro que varia de 1% a 10%. Portanto, há uma fonte inesgotável de possibilidades a ser ainda explorada. Destes 10%, analisando os paradigmas vigentes, percebe-se que a racionalidade ocupa grande parte deste percentual, ficando cada vez mais claro o quanto o ser humano não se utiliza da ludicidade como uma estratégia de desenvolvimento. Analisando os trabalhos de Ned Herrmann, pode-se perceber que pessoas que…

Tabela 1: potencialidades dos hemisférios cerebrais

…potencializam o hemisfério esquerdo são

…potencializam o hemisfério direito são
  • Financistas
  • Mais técnicas
  • Administrativas
  • Organizadas
  • Implementadoras
  • Inovadoras
  • Integram
  • Estabelecem conceitos facilmente
  • Interessam-se por novas tecnologias
  • Compartilham
  • Mais expressivas

No processo criativo

  • Críticas
  • Investigadoras
  • Disciplinadas
  • Brincam
  • Experimentam
  • Intuem
  • Vêem o todo
  • Interagem com as pessoas
  • Acionam o cinestésico
  • Acionam o espiritual
  • Acionam o sensual
  • Acionam o tátil

No aprendizado

  • Usam a lógica
  • Racionalizam
  • Organizam dados
  • Estruturam as partes do todo
  • Julgam
  • Praticam
  • Exploram
  • Vivenciam
  • Descobrem
  • Qualificam
  • Elaboram conceitos
  • Aciona o emocional
  • Sentem
  • Internalizam
  • Compartilham

Predomínio

Razão

Emoção

Estas características não determinam um lado bom e outro ruim, pois ambos são importantes e não acontecem isoladamente, mas inter-relacionados. A plenitude das pessoas está no equilíbrio entre os dois hemisférios, entretanto, o homem usa muito pouco o hemisfério direito, cancelando elementos importantes para o lúdico fluir naturalmente.Ser lúdico significa utilizar mais o hemisfério direito do cérebro e, com isto, dar uma nova dimensão à sua existência humana, baseado em novas crenças e valores que se fundamentam em elementos que valorizam a criatividade, o cultivo da sensibilidade, a busca da afetividade, o autoconhecimento, a arte do relacionamento, a cooperação, a imaginação e a nutrição da alma. É, por isso, que as descobertas científicas sobre a dinâmica cerebral foram importantes para o estudo do uso do lúdico.

Diante dos avanços científicos e das mudanças tão rápidas em todos os setores da sociedade, é preciso buscar novas abordagens para focalizar a ludicidade no contexto atual. E, assim, o uso e a implementação de uma nova ferramenta didática pode ajudar a resgatar a potencialidade do uso do lúdico no aprendizado. Este tópico será relatado um pouco mais adiante.

Os debates desencadeados devido a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/1996) e a divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais permitiram o repensar pedagógico e ficou muito evidenciado o uso do lúdico como estratégia para a construção do conhecimento.

Os educadores são unânimes em afirmar que a educação é falha, rejeitam o ensino pela via do treinamento, da racionalidade excessiva, da repressão e da massificação. Por outro lado, são unânimes também em considerar a ludicidade como uma estratégia viável que se adapta a novas exigências da educação. O problema é que estes estudos ainda não foram suficientes para mudar as práticas vigentes.A aceitação da ludicidade não garantiu uma postura lúdico-pedagógica dos professores, pois os mesmos acham que sabem lidar com esta nova ferramenta, porque um dia já brincaram. Entretanto, ao iniciarem o trabalho, deparam-se com muitas dúvidas, pois eles aprenderam muito sobre sua área profissional durante a formação acadêmica e muito pouco sobre ludicidade, tendo por isso poucos elementos de análise e compreensão desta ferramenta como instrumento de ensino.

Para sanar estas dificuldades, muitos educadores buscam na teorização o embasamento para o seu trabalho, outros partem diretamente para a prática. Teoria e prática são indissociáveis. A teoria leva ao saber e forma o teórico. A prática leva ao fazer e forma o animador. O educador lúdico é o que realiza a ação lúdica, inter-relacionando teoria e prática.A educação pelo uso do lúdico propõe uma nova postura existencial, cujo paradigma é um novo sistema de aprender brincando inspirado numa concepção de educação para além da instrução. Neste sentido, reflexões sobre: por que se joga? Onde se joga? Quando se joga? Como se joga são questões que se encontram, ainda hoje, no itinerário escolar, e as respostas a estes questionamentos são as molas propulsoras que motivam e inquietam os profissionais contemporâneos, pois a literatura tem mostrado que é possível ensinar sem entediar e que o jogo é o método de aprendizagem mais eficaz para a construção do conhecimento, independente da idade cronológica do aluno.

Vale lembrar que quando se fala de jogo na educação, atualmente, este tem uma conotação diferente daquele conceito que prevaleceu por muito tempo no Brasil, no qual a competição e as regras fixas eram os aspectos que o diferenciava das brincadeiras. Trata-se o jogo, hoje, de forma bem mais abrangente. Neste sentido, tanto pode ser competição, como apenas representar uma ação lúdica. É a ludicidade que dá o caráter de jogo às atividades escolares.O argumento dos educadores que defendem o jogo com ferramenta didática é que na aula em que a ludicidade ganha espaço, pois o aluno se aproxima de uma maneira mais prazerosa dos conhecimentos, ajudando na construção de novas descobertas, desenvolvendo e enriquecendo sua personalidade e, ao mesmo tempo, permitindo ao professor avaliar o crescimento gradativo do aluno, numa dimensão que vai além das tradicionais provas classificatórias.

Fim do Episódio I

*Texto baseado no livro: Santos, S.M.P. Ludicidade como Ciência –Editora Vozes

Versão em PDF aqui!

Anúncios

Tags:, , , ,

One response to “O jogo na educação – Episódio I – A ameaça ao tradicionalismo em sala”

  1. Silvelena says :

    Olá Eduardo!
    Gostei muito de ler seu texto, esclarecerdor e interessante. Só uma curiosidade: sou Educadora na Secretaria Municipal aqui na capital e a atual administração simplesmente fez sumir o lúdico de seus cursos e palestrar, dizendo não acreditar que tal método ajude na aprendizagem. Mostra-se que desconhecem o assunto.
    Espero ler mais artigos em breve.
    Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: