O problema da fé cristã no mundo atual – parte 2

Por Guilherme Diniz

Observando a história espiritual humana é possível notar que durante a antiguidade e idade média o principal objeto de investigação científica era o ser. Durante longos anos de evolução científica, a metafísica e a teologia foram as disciplinas mais difundida no ocidente. Tudo por causa da procura pela verdade, da essência das coisas. Não eram as técnicas nem as políticas as principais preocupações dos letrados, mas o absoluto, o eterno, o perfeito. O ser foi, portanto, por muitos anos o paradigma científico mundial. Hoje se sobressaiu a forma técnica de encarar a realidade em oposição a forma metafísica, em outras palavras, a humanidade, nos dias atuais, vê o mundo de maneira nova, sob os limites do fenômeno e sob o desejo de transformar o imanente, com isso, a busca pela essência do ser foi deixada de lado.

Para apontar a origem desse acontecimento, Ratzinger afirma que o filósofo italiano Giambattista Vico ao contrapor a fórmula verum est ens – o ente é a verdade – a sua própria fórmula verum quia factum: o fato é a verdade, preconizou a negligência da procura pelo ser. Com isso, o homem não é mais receptor da verdade contida na objetividade do ser, mas passa a ser ele mesmo através da suas ações o autor de uma “verdade subjetiva” e “histórica”. Espiritualmente o homem deixou o ser para aderir ao fato, isto é, deixou de buscar a verdade essencial do ente para buscar a verdade factual da história. Depois, passou do fato histórico ao comprovável tecnicamente. A metafísica que procura o ser foi substituída pela história que busca o fato que por sua vez foi trocada pela técnica que pretende transformar os fenômenos. O mundo e o próprio ser humano são agora objetos da técnica que pretende recria-los. O problema não está exatamente em transformar o mundo, pois o mundo existe para o homem, nem está em manipular a vida, pois um tratamento médico não deixa de se manipulação, o impasse está na pretensão em estabelecer a techne como reguladora de todo fenômeno natural ou humano.

A técnica é a grande promessa de progresso. O bem-estar material pode ser alcançando pela evolução da tecnologia e com isso a felicidade é possível, visto que esta provém da primeira. O problema principal parece ser justamente esse. A esperança humana com essa mudança de paradigma foi imanentizada. Tudo o que o homem deseja e espera está no mundo, pior ainda, tudo o que o homem deve procura está circunscrito ao plano fenomênico, assim a verdade se encontra necessariamente no imanente.

Tradicionalmente dizemos que o ser das coisas foi pensado pelo espírito absoluto, isto é, pelo pensamento elas foram criadas. A palavra grega que corresponde a pensamento é logos; todo ser é logos, todo logos é pensamento. O homem pensando o ser reflete sobre o pensamento original, pois o seu logos faz parte do único logos. Pensar o ser é pensar o logos primeiro. Daí se diz que a verdade é eterna, visto que o pensamento humano do pensamento original não se encerra no tempo, mas possui um sentido contínuo. O conhecimento verdadeiro está nessa eternidade lógica, isto é, a verdade descoberta é atemporal, existia antes do logos humano a ter pensado e continuará a existir para sempre. O pensamento humano chega ao conhecimento da verdade sem criá-la porque ela já existia anteriormente. O homem não cria a verdade, pois a verdade está na eternidade. O homem dispõe ao seu redor de objetos temporais, mas chega a verdade por via atemporal, pelo logos.

Por essa razão, dizemos que a pretensão técnica de encontrar a verdade imanente ao fenômeno está completamente equivocada. Circunscrever a verdade ao imanente é o mesmo que pôr toda a esperança e com isso toda a crença no mundo. Entretanto, não está no mundo a felicidade nem a verdade. É o mundo que existe em função do homem e não o homem em função dele. Graças ao logos, a eternidade pode ser pensada e a verdade que está exclusivamente no ser e na eternidade pode ser conhecida. O que o mundo revela são apenas dados empíricos que imprimem no espírito a sua figura, ferramentas que auxiliam o entendimento, mais que não o substituem.

A grande carência humana nos dias atuais é a falta de firmeza em algo. Nada atualmente parece ser suficientemente sólido para garantir ao homem segurança existencial. Quando se põe toda atenção para o imanente se percebe que nada é consistente, pois todo o imanente é mutável. Nesse momento estou vendo algo que se apresenta a mim de certa forma, com certas qualidades, daqui a pouco esse objeto será diferente do que era no momento em que o observava. Até mesmo eu que o observo estarei mudado ao vê-lo pela segunda vez. De modo geral, dizemos que o homem e o mundo são mutáveis e que o primeiro carece de algo que tenha em sua existência a duração eterna. Ora, a única coisa que é eterna deve ser necessariamente incriada, pois se foi criada ela teve um princípio. Aquilo que não foi criado é Deus, a causa de si, que sempre existiu.

Aqui se encaixa uma das grandes dificuldades da compreensão da fé no mundo atual. O homem “abandonou” o transcendente porque no consegue compreende-lo completamente e por essa razão voltou-se para o imanente. Deus está justamente no transcendente e por isso não pode ser conhecido exatamente ou provado como fazem as tecnologias. Deus é um sentido transcende que se confia e se duvida, mas que nunca se conhece. Essa dualidade do pensamente calculador e do pensamento reflexivo, apesar de necessárias, se opõem, pois um está voltado para a factibilidade e o outro para o sentido das coisas.

A fé que busca o sentido do ser não existe aquém do factível orientado pela técnica, nem é uma forma imperfeita de conhecimento, mas é antes de tudo uma decisão fundamental necessária do homem, isto é, o homem precisa crer em algo, mas independente de sua opção ele enfrentará a dúvida de estar errado. Ratzinger define a fé da seguinte maneira:

“é o ato de o ser humano firma-se na realidade como um todo, sem que esse ato seja redutível ao conhecimento, por ser incomensurável em relação ao conhecimento; é a atribuição de sentido sem a qual o ser humano como um todo ficaria fora de lugar; é um sentido que é anterior ao calcular ou ao agir do ser humano e sem o qual ele nem teria condições de calcular ou agir, porque ele só pode fazê-lo no lugar onde há um sentido que o sustente” (p. 54).

Se não podemos fabricar esse sentido, também não podemos dá-lo a nós, pois ele não é imanente e por isso não o dominamos somente o recebemos. Em termos gerais, o cristão é aquele que acredita que existe um sentido universal para todas as coisas e reconhece que essa crença lhe foi fornecida, isto é, Deus lhe forneceu o acesso ao sentido de sua eternidade: a fé.

Aqui está o fundamento do cristianismo, a base que sustenta a vida de cada batizado. A confirmação da fé é o sustentáculo do fiel, pois é ela que lhe proporciona o “chão”, a segurança existencial de sua vida, a confiança no sentido único e eterno que transcende a capacidade de agir, construir e transformar do homem. “Firmo-me com confiança num chão que me sustenta, não porque tenha feito ou calculado por mim, mas justamente pelo contrário: porque não foi feito por mim e porque não posso confirmar a correção dos cálculos” (p. 56). Não sou eu o dono do sentido das coisas e o do meu próprio, mas me insiro de maneira mística e me firmo no sentido universal revelado pela fé. Em outras palavras, o meu logos que é parte do logos universal me exige que essa adesão mística e sobrenatural seja feita logicamente, isto é, racionalmente. A fé apesar de ser uma virtude mística, presente naqueles que buscam a realidade invisível e imutável, é racional e razoavelmente compreensível. Dizemos que a fé é um modo de entender a realidade do ser e que o pensamento técnico-científico é a forma de conhecer os fenômenos. A fé não procura conhecer com a técnica e a ciência o fazem, mas “entender o sentido ao qual se confiou” (p. 58). O entendimento é essencial para a fé, faz parte dela e de modo algum a exclui. Ele é a forma de elevar-se sobre o conhecimento dos fenômenos e ver de maneira completa o fundamento que se firmou, isto é, o sentido das coisas.

A fé cristã não um espiritualismo abstrato, mas uma atitude real com princípios concretos e históricos. A fé não se fundamenta em algo, mas em alguém. Ela está voltada para o humano e para o divino que historicamente se fez presente e revelou plenamente o sentido universal. Jesus de Nazaré é a pessoa da qual a fé se direciona porque foi nessa pessoa que se cumpriu o entendimento da fé. A fé ao voltar-se para Jesus está postulando que o firmamento e o entendimento é uma pessoa humana e divina ao mesmo tempo e sem contradição.

O significado da fé está na palavra “amém”, do hebraico mn, firmar-se. Aquilo que é firme não é relativo nem ambíguo, mas sólido, durável, necessário. A atitude do fiel no mundo atual em meio a relatividade e a falta de sentido sólido e universal é justamente oposta a ele. Ter fé significa confiar-se com firmeza no ser em si que dá o sentido fundamental da existência do fiel e do mundo. “O caráter inseparável de sentido, fundamento, verdade, que é expresso tanto no logos grego como no “amém” hebraico, sinaliza simultaneamente toda uma visão de mundo. Juntando de modo inseparável sentido, fundamento e verdade, as duas palavras, a grega e a hebraica, revelam de uma maneira inimitável toda a rede de coordenadas em que a fé cristã vê o mundo e se posiciona diante dele” (p. 57).

BIBLIOGRAFIA

Ratzinger, Joseph. Introdução ao Cristianismo, São Paulo, Loyola, 2009

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Este texto também foi publicado nos blogs Duração do Eu e O Poterkin

Guilherme Diniz, 22 anos, escreve principalmente sobre filosofia, comentando de modo explicativo os textos consagrados da historia da filosofia e as problemáticas em torno da teoria do conhecimento e da ontologia na contemporaneidade. Membro da Ordem dos Frades Pregadores da província frei Bartolomeu de las Casas, é natural de São Paulo (SP), mas, atualmente, vive em Goiânia (GO), onde faz o pré-noviciado com estudos de espanhol e tópicos de teologia geral. Mantém um blog sobre filosofia: duração do Eu e escreve artigos, crônicas, ensaios e poemas para O Poterkin.

 

 

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