O problema da fé cristã no mundo atual – parte 1

Por Guilherme Diniz

Falar sobre fé cristã para pessoas que não a tem é uma tarefa que revela assombro e estranheza, diz Ratzinger no seu livro “Introdução ao Cristianismo”. A sociedade moderna está habituada em demasia ao discurso focado em assuntos pragmáticos. Quando um teólogo tenta falar-lhes sobre a fé é rapidamente rechaçado ou ignorado como na parábola do palhaço e da aldeia em chamas: nela, os aldeões não acreditaram no palhaço que insistentemente avisava a eles do incêndio que em breve chegaria a aldeia. No mundo de hoje, o teólogo é como um palhaço, o que ele diz “pouco ou nada tem a ver com a realidade” (p. 32). Entretanto, “a teologia trata de um assunto da maior importância para a vida humana” (idem). Igual ao palhaço da história, o teólogo possui um discurso tão antigo que encontra muita resistência do mundo atual para ouvi-lo. O discurso teológico parece estar envolto com uma fantasia que lhe impede de ser respeitado com a devida seriedade. Isso acontece principalmente por causa da linguagem utilizada, ela é tão distante da contemporaneidade quanto a canção de um trovador para um poema concreto. Seria, então, necessário pôr esse discurso numa linguagem moderna? Isso seria o mesmo que adotar um cristianismo sem religião, pois a essência da mensagem não está na roupagem que a reveste.

Malgrado a dificuldade de comunicar a fé, é possível notar que crer ou não crer não são atitudes absolutamente antagônicas, tanto aqueles que não acreditam quanto aqueles que acreditam se assemelham do ponto de vista humano, pois ambos não podem escapar da dúvida de estarem errados, isto é, a dúvida perpassa todos os seres humanos independente de sua credulidade. A condição de um cristão não se distingue muito dos não-cristãos, pois a incerteza está sempre a ameaçar. Tanto o fiel quanto o incrédulo têm dúvidas sobre o valor daquilo que acreditam. O fiel põe fé no invisível, isto é, na Salvação e no Reino que provém do Evangelho; o incrédulo, por sua vez, acredita no visível, no tangenciável, isto é, na certeza imediata da vida concreta oposta as “teses sobrenaturais”. Tanto um como o outro acreditam em algo, porém em objetos antagônicos, porém esse antagonismo não é suficiente para separar absolutamente os dois, pois eles precisam crer em um princípio. Assim como a incredulidade é uma ameaça para o fiel, a fé também é uma dúvida para o incrédulo. Ratzinger denomina isso como o dilema da existência humana. “Quem quiser fugir das incertezas da fé terá de suportar as incertezas da ausência de fé e nunca poderá dizer com certeza definitiva que a fé não é verdade. Só na recusa da fé se revela a sua irrecusabilidade” (p. 35). O incrédulo se acomoda na segurança da certeza do contato imediato com o real, porém sua segurança desmorona quando se pergunta “talvez seja verdade”, isto é, talvez Deus exista, talvez a fé seja verdadeira. Essa dúvida é a mesma que atormenta o crente, é ela que possibilita uma ligação entre o fiel e o incrédulo, pois ambos estão no mesmo estado, mas em pontos contrários. “É ela [a dúvida] que impede ambos de se fecharem completamente em si próprios, é ela que quebra a casca de quem tem fé, abrindo-o para aquele que duvida, e abre a casca de quem duvida para aquele que tem fé; para um, a dúvida é a sua maneira de participar do destino do incrédulo, para o outro é a forma que a fé encontra para continuar sendo um desafio para ele”. O mais bonito dessa passagem é que pela dúvida tanto o incrédulo quanto o fiel participam do destino um do outro. É graças a limitação humana que os homens podem se colocarem no mesmo plano de ignorância. Assim, por mais difícil que possa ser falar de Deus para pessoas que não querem ouvir por acharem a religiosidade ultrapassada, a dúvida que ambos se encontram, o locutor e o interlocutor, salva por assim dizer a relação de um com o outro e de certo modo a própria evangelização.

Essa é a situação humana diante da problemática fé e dúvida. Quem tem fé pode vir a duvidar do que crê e quem tem dúvidas pode vir a ter fé. Partindo desse movimento, Ratzinger nos pergunta o que significa crer? A questão é muito pertinente, pois a atitude de crer pode ser considerada como a essência do cristianismo ou como uma posição ante o real, entretanto o fenômeno não se define tão facilmente. Crer é algo mais que professar verdades sobrenaturais e mais do que uma atitude frente ao mundo. O problema principal no ato de crer parece vir da identificação do eu com o conteúdo da crença previamente determinado. Por que não podemos acrescentar outros conteúdos ao credo? Talvez retirar um ou dois artigos do credo para melhor simpatizarmos com ele. Isso é algo evidentemente absurdo, de fato o problema parece ser esse: como fazemos para ascender a essa estrutura antiga de conteúdo tão difícil de assimilar nos dias de hoje? Como enquadrar um formato de crença milenar num eu moderno e distinto?

Entendemos melhor como resolver esse problema observando a natureza humana, em especial a sua vocação e inclinação natural a apreender e crer através das impressões sensíveis. O homem está intimamente ligado ao mundo pelos sentidos de forma que aquilo que mais lhe parece verdadeiro ou pelo menos passível de crença está nos dados oferecidos pelo mundo. Dentre todos os sentidos humanos, a visão é aquele que mais lhe delimita ou que mais lhe fornece dados empíricos. A visão, de alguma forma, parece ditar à razão aquilo que ela pode conceber como verdade. Todavia, Deus habita em luz inacessível, isto é, Deus é invisível, essencialmente inacessível aos olhos. Por maior que seja o esforço humano, isto é, por mais que amplie seu campo de visão, a face de Deus não pode ser contemplada sem fé. O homem por si mesmo não é capaz de chegar a Deus. Ninguém pode vê-Lo e continuar vivo, como o feto não pode ver a face de sua mãe e continuar vivo. O bebê no ventre materno pode participar do ser de sua mãe sem o uso da visão, do mesmo modo o homem como um bebê no ventre de Deus pode participar da natureza divina pela fé que é uma graça e uma virtude santificadora. Superando os limites da natureza com a atitude de crer, o homem se liga a eternidade no seio de Deus.

A fé não só se apresenta como uma segunda forma de acesso ao real, mas como o fundamento que sustenta a existência humana. É graças, antes de tudo, a possibilidade de locomover-se da incredulidade à credulidade pela dúvida e pela conversão que o homem transcende suas limitações naturais e empíricas para identificar-se a uma realidade sobrenatural. “Ter fé significa decidir que no âmago da existência humana há um ponto que não pode ser alimentado e sustentado pelo que é visível e tangível, mas que toca na fímbria daquilo que não é visível, a ponto de este se tornar tangível para ele revelando-se como algo indispensável à existência” (p.39). É essencial para o ser humano a crença em algo transcendente que reside longe do alcance de sua vista, algo só atingível por um esforço de simpatia intuitiva ou adequação racional. Só é possível fazer isso quando se percebe que o fundamento existencial humano está no invisível e que é mais segura a crença do que a incredulidade. Naturalmente o homem tende ao visível, mas pela “volta”, isto é, conversão, ele pode chegar a compreensão de que o visível é ilusório e de que é mais real e fundamental o invisível. Confiar apenas naquilo que os olhos vêem é na verdade uma grande cegueira, pois confiar-se apenas no visível é perseguir ilusões. A atitude de crer é deixar de observar somente o imanente e voltar-se para o transcendente, é o ato cotidianamente de resistir a tendência natural de olhar apenas para o mundo.

A grande dificuldade de crer no mundo atual está principalmente na distância temporal entre o “ontem” e o “hoje” e no abismo entre o “visível” e o “invisível”. As tentativas contemporâneas de atualizar a crença cristã aos nossos dias fazem com que ela pareça anda mais obsoleta. “Tais esforços confirmam a suspeita de que se trata de uma tentativa desesperada de apresentar como atual o que na verdade não deixa de ser passado”. Alinhar perfeitamente o cristianismo a medida do visível é no fundo uma falta de sinceridade que destrói a interrogação do não-crente, pois ao fazer com que o transcendente não existe, a suspeita da existência de Deus desaparece. Se tudo é imanente como o incrédulo pode se converter? Como é possível suspeitar da existência de um sentido fundamental além da realidade material do mundo?

A dificuldade principal deveria estar na antítese de crer ou não-crer, porém o obstáculo mais pertinente está no tempo, isto é, na distancia entre o passado e o presente, na valorização excessiva do progresso moderno em detrimento da tradição milenar. Por causa da oposição dos conceitos tradição e progresso, ocorrida na baixa idade média e início da modernidade, a rejeição a religiosidade ascendeu gradativamente a parâmetros antes não lidados. “Tradição é aquilo que já não serve e que está preso ao passado; o progresso, pelo contrário, é a verdadeira promessa do ser, de modo que o ser humano já não procura estabelecer-se no lugar da tradição e do passado, e sim no espaço do progresso e do futuro” (p. 41). Estamos lidando aqui principalmente com fatores que influem na existência humana, crer ou não-crer é de fundamental importância para o ser humano, pois a atitude espiritual de uma das duas posturas transforma essencialmente o sujeito e sua conduta. Hoje em dia o homem está voltado para o futuro, para a possibilidade de recriar todas as coisas no futuro e com isso deixar sepultado o passado estéril – a tradição.

Mas alguns poderiam achar que o cristianismo é uma religião voltada apenas para o eterno, para o invisível e transcendente. Isso não é verdade. A fé cristã se fundamenta justamente no fato de que o atemporal se tornou temporal, isto é, Deus entrou na história ao se tornar homem. Ratzinger chama a isso de “positivismo cristão”. É principalmente por causa da revelação divina que o invisível pode ser visto e o inacessível pode ser alcançado. O eterno ao se fazer histórico abriu uma possibilidade de acesso ao transcendente, por isso dizemos que a crucifixão de Jesus é a própria ação de Deus que rasgou o céu e abraçou o mundo fazendo uma aliança entre o eterno e o temporal, o invisível e o visível, o Criador e a criatura. Com a revelação, a liberdade humana de crer ou não em Deus foi alargada, visto que Deus se tornou presente na história e extremamente próximo do homem.

Entretanto, essa abertura revolucionária ao eterno gerou uma estranha contradição denominada “escândalo cristão”, pois com a descida de Deus ao plano tangível, isto é, com a transposição do transcendente para o imanente, a atitude espiritual humana passou a ser mais relevante a ponto de poder matar a Deus. Em outras palavras, a vocação humana para dominar e transformar tudo o que é imanente ganhou um novo objeto para relacionar: a revelação cristã. “Deus ficou tão perto de nós que podemos matá-lo, de modo que ele parece deixar de ser Deus para nós” (p. 42). Foi justamente por causa da relativização do imanente, do homem e de sua história que Deus ao participar do destino humano por Jesus pode ser também relativizado e com isso morto espiritualmente. Resumidamente, Deus ao entrar na história se fez imanente e com isso possibilitou a sua relativização.

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Este texto também foi publicado nos blogs Duração do Eu e O Poterkin

Guilherme Diniz, 22 anos, escreve principalmente sobre filosofia, comentando de modo explicativo os textos consagrados da historia da filosofia e as problemáticas em torno da teoria do conhecimento e da ontologia na contemporaneidade. Membro da Ordem dos Frades Pregadores da província frei Bartolomeu de las Casas, é natural de São Paulo (SP), mas, atualmente, vive em Goiânia (GO), onde faz o pré-noviciado com estudos de espanhol e tópicos de teologia geral. Mantém um blog sobre filosofia: duração do Eu e escreve artigos, crônicas, ensaios e poemas para O Poterkin.

 

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3 responses to “O problema da fé cristã no mundo atual – parte 1”

  1. Carlos says :

    para mim fé é algo que escraviza a mente. te afasta da razão e te faz agir como louco.
    pensar positivo não é isto.

  2. Raissa says :

    Gostei 🙂

  3. antonio fernando ribeiro da silva says :

    achei excelente o conteúdo do texto principalmente no que diz respeito a dialética do crer ou não crer considero a abordagem extremamente profunda e de uma densidade intelectual admirável, parabéns

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