Diálogo entre autores: Descartes e Pascal – A busca pela certeza do conhecimento

Por Guilherme Diniz

Os séculos XVI e XVII são marcados por notáveis progressos no campo do saber ocorridos principalmente na revolução científica como, por exemplo, o telescópio de Galileu em 1610, o barômetro a mercúrio de Torricelli em 1643 e a calculadora de Blaise Pascal em 1642. Além dessa invenção, Pascal teria escrito o Tratado do Vácuo inspirado nas demonstrações do barômetro torricelliano. Muito progresso também foi logrado nas ciências formais, especialmente na geometria, primeiramente Descartes com a sua Geometria Analítica, atual até nossos dias, depois o próprio Pascal com o Tratado dos Cônicos, um estudo que surpreendeu os matemáticos da época por ter sido realizado por um jovem de apenas dezesseis anos! Além desses já citados, havia muitos outros como os de Bacon, Campanella e Kepler que fizeram desse período histórico um fervilhar científico.

Havia reuniões regulares no cenáculo do padre Mersenne em Paris onde se apresentavam e se debatiam diversas pesquisas científicas elaboradas pelos freqüentadores dessas reuniões. Entre eles estava Descartes que muito provavelmente apresentou as idéias diretrizes do Discurso do Método como a universalização do bom senso, os princípios do método, a moral provisória, o cogito, etc.

A causa da criação do Discurso do Método pode ser atribuída aos muitos erros das diversas ciências particulares. Em outras palavras, devido a existência de muitos equívocos na produção científica em geral, surgiu a necessidade de um método que partindo da “luz natural” da razão humana, garanta um conhecimento claro e seguro, pois a erudição não é suficientemente razoável para garantir a certeza do conhecimento. O método se opõem ao excesso de conhecimento e valoriza a capacidade cognitiva de qualquer homem dotado de bom senso. A razão é naturalmente igual a todos os homens, eis a célebre ideia que abre o Discurso. Pondo todos os homens na mesma condição intelectual e com as mesma possibilidades de conhecer corretamente e com segurança, questiona-se automaticamente o valor da erudição dos sábios, pois se um homem sensato orientar-se no método certo, obterá resultados mais satisfatórios do que um douto. De nada vale muita instrução se o caminho percorrido está errado, “pois não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem” (DESCARTES, 1994, p. 41).

Dizemos que o método é o modo seguro de adquirir conhecimento. Mas, tão imediatamente afirmamos isso, apresenta-se uma questão importante: como garantir a solidez do conhecimento? Ora, a solidez está na composição perfeita dos componentes que formam o edifício epistêmico, a saber, quatro princípios: 1) duvidar para evitar o erro; 2) analisar os elementos do problema; 3) ordenar crescentemente as dificuldades; 4) rever tudo para não omitir nada. Com eles se pode chegar a solidez desejada (DESCARTES, 1994, passim). Um dos encontros do homem com o mundo ocorre através da ciência. Como animais racionais, buscamos respostas aos mistérios físicos e metafísicos. Mas há uma pluralidade imensa de respostas criadas pelas mais diversas mentes e não se pode acreditar que todas estão corretas, pois muitas são contrárias umas as outras. Por essa razão, surge a necessidade de um critério para julgar a validade do conhecimento, como, por exemplo, o primeiro princípio do método. O filósofo quer aí afirmar um princípio de negação metódica, isto é, de não dar crédito a nada que não esteja examinado pela razão. Com isso, ele declara o ponto de partida para qualquer empreendimento cognoscente: duvidar das opiniões falsas para se desfazer do erro. Esse é o primeiro fundamento da Filosofia que pretendeu formular e também o critério da validade do conhecimento.

Ao contrário da filosofia escolástica, é no homem enquanto homem, isto é, no homem apenas com a sua razão que se encontra a capacidade intelectual para conhecer e desenvolver-se materialmente. A empresa cartesiana era levar a humanidade à autonomia e ao progresso material pleno. Por isso, foi graça, antes de tudo, a criação do modo seguro de adquirir conhecimento e a dominação da natureza através das ciências que a humanidade pode conquistar o progresso material que desfruta na atualidade – graças ao método cartesiano que firmou os princípios fundamentais da certeza do conhecimento. Apesar desse otimismo científico, o filósofo observou que a aplicação do método a Filosofia é de importância capital por ser esta uma especulação geral oposta a especulação das ciências particulares. O método a princípio foi elaborado para dar certeza ao raciocínio especulativo abstrato, partindo de proposições simples para chegar a demonstrações complexas, é análogo às regras do raciocínio geométrico geral (loco citato).

Muitas foram as objeções feita a Descartes. Entre os críticos estava Pascal que refutou o método cartesiano considerando-o uma presunção e um otimismo descabido. Certamente, o método é eficaz para analisar, ordenar, etc., entretanto, como pode um método responder todas as indagações da humanidade? Descartes julgou seu método a forma ideal e mais eficaz de conhecer; Pascal o julgou ineficaz para responder os anseios humanos. Para Pascal não se pode garantir a eficácia do método em tudo, o método não é um procedimento assegurador completo. Segundo ele, os modos de raciocinar ou espíritos estão circunscritos a suas próprias naturezas devido as diferenças de princípios, isto é, estão determinados pelas particularidades e pelos limites naturais de cada um desses modos de raciocinar, por isso o método, sendo o modo de raciocinar geométrico, não pode garantir um conhecimento perfeito, poi ele só sabe lidar com os princípios adequados ao espírito de geometria. O espírito de geometria opera com princípios palpáveis e basta ter princípios claros para avançar retamente no raciocínio especulativo; em contrapartida, o espírito sutil opera com princípios não tão esclarecidos e mais numerosos e de uso comum, basta ter boa vista, sentidos delicados e precisos para pressentí-los. O espírito de geometria trabalha com princípios muito claros, enquanto o espírito de finura trabalha com princípios sutis e numerosos. Graças a natureza diversa desses princípios, o espírito de finura desenvolveu uma visão clara para os princípios sutis, enquanto o geômetra não (PASCAL, 1973, p. 41-42).

Resumidamente, o espírito de finura é o modo prático e comum de conhecer, trabalha vendo claramente e de uma única vez os diversos princípios e não tem paciência de operar de modo especulativo; já o espírito de geometria é o modo científico de conhecer, trabalha retamente com princípios claros e também não opera do mesmo modo com princípios sutis. A crítica pascaliana ao método de Descartes é mais contundente ao atestar que a natureza do nosso entendimento nos nega a certeza. A razão disso é que o espírito de finura não pode operar com os princípios do espírito de geometria e vice-versa. O entendimento tanto especulativo quando imediato são limitados pela própria natureza desses dois modos de entender e, o mais importante de tudo, o método não pode pressentir os princípios sutis, por isso é limitado e não garante a certeza. Além disso, o homem precisa necessariamente se lançar no mundo para fugir de sua miséria natural, é justamente nesse relacionar-se com o mundo que ele encontra sua felicidade – a felicidade é fruto da distração de nossa pobre situação humana. Sendo o homem miserável por natureza e condenado a morrer, encontra na ocupação diária e na inquietação os meios de se distrair de sua miséria. Dizemos que o homem inventa para si diversos empreendimentos para se divertir e esquecer sua condição miserável, nisso encontra a felicidade. A inquietação nos força a empreender diversos projetos e com isso nos impede de sermos infelizes (idem, ibidem, p. 75).

A felicidade não está na contemplação, no repouso e nos dias tranquilos que Descartes se deleitava; mas na atividade, no divertimento que distrai o homem de pensar na sua miséria. Há aqueles que pensam que o repouso é a melhor maneira de encontrara a felicidade, porém se enganam, pois “acreditando buscar sinceramente o repouso, na verdade, só busca a agitação”. “Não é essa vida mole e tranquila, que nos deixa tempo para pensar na nossa infeliz condição”, “é o ruido, que nos desvia de pensar na nossa condição e nos diverte”. E não adianta um divertimento leviano que não o distraia, “é preciso que se entusiasme e se iluda a si mesmo” (loco citato). Analogamente, Descartes ao terminar a primeira parte de seu Discurso, também valoriza as coisas práticas e condena a contemplação filosófica, mas decepciona-se novamente ao perceber que não é prudente dar muito crédito aos costumes práticos.

Se, por um lado, Descartes procurava afirmar a possibilidade de um conhecimento certo e seguro ao propor um método que partindo da dúvida seguisse por noções claras até alcançar a verdade; em contrapartida, Pascal quis reavaliar a ideia de possibilidade de conhecimento e refutar a doutrina cartesiana com o argumento da limitação e distinção natural de cada modo de apreender que dispõem o homem. Partindo da concepção de que não podemos julgar certamente, pois ainda não dispomos de uma doutrina que nos forneça ideias claras, como poderíamos tomar qualquer coisas por certo? Na verdade não poderíamos, qualquer caminho escolhido em meio a tanta confusão se provará correto ao fim do percurso quando se avaliar o trajeto. A escolha se manifesta em contorno relativos. Parece ser melhor seguir com resolução no mesmo caminho para não vagar a esmo na busca pelo saber verossímil. Com a impossibilidade de julgar com segurança como queria Pascal e de que Descartes concorda até certo ponto, faz-se necessário uma moral provisória para ser resoluto no caminho escolhido e para cultivar a razão com o propósito de no fim conhecer certamente todas coisas gerais (DESCARTES, 1994, p. 59).

Após formular a moral provisória em conformidade com a fé católica, Descartes põem-se a viajar por nove anos procurando no mundo a correção de suas opiniões, contrapondo-as com as opiniões de diversas pessoas (idem, ibidem, sequentia). Na contramão da época, ele procurou a verdade distante das grandes capitais e das universidades com hostilidade a filosofia escolástica. Nesse empreendimento, o filósofo pretendeu livrar-se do erro partindo do primeiro princípio de que deveria duvidar antes de dar crédito a qualquer opinião. Ao contrário dos céticos que não se firmam depois de duvidar, ele procurou se certificar com ideias claras após a dúvida. Quis livrar-se do equivoco buscando a certeza e instruir-se no método, tudo isso sem “ler livros ou frequentar homens de letras” (idem, ibidem, p.65).

Guilherme Diniz, 22 anos, escreve principalmente sobre filosofia, comentando de modo explicativo os textos consagrados da historia da filosofia e as problemáticas em torno da teoria do conhecimento e da ontologia na contemporaneidade. Membro da Ordem dos Frades Pregadores da província frei Bartolomeu de las Casas, é natural de São Paulo (SP), mas, atualmente, vive em Goiânia (GO), onde faz o pré-noviciado com estudos de espanhol e tópicos de teologia geral. Mantém um blog sobre filosofia: duração do Eu e escreve artigos, crônicas, ensaios e poemas para O Poterkin

 

 

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One response to “Diálogo entre autores: Descartes e Pascal – A busca pela certeza do conhecimento”

  1. Milton Cardoso Ribeiro says :

    Gostei muito do que li nesse artigo do Guilherme.

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