O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – Parte III

Por Sérgio Alberto Ramos Jr.

– Cinco Orelhas:

Algumas semanas depois de deixar a região de Bagagem, Januário estava extremamente fatiga pelas andanças que empreendera desde que se deu conta do assassinato de seu irmão João Garcia Leal.

Era uma tarde do mês de junho. Mais noite do que dia, Januário se encontrava na encosta de um morro, que começara a subir no intuito de vislumbrar algum sinal de civilização naqueles recantos ermos. Em meio ao esforço despendido na subida, vinha à sua mente os rostos dos assassinos de seu irmão, juntamente com o ódio que o motivava, crescia também certa desesperança em encontrar tais fugitivos no meio daquele sertão inóspito.

Por muitas vezes sua refeição havia sido apenas raízes de arbustos, bichos de pau, o mel das abelhas e o seu teto as locas de pedra, que às vezes disputa com os animais. Porém, se mantinha firme, atento a tudo, sem esquecer-se do motivo que o levara até ali, e também do juramento de vingança que havia feito ao lado do corpo mutilado do irmão.

Figueira onde o irmão de Januário foi morto

Depois de perscrutar os quatro cantos daquele morro, avistou um sinal de fumaça perdida na distância e passou a caminhar na mesma direção. Após caminhar bastante, Januário se alegrou a notar que o que havia avistado era um rancho de tropeiros, com várias fogueiras ao seu redor, as acomodações estavam todas ocupadas pelas rústicas bagagens e trastes dos tropeiros que ali haviam parado depois de uma fatigante caminhada.

Ao redor de cada fogueira encontravam-se dois ou três sertanejos se aquecendo, preparando refeições e contando os inúmeros causos de suas viagens. Meio encabulado, Januário se aproximou de um grupo de tropeiros, cumprimentou os rudes caboclos e pediu a gentileza de compartilhar da refeição que ainda estava suspensa sobre a fogueira, sendo prontamente atendido com a conhecida hospitalidade mineira.

Januário evitava participar das conversas para não ter de explicar o motivo de suas andanças por aquelas bandas tão distantes, mas permanecia atento a cada relato, a cada causo contado pelos tropeiros, a fim de angariar alguma notícia, alguma informação que o ajudasse em sua busca.

Conforme a noite avançava, o sono pesado tomava conta dos tropeiros até que um deles saiu do rancho para se aquecer nas últimas brasas da fogueira próxima da onde estava Januário, com ajuda dos últimos fogos no chão o homem acendeu um cigarro levando o cheio forte do “fumo de corda” ao seu redor. Para intensificar a brasa na ponta do cigarro, o homem deu uma forte tragada, que iluminou seu rosto, bem a frente de Januário, que o reconheceu no mesmo momento… era Carlos Silva.

Januário acompanhou seus movimentos, tentando descobrir se também ele mesmo não havia sido reconhecido pelo antagonista, o que notou não ter acontecido, ainda mais tendo seu rosto coberto pela espessa barba acumulada por vários dias de peregrinação no sertão selvagem. Carlos Silva o cumprimentou com um leve movimento da cabeça e se afastou em direção a uma mata logo atrás do rancho, uma vez que ali não havia nenhuma latrina ou fossa.

Januário não podia acreditar em sua sorte e partiu em disparada na mesma hora, com o terçado na mão e todo o rancor que o motivava desferiu um violento golpe no pescoço da distraída vítima, caindo sob o peso dos golpes de Januário, que não cessou de atingi-lo nos ombros e na cabeça até que todos seus espasmos musculares tivessem acabado, em cada golpe um grito contido de ira era compensado pela força bruta, ódio por todos os dias vagando pela mata agreste, pela distância de sua casa e toda a calamidade que a insensatez dos Silva haviam causado a ele e a sua família.

Arrancou mais uma orelha para sua fiada e partiu, levando consigo alguns víveres e uma nova montaria através do silêncio da madrugada. Antes dos primeiros raios de sol, os viajantes começaram a preparar as tralhas para mais um dia, foi então que deram conta de que havia um companheiro morto e o peregrino silencioso desaparecido.

Não havia nenhuma dúvida, o assassino era o viajante desconhecido, mas este já estava longe e ninguém pensaria em procurá-lo na imensidão daquele sertão. Enterraram o cadáver e fincaram mais uma cruz de madeira naquele chão inóspito, relembraram então que Carlos Silva, sempre taciturno, não tivera jamais uma expressão de alegria, nem mesmo no momentos de maior despreocupação.

Aqueles homens haviam descoberto o quanto era grande no peito de Carlos Silva o remorso e o temor de Januário Garcia Leal.

Continua…

Sérgio Alberto Ramos Júnior, 24 anos, é historiador formado pela FFCL de São José do Rio Pardo. Atualmente persiste como professor da rede pública estadual, onde ministra aulas de história e geografia, também leciona informática e secretariado em cursos profissionalizantes na cidade de São Carlos. Gosta de boas histórias,música, cinema e sair para beber com a namorada e amigos.

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