Doenças Cardiovasculares no SUS de São Paulo requerem atenção integral, afirma estudo do Instituto de Saúde

Por Rodrigo de Oliveira Andrade e Samuel Antenor

Em 2007, o valor gasto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no tratamento de 1.157.509 indivíduos internados por doenças do aparelho circulatório no Brasil foi de R$ 1.468.441.279,46. Levando em conta apenas o Estado de São Paulo, em 2005, 32,2% dos óbitos foram decorrentes de doenças do aparelho circulatório, sendo que as taxas específicas para doenças isquêmicas do coração (diminuição ou suspensão da irrigação sanguínea), doenças cerebrovasculares e demais doenças do aparelho circulatório foram, respectivamente, de 60,4, 49,3 e 67,2 por 100 mil habitantes. Apenas em 2007, as 263.284 internações por doenças do aparelho circulatório registradas no Estado de São Paulo representaram um gasto público de R$ 405.387.635,94.

Baseado neste cenário foi realizado no Instituto de Saúde o estudo “Integralidade da atenção às doenças cardiovasculares e diabete mellitus: o papel do Sistema Único de Saúde no Estado de São Paulo”, sob coordenação da pesquisadora Tereza Etsuko da Costa Rosa e a participação de Ana Bersusa, Lenise Mondini, Silvia Saldiva, Paulo Roberto Nascimento e Sonia Venâncio. Publicada na Revista Brasileira de Epidemiologia, a pesquisa, cuja análise baseou-se na avaliação de indicadores de estrutura, processos e de resultados da atenção à saúde do adulto, especificamente nos casos de Diabetes Mellitus e Hipertensão Arterial, estudou cinco Direções Regionais de Saúde (DIR) do Estado – órgãos responsáveis por coordenar as atividades da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) no âmbito regional e promover a articulação intersetorial com os municípios e organismos da sociedade civil –, sendo elas as de Campinas, Mogi das Cruzes, Piracicaba, São José dos Campos e São José do Rio Preto. Vale ressaltar que, desde 2006, as DIR atendem por Departamentos Regionais de Saúde (DRS).

A seleção das cinco DIR levou em consideração três aspectos: esforço gestor no referenciamento, capacidade instalada de saúde e condições de vida e riqueza regional, de acordo com o Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS). Adotou-se, ainda, como método de trabalho, um modelo de avaliação da qualidade dos serviços de saúde, que tem como base três categorias de análise: indicadores de estrutura, processo e resultados. Ainda que os atuais DRS apresentem nova configuração administrativa (entre os municípios que os compõem), os dados obtidos pelo estudo permanecem válidos.

De acordo com a pesquisa, a região que mais chamou a atenção foi a de Mogi das Cruzes, cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), considerado “médio”, soma-se a uma dificuldade na organização da atenção básica. Por outro lado, os recursos da região de São José do Rio Preto, no que se refere ao número de hospitais, leitos de UTI e ambulatórios, em relação à sua população (mais envelhecida que a das demais DIR analisadas), apontam para a existência de uma adequada assistência aos pacientes portadores de Acidente Vascular Cerebral (AVC), Insuficiência Cardíaca, Infarto Agudo do Miocárdio e Diabetes Mellitus, agravos que demandam alta tecnologia de insumos, equipamentos e profissionais qualificados, haja vista que seu diagnóstico, terapia e tratamento são muito complexos. Assim, apesar de o estudo evidenciar a complexidade que acomete o SUS, alguns possíveis caminhos são ressaltados, como os observados na DIR de São José do Rio Preto, que oferece maior cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) e uma cobertura assistencial mais ampla (consultas básicas e especializadas).

A pesquisa buscou enfatizar a possibilidade da construção de uma linha de cuidado a partir de um desenho tecnicamente apropriado para a efetividade do referenciamento dos serviços e de práticas adequadas de gestão e de cuidado. Tendo como pressuposto a regionalização como instrumento de organização da atenção à saúde e a integralidade como um dos princípios fundamentais do SUS, a pesquisa ressalta que, na organização dos serviços de saúde, em um contexto de descentralização, a regionalização torna-se um instrumento de suma importância no processo de organização da atenção à saúde.

Logo, é preciso enfatizar a necessidade de uma maior articulação entre os sistemas municipais e de fortalecimento das secretarias estaduais de saúde na sua função reguladora para garantir a organização de redes assistenciais regionalizadas que gerem resultados positivos para a saúde da população. A pesquisa assinala, ainda, que as práticas gestoras adequadas para a organização da atenção à saúde eficaz e eficiente dependem do aprimoramento do conhecimento sobre o SUS entre os gestores, os profissionais e a população.

Nessa perspectiva, o estudo poderia contribuir para a garantia do acesso dos usuários portadores de agravos cardiovasculares às ações e serviços de níveis de complexidade, de modo a aumentar as chances de se evitar possíveis complicações, resultantes desses agravos. Isso diminuiria o número de internações e, consequentemente, o valor gasto no tratamento dessas doenças. Logo, deve-se considerar que a regionalização da saúde é uma das estratégias necessárias e indispensáveis ao avanço do SUS-SP.

Sobre os Indicadores

Indicadores de Estrutura: Quanto aos hospitais, leitos, ambulatório e recursos humanos (médico clínico), a DIR de São José do Rio Preto foi a que apresentou os melhores indicadores estudados, haja vista que, comparado às outras DIR, dispõe de quatro vezes a proporção hospital/habitante e o dobro dos demais equipamentos e recursos humanos. De acordo com o estudo, entre as DIR analisadas, a de Mogi das Cruzes ficou com a pior situação, já que apresentou índices relativamente inferiores no que diz respeito a esses indicadores: hospitais, leitos UTI, ambulatórios e recursos humanos.

Indicadores de Processo: As coberturas da Estratégia Saúde da Família nas DIR de São José do Rio Preto, São José dos Campos e Piracicaba eram semelhantes entre si (20%), superando em mais de duas vezes as de Campinas e Mogi das Cruzes. Levando em consideração os parâmetros do número de consultas básicas e de especializadas por habitante/ano, apenas São José do Rio Preto atingiu a meta preconizada no SUS dos dois tipos de consultas. A análise da relação invasão/evasão de internação por AVC revelou que os pacientes residentes em São José do Rio Preto conseguem internações no seu próprio município, enquanto que nas demais regiões a tendência é de ocorrer evasões para outros municípios.

Indicadores de Resultados: No que diz respeito à mortalidade por AVC, a DIR de Mogi das Cruzes foi a que apresentou o maior valor dentre as Regionais, chegando a ultrapassar a taxa do Estado (82,1 óbitos/100 mil habitantes). Já as demais DIR apresentaram valores semelhantes, por volta de 70 óbitos por 100 mil habitantes. No caso da mortalidade por Insuficiência Cardíaca (IC), a DIR de Piracicaba foi a única a apresentar taxas abaixo da do Estado, sendo que a DIR de Mogi das Cruzes continuava a ocupar a pior posição entre as Regionais, ultrapassando a média de São Paulo. No que tange à mortalidade por Infarto Agudo do Miocárdio, a DIR de Campinas e, mais uma vez, Mogi das Cruzes, apresentaram as maiores taxas de mortalidade, ultrapassando os valores do Estado. Por último, em relação à taxa de mortalidade por Diabete Mellitus, a DIR de São José dos Campos e Mogi das Cruzes apresentaram as maiores taxas, ultrapassando, de novo, o valor da taxa do Estado, 33,5 óbitos por 100 mil habitantes. No que se refere à mortalidade precoce, para todos os eventos, as regionais de São José do Rio Preto e a de Mogi das Cruzes ocupavam a melhor e a pior posição, respectivamente.

Rodrigo de Oliveira Andrade, 21 anos, é jornalista do Núcleo de Comunicação Técnico-Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, crítico nas horas vagas e escritor após a meia-noite. Como pesquisador, finalizou recentemente seu artigo de Iniciação Científica sobre o jornalismo na sociedade do espetáculo. Como colaborador, escreve para a Revista Eletrônica de Jornalismo Científico (ComCiência) do Labjor da Unicamp e para o blog Espaço Cult, além de coordenar o blog O Poterkin

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2 responses to “Doenças Cardiovasculares no SUS de São Paulo requerem atenção integral, afirma estudo do Instituto de Saúde”

  1. Lena says :

    Para que nascemos?
    Para pagar impostos(visão do Estado). A partir do momento que o cidadão tem uma doença crônica ele é prejuízo para o Estado, o SUS nasceu de uma revindicação do povo, cabe a ele destinar seus recursos para diminuir a mortalidade da população com problemas graves. Só que os próprios medicamentos que ele distribuição leva o indivíduo a ter não somente um problema de saúde como vários outros.
    Parece que investir na prevenção ainda é o caminho mais barato.

    Rodrigo:espero que meu comentário tenha sido oportuno.
    Abraço

  2. Rodrigo de Oliveira Andrade says :

    Bem observado,Lena. De fato, alguns governos, como o PSDB, por exemplo, vêem as pessoas como cifras. Apesar dos avanços do SUS em São Paulo e no Brasil serem significativos, a questão da saúde no País ainda é delicada. Em relação aos impostos destinados à saúde, já estão falando na volta, ou na criação, de uma nova CPMF. No entanto, acredito que o principal problema do SUS está na sua gerência e na sua estrutura administrativa. Acho que vale a pena você ler um livro chamado “Ações judiciais no SUS e a promoção do direito à saúde”, disponível para download neste link http://www.isaude.sp.gov.br/index.php?cid=1275&revista_id=45

    Obrigado pelo comentário.
    Abraços,

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