A busca espiritual pela felicidade

Por Guilherme Diniz

Alguns procuram felicidade no amor ou na amizade, outros querem construir para si um ideal e realizar seus sonhos. Há aqueles que buscam o prazer imediato, outros, as coisas espirituais. Mas, como se encontra a felicidade? Uma possível resposta está na oposição entre os modos de procurá-la, atualmente se tem prestado muito esforço à maneira prática e rápida de buscá-la, em contrapartida persiste a maneira tradicional oriunda da cultura de muitas gerações que esteve amplamente difundida até as portas do século XX.

A felicidade é um dos principais anseios do homem e está presente na história da humanidade desde muito tempo, entretanto a ditadura da felicidade é um fenômeno recente. É natural a busca humana pela felicidade, ela foi até declarada um direito do cidadão na Independência dos Estados Unidos da América; mas, contemporaneamente ela parece ter se estabelecido na cultura mundial na forma de uma imposição hedonista. As tradições culturais nos revelam uma vontade de encontrar a felicidade no convívio, no respeito e no amor, tudo com continuidade e consistência; entretanto, a cultura do capitalismo tardio, chamada pós-modernidade, nos dá um desejo de possuir, controlar e gozar do outro de modo superficial e vertiginoso. Duas opções se apresentam, de um lado, um caminho rumo à felicidade; do outro, um turbilhão de desejos efêmeros.

O modo tradicional de procurar a felicidade é anterior a época que vivemos ou pelo menos anterior ao paradigma cultural vigente. O fato de ele ser mais antigo faz com que muitas vezes seja denominado tradicional. Essa palavra, porém, sofre diversas críticas de progressistas, os difusores do modernismo; porém poucos entendem o seu significado. A tradição cultural como um modo de buscar a felicidade não pode ser associa ao adjetivo obsoleto, pois ela não é factualmente ultrapassada pela cultura moderna. Se analisarmos a natureza dessas duas “escolas de felicidade”, perceberemos uma transposição de lugar surpreendente.

O moderno se lança à satisfação imediata dos seus desejos, isso lhe obriga a permanecer na superfície de sua existência; enquanto o tradicional procura encontrar a felicidade através de uma ascese espiritual e com isso aprofunda-se cada vez mais em sua existência. O primeiro defende o contato direto com a felicidade, mas não imerge suficientemente na procura por ela; o segundo afirma a eterna busca sempre distante do fim almejado, mas mergulha na própria busca sem oscilações ou perturbações. O moderno que se diz feliz por satisfazer rapidamente seus desejos na verdade se equivoca, pois não rompe a barreira da leviandade; o tradicional que não se diz feliz por estar sempre à procura da felicidade é verdadeiramente feliz, pois encontra a felicidade na própria busca.

Em suma, a felicidade não se atinge ou se atinge sem saber por um esforço de continuidade. Aquele que julga ter encontrado a felicidade na satisfação da libido está equivocado, mormente quando acusa a tradição cultural e a classifica como obsoleta. Quem assim o faz, afasta-se paulatinamente do verdadeiro significado da procura pela felicidade. Muitos caem nesse erro, como o fenômeno amiúde se repete, o equívoco se revestiu de modelo e imprimiu na cultura moderna o paradigma da pós-modernidade. Não obstante, o caminho prudente nunca deixou de existir e de se fazer presente, buscar a felicidade é como peregrinar pelo universo ou dar a volta no infinito, o ponto de chegada sempre estará arredado e o tempo gasto se acumula na continuação do caminho.

Umas das principais tradições culturais é a religiosidade do homem. Todas as pessoas, segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), sentem um desejo de se conectar com o Sagrado. Os diversos comportamentos religiosos (ritos, sacrifícios, orações, etc.) revelam o desejo humano de se encontrar com Deus. Por essa razão, o homem é chamado um ser religioso.

Entretanto, o homem pode rejeita explicitamente o chamado de Deus que não cessa de chamá-lo. Essa rejeição ocorre amiúde com a degradação das tradições culturais, através da cultura capitalista. As pessoas podem rejeitar a Deus simplesmente através do narcisismo, superestimando a si mesmas, através do materialismo, supervalorizando os componentes da vida material, ou pela forma mais comum, com o ateísmo virtuoso, isto é, na crença da não necessidade de professar uma fé para ser bom e fazer o bem. Todas essas formas de rejeição apresentam incoerências e ambigüidades, pois são oriundas da cultura vigente da qual já expomos a fragilidade.

Para aqueles que não se põem à margem da religiosidade, encontram “vias” para chegar a Deus. Essas vias, também chamadas “provas da existência de Deus” (cf. CIC 31), não no sentido da ciência natural que entende por prova a comprovação e demonstração de uma assertiva. O termo é tratado aqui como a forma humana de depreender sobre o desejo de se encontrar com Deus. Essas vias são a princípio duas: o mundo e o homem.

As características do mundo – movimento, devir, ordem, beleza – são formas que possibilitam o conhecimento de Deus. Elas se orientam em modos naturais tão majestosos e perfeitos que desde a origem da racionalidade fez com que o homem a contemplasse. O mundo é um mistério para o homem, por mais que as ciências evoluam, sempre haverá uma infinidade de nuances misteriosos que farão do homem um ser quase insignificante diante de suas maravilhas. Também as características humanas – senso de bem, liberdade, consciência, aspiração à verdade e à felicidade – propiciam o conhecimento de Deus, porque, analogamente as características do mundo, elas fazem do homem um mistério para si mesmo. Ninguém pode afirmar uma compreensão absoluta de si mesmo por causa da complexidade espiritual que possui. Esses fatores, o mistério do mundo e o mistério do homem, formam, portanto as provas da existência de Deus. Há, sobretudo, uma procura racional por Deus. Por ser criado a imagem de Deus, o homem com a luz natural de sua razão pode encontrar-Lo nesses mistérios. A causa do desejo da busca de Deus está na própria criação do homem à imagem de Deus, por vir do Pai, o homem quer voltar a Ele.

Para se aprofundar na espiritualidade, o homem necessita conhecer a Deus, pois é pelo conhecimento de Deus que aumenta a fé. Esse conhecimento não é dispensável, para emergir nos abismos do espírito é preciso o conhecimento de Deus. Sem ele, todo empreendimento não conquista a profundidade requerida para a procura da felicidade. De fato, o homem pode conhece racionalmente Deus através da criação uma vez que o mundo e o homem são duas vias para o conhecimento de Deus. Esse é um conhecimento certo de Deus e realizado com as próprias forças humanas. Um conhecimento que lhe permite falar do Criador através da criação, porém um conhecimento que sempre será limitado. Se nosso conhecimento é limitado, também é limitada nossa capacidade de falar. “Nossas palavras humanas permanecem sempre aquém do Mistério de Deus” (cf. CIC 42), isto é, a linguagem humana atinge levianamente o Mistério de Deus. Com a razão pode-se falar de Deus a partir da contemplação da perfeição de sua criação, pois ao contemplar a criação, por analogia, se contempla o seu criador. Embora a razão possa conhecer verdadeiramente um Deus pessoal que governe e protege o mundo, há muitas dificuldades que impedem o conhecimento de verdades referentes a Deus e sua relação com os homens. Por essa razão, também se faz necessário aos homens o conhecimento da revelação divina.

Deus se revela desde o princípio dos tempos, porém a unidade humana foi quebrada com o pecado original. Apesar disso, a revelação não foi interrompida pelo pecado, pois Deus continuou a fazer alianças com o homem. Erroneamente os homens tentaram retomar essa unidade com suas próprias forças como na construção da torre de Babel. “Venite, faciamus nobis civitatem et turrim, cuius culmen pertingat ad caelum, et faciamus nobis nomen, ne dividamur super faciem universae terrae” (cf. Gn 11,4). Deus se manifestou e se entregou aos homens, Ele livremente quis se comunicar de forma gradual aos homens até a plenitude da Revelação que é Cristo. O Verbo contém toda a Revelação, não haverá outra além da realizada pelo Verbo Encarnado. Ele se fez homem na Palavra e no Corpo de Cristo. A Escritura é a Verdade comunicada aos homens de forma inspirada, é a Palavra de Deus em letra humana. Deus é o autor da Sagrada Escritura, pois os autores humanos forma inspirados pelo Espírito Santo. Desse modo, tudo o que foi afirmado pelo Espírito é verdadeiro.

Para continuar essa busca espiritual pela felicidade, a Igreja recebeu o ofício de pregar a Revelação recebida. Por causa do desejo de encontrar a felicidade no espírito a religiosidade se manifestou no coração humano. Mas, foi graças a Revelação e não apenas ao esforço humano que o homem encontrou a Salvação. A continuidade do projeto, pede que a Igreja anuncie a Boa Nova. Com isso, surgiu a necessidade de proclamar a Revelação, isso é, evangelizar. Evangelizar é um dever, por mandamento de Deus Filho, afim de que os homens possam acreditar e ser salvos. A Revelação é a Verdade, por isso, merece que o apóstolo lhe consagre todo o seu tempo, todas as suas energias e lhe sacrifique, se for necessário, a sua própria vida.

Com os apóstolos, a transmissão do Evangelho se fez de duas maneiras: oralmente e por escrito. Para continuar a transmissão, os apóstolos deixaram como sucessores os bispos. A transmissão do Evangelho com a sucessão apostólica deve durar até o fim dos tempos. “Esta transmissão viva realizada no Espírito Santo é chamada de Tradição. […] Por meio da Tradição, ‘a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite à todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê ’” (cf. CIC 78).

A Tradição e a Escritura têm o mesmo princípio e tendem para o mesmo fim. A Escritura é a Palavra de Deus redigida sob a moção do Espírito Santo; a Tradição é a Palavra de Deus transmitida pelos sucessores dos apóstolos sob a luz do Espírito de verdade. A Tradição provém dos apóstolos que a receberam de Cristo e do Espírito Santo. Os apóstolos confiaram à totalidade da Igreja o patrimônio sagrado, também chamado depósito da fé. Assim, o Povo de Deus se mantém em comunhão com a doutrina dos apóstolos. Em uma, “a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só sagrado depósito da Palavra de Deus” (cf. CIC 97) que os apóstolos receberam de Cristo juntamente com a tarefa de transmitir oralmente e por escrito a revelação divina.

A Evangelização possui uma complexidade visível, é impossível defini-la sem reduzi-la a um dos seus elementos constitutivos. Apesar disso, arriscamos fazer um esboço geral a partir do caráter renovador que ela possui.

Evangelizar é levar a Boa Nova a toda a humanidade e a partir de dentro dela torna-la nova. O mais importante não é falar ao maior número possível de pessoas, mas transformar tudo o que se opõe a Palavra de vida. A Evangelização é radical, pois se desloca para os fundamentos da cultura mesmo sendo alheia a ela como o caso da cultura capitalista e das tradições culturais.

O testemunho de vida de um cristão já é por si mesmo um ato de evangelização, isto é, o testemunho evangeliza através de atos, é uma proclamação silenciosa, o primeiro anúncio, querigma. Entretanto, o testemunho de vida é limitado, faz-se necessária a proclamação da Palavra de Deus para realizar efetivamente a transmissão. Apesar de o testemunho introduzir de modo muito particular a evangelização, é o anúncio que efetua a transmissão completa da Boa Nova.

Para que a proclamação seja de fato realizada, o anúncio deve ser ouvido e recebido de modo que o receptor da Palavra se converta e adere a comunidade eclesial. Essa adesão é de vital importância para a continuidade e manutenção da Igreja, pois esse novo membro vem a se tornar por sua vê um novo um evangelizador. Todo aquele que ouve e ama o que ouve passa a proclamar também. Todo aquele que se entrega ao Reino, dá testemunha e anuncia a Palavra. Por essa razão, todos os que foram evangelizados se configuram também evangelizadores (cf. Evangelii Nuntiandi).

Esse encadeamento de fieis e essa mecânica de transmissão e inclusão configuram uma essencialidade da tradição cultural da humanidade. O conhecimento racional de Deus e a participação da Igreja no mundo através da evangelização compõem a parte fundamental da tradição cultura. Podemos dizer que o fenômeno religioso como um todo é a antítese do paradigma cultural vigente, pois como já vimos ele é formado de aprofundamento da vida espiritual e não de satisfação hedonista dos desejos. De um modo geral, a religiosidade é o contraponto, a oposição a modernização confusa de nosso tempo. Ela, através do depositum fidei, se firma no mundo como testemunha e pregadora da Salvação, contradizendo e denunciando a falta de fé e a crise espiritual do mundo moderno. É nesse sentido que e Igreja se põe como guardadora da parte fundamental da tradição.

 

Bibliografia

Bíblia Sacra (Disponível em http://www.vatican.va/latin/latin_bible.html acessado em 19/09/2010)

João Paulo II. Catecismo da Igreja Católica, São Paulo, Loyola, 2000

Paulo VI. Evangelii Nuntiandi, São Paulo, Paulinas, 2008

Guilherme Diniz, 22 anos, escreve principalmente sobre filosofia, comentando de modo explicativo os textos consagrados da historia da filosofia e as problemáticas em torno da teoria do conhecimento e da ontologia na contemporaneidade. Membro da Ordem dos Frades Pregadores da província frei Bartolomeu de las Casas, é natural de São Paulo (SP), mas, atualmente, vive em Goiânia (GO), onde faz o pré-noviciado com estudos de espanhol e tópicos de teologia geral. Mantém um blog sobre filosofia: duração do Eu e escreve artigos, crônicas, ensaios e poemas para O Poterkin.

 

 

 

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