O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – II

Por Sérgio Alberto Ramos Jr.

Considerações sobre o corte de orelhas:

Na Antiguidade, o corte de orelhas como forma de castigo ou prova da morte de criminosos procurados era bastante comum e ainda é recorrente em alguns lugares, especialmente no Oriente Médio.

Nas Minas Gerais do século XVIII e XIX, o corte de membros e orelhas de escravos fugidos era uma punição mais comum do que se imagina, sendo até mesmo prevista pela legislação da Capitania a partir de 1741. Com relação a atitude tomada por Januário, pode-se interpretá-la de várias formas, sabemos que as vítimas do referido vingador eram homens brancos, livres e todos filhos de um importante fazendeiro local, logo, gozavam de certo prestígio na sociedade da época, sendo assim, ao terem suas orelhas decepadas após a morte, de modo semelhante a de um escravo fugitivo, poderia representar a intenção do executor de perpetrar humilhação às vítimas, simbolicamente reduzindo-as à mesma condição dos escravos mutilados.

Existe também a hipótese de que Januário usaria as orelhas como sinal de advertência a todos que tentassem lhe impedir no curso de sua vingança, daí a idéia de exibi-las transadas em uma fiada. Uma prática um tanto quanto tribal, mas que expunha sua infâmia, traduzido numa personalidade potencialmente perigosa e violenta.

Porém, o mais provável é que Januário apenas colecionou as orelhas dos assassinos de seu irmão como prova da morte de cada um deles, uma vez que como dito, essa prática já era entendida como tal, é também de se levar em consideração que eram numerosos os filhos de Chico Silva e possuir a orelha de cada deles em um colar demonstrava a todos que o juramento de vingança de Januário Garcia Leal havia se cumprido e que ninguém havia lhe escapado.

Quatro orelhas

Depois de salgar e transpassar em um corão as duas primeiras orelhas obtidas, Januário seguiu em direção a Lavras – MG, onde, de indagação em indagação, descobriu que dois personagens haviam passado por ali em direção ao Triângulo Mineiro, para o lado de Estrela do Sul, que na época se chamava Bagagem. Essa região de fato atraía muitos aventureiros e andarilhos que procuravam fortuna nas minas locais, famosa por preservar jazidas de ouro e diamante ainda por explorar. Apesar da grande distância, aproximadamente 100 léguas da fazenda dos Garcia Leal, Januário partiu sem demora, motivado pelo desejo de vingança.

Após vários dias de viagem, Januário chega a seu destino e começa a sondar o ambiente da cidade, sempre discreto, observou a enorme onda de trabalhadores que aportavam a todo o momento, atraídos pela promessa de riqueza certa. Conseguiu hospedagem em um casebre habitado por um único homem, já idoso que o acolheu com a afamada hospitalidade mineira, temendo afugentar os que procurava, Januário pouco aparecia em público que faz que demorasse a constatar suas suspeitas.

Encontravam-se realmente ali, trabalhando em uma mina, Joaquim e Antonio da Silva, que já haviam feito amizades no local. Os dois irmãos chegaram à cidade se dizendo integrantes de uma importante família do centro de Minas e apresentaram alguns objetos de valor, se passando por pessoas abastadas conseguiram até a promessa de casamento com as filhas de um proprietário de terras na cidade.

Dias depois, Januário tomou conhecimento da data do casamento dos dois irmãos, comparecendo até a cerimônia disfarçado, esperou calmamente que os convidados se retirassem e ávido por encontrar os irmãos restantes a prestigiarem festa, circulou à noite pelos arredores do sítio onde se realizava a festa de casamento. Sem sucesso, partiu então em direção à casa dos recém-casados, munido do terçado que já matara um dos Silva, esgueirou entre o capim que cercava a tosca choupana, parcamente iluminada apenas pelos restos dos tições que estalavam sobre o fogão de lenha, observou Joaquim da Silva, deitado sobre a cama, sozinho, talvez exausto pelos embates amorosos de suas núpcias, se aproximando devagar, cravou o facão na altura de seu coração, fazendo-o morto em poucos segundos, cortando-lhe com destreza uma das orelhas.

Em seguida se dirigiu rapidamente para a casa vizinha onde estava Antonio, porém os gritos desesperados da mulher de Joaquim, que certamente encontrara o marido envolto em sangue, pareciam alardear aos demais vizinhos o seu plano, diante disso Januário acelerou o passo em direção ao seu próximo alvo, porém se deparou com o próprio, seminu, vindo em direção oposta em socorro aos gritos incessantes.

Antonio estarreceu diante da figura do vingador, coberto de sangue espirrado, portando um facão em uma mão e uma orelha arrancada na outra, começou ele também a lançar gritos de horror enquanto dava meia volta a passos largos, foi quase que instantaneamente alcançado por Januário que já se encontrava correndo em sua direção, atingindo por vários golpes rasos no tórax e um fulminante na cabeça, caiu morto sobre a relva úmida de sereno. Com mais uma orelha decepada, Januário fugiu em meio a latidos de cachorros e luzes de lampiões que se aproximavam, não olhou para trás, não voltou para recuperar seus pertences e até mesmo a própria montaria que deixara no casebre do velho. Talvez por que já possuía o que mais cobiçava até momento, quatro orelhas transpassadas numa fiada.

Continua….

Sérgio Alberto Ramos Júnior, 24 anos, é historiador formado pela FFCL de São José do Rio Pardo. Atualmente persiste como professor da rede pública estadual, onde ministra aulas de história e geografia, também leciona informática e secretariado em cursos profissionalizantes na cidade de São Carlos. Gosta de boas histórias,música, cinema e sair para beber com a namorada e amigos.

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