Pequenos absurdos do cotidiano escolar: Contos eróticos e apostilas mal intencionadas.

Por Sérgio Alberto Ramos Jr.

Volta e meia somos surpreendidos com relatos pitorescos oriundos das escolas de modo geral. De fato, todos nós temos boas (ou más) recordações de nossas “batutices” escolares, é uma época de nossas vidas destinada ao aprendizado, onde fazemos amizades e dividimos muitas experiências somadas diante de toda sorte de acontecimentos, enfim, onde nós nos formamos enquanto cidadãos.

Porém, atualmente, determinados acontecimentos que presencio no trabalho parecem desvirtuar a Escola de seu verdadeiro fim, que deixa de ter seu propósito acima descrito para se assemelhar a algum tipo de reformatório ou instituição para correção de menores infratores. Normalmente, os relatos a que me referi estão relacionados à violência e ao comportamento abusivo de alunos, incitados à uma malícia sexual desproporcionalmente precoce por uma mídia sem escrúpulos e livres de qualquer noção de respeito, moral ou responsabilidade. As velhas certezas morais que precedem a Escola são cada vez mais raras.

Ocorre que tudo isso de que me queixo é reflexo de um processo social e suas conseqüências em uma mente ainda em formação, por isso a responsabilidade de quem educa, em ter ciência das conseqüências do que insere nas confusas cabecinhas dos alunos é tão vital. Noto essa noção com clareza em grande parte do professores com que trabalho, porém essa perspectiva parece faltar aos sábios pedagogos da Secretaria Estadual de Educação.

Sem mais intrólitos, o que acontece é que sucessivos erros com as políticas educacionais no Estado, aliadas ao comportamento corrosivo dos alunos estão tornando o trabalho docente cada vez mais inviável, e o pior, causando um irreparável estrago na formação desses cidadãos. O atual governo estadual alardeia suas “revolucionárias” medidas educacionais como maravilhas, entre elas estão as controversas apostilas pautadas na proposta pedagógica da Secretaria de Educação.

Ocorre que o fato dessas apostilas serem tão mal elaboradas e mal revisadas acaba se traduzido em certos deslizes que demonstram descuido, falta de compromisso e mesmo irresponsabilidade por parte dos elaboradores dessas “obras primas” escolares. Tudo bem, você de estar pensamento que simplesmente tenho antipatia pessoal por tal material, mas veja bem, após cada tema tratado na apostila, esta reserva um espaço com sugestões de filmes, músicas e sites para que o aluno interessado pesquise mais acerca do assunto, mas e se uns desses links para pesquisa fosse um site erótico?

É! Você leu corretamente, a apostila de Inglês, volume 2 para o 1º ano do Ensino Médio contém um link para pesquisa (www.newsonline.com) que permite aos alunos também analisar a anatomia de várias garotas que apresentam noticias totalmente nuas. A princípio pensei que o site havia sido hackeado após a publicação das apostilas, mas não, realmente é o site da famosa NakedNews. Brincadeira, Pegadinha do pedagogo malandro ou mesmo relaxo de alguém que deu um “CTRL+V” errado na hora de montar a apostila? Não dá para saber, pois até agora não houve resposta por parte da Secretaria.

Mas a “safadeza pedagógica” não para aí não, recentemente as escolas estão recebendo o eleitoralmente aclamado kit de leitura, onde os alunos recebem alguns livros com temas variados numa tentativa, muito boa de fato, de elevar o parco interesse pela leitura dos alunos. Porém, um livro em especial, chama a atenção: “Os cem melhores contos brasileiros do século”, que contém pelo menos uns quatro contos eróticos!!! Aham! Não felizes em direcionar os alunos para sites de conteúdo impróprio para menores, o material de leitura também desperta os “ingênuos” meninos e meninas do Ensino Médio para sua sexualidade, tão latente nos dias de hoje! Francamente, como se programas da RedeTv! já não fossem o suficiente!

Há quem possa dizer que estou agindo com falso moralismo, que os alunos de hoje em dia já chegam ao E.M. com muito mais “bagagem” no tocante a sexo do que muitas professoras por aí. Mas a questão que levanto é de que forma esse conteúdo pode ser usado para educar o já desenfreado comportamento sexual desses jovens? Confesso que, como adulto e homem, fiquei bastante interessado em saber como eram os contos dessa natureza, que nunca havia lido. Pude ler pelo menos quatro deles e fiquei surpreso em perceber como são, digamos, sugestivos.

O linguajar usado, o poder descritivo dos autores é realmente poderoso, os contos são muitos bons, para adultos. Os alunos são simplesmente muito imaturos para reconhecer isto como uma obra de cunho literário e ainda não levar para a história toda para outros campos. O conto “O olho” de Miryam Campello descreve com todos os (e mais alguns) detalhes a relação incestuosa entre um casal de irmãos e o “Obscenidades para uma dona de casa” impressiona pela terminologia usada e dispensa maiores apresentações se tomando por base o título, bastante apropriado para um pornô de baixo orçamento.

Obviamente esse material tem causado muita polêmica, sendo que algumas escolas já passaram a recolhê-lo, outras não. Alguns pais também entraram com representações junto ao Ministério Público contra Secretaria de Estadual de Educação, por razões óbvias.

Enquanto pedagogos e psicólogos argumentam sobre o caso, alguns dizendo que tudo é cultura ou que funciona no exterior, vejo no dia a dia do meu trabalho o quão limitada e obtusa é concepção dos alunos para vida, e principalmente com relação ao sexo e suas conseqüências, basta reparar na “pasta de alunos afastados”, documento que contempla um inacreditável número de alunas gestantes, com 17, 16 ou até mesmo 13 anos de idade, famílias que se iniciam sem a estrutura mínima para se levar o que podemos chamar de uma vida decente, e alimentam esse circulo vicioso que todos conhecemos.

Creio que qualquer tema possa ser abordado na escola, o professor é um profissional capaz disto, mas como já havia dito é necessário ter ciência da repercussão de seu trabalho e do que se ensina na vida dos alunos, e é claro a forma como se aborda o assunto é fundamental, do contrário as conseqüências podem ser desastrosas.

Sérgio Alberto Ramos Júnior, 24 anos, é historiador formado pela FFCL de São José do Rio Pardo. Atualmente persiste como professor da rede pública estadual, onde ministra aulas de história e geografia, também leciona informática e secretariado em cursos profissionalizantes na cidade de São Carlos. Gosta de boas histórias,música, cinema e sair para beber com a namorada e amigos.

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One response to “Pequenos absurdos do cotidiano escolar: Contos eróticos e apostilas mal intencionadas.”

  1. Josemar says :

    pELOS DEUSES:
    aCASO ESTÁS TÃO CHOCADO COM ESTES FATOS QUE OS TRANSFORMA EM ALGO PROIBIDO E POR ISSO MESMO MAIS APETITOSO AOS GOSTOS DOS ALUNOS?
    ACASO EM MEIO A ESSES ABSURDOS DEIXERAM DE VOTAR NO PSDB? oS ALUNOS, POR OUTRO LADO, JÁ LÊEM TÃO POUCO QUE O FATO DE ELES LEREM ISSO TAMBÉM, JÁ QUE EXISTEM 96 OUTROS BONS CONTOS NO LIVRO, JÁ É UM BOM MOTIVO PARA COMEMORAR. PENSE NISSO.

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