Um breve ensaio sobre o medo

Por Diego Coletti Oliva

Já a algum tempo trabalho com esse tema de pesquisa, e com freqüência me vi gaguejando na hora de explicar como essa emoção, tida como algo fortemente individual, pessoal e interna, pode ser transposta para a esfera do social e encarada e interpretada como um sentimento coletivo, e já tive inclusive a frustração de ver que mesmo depois de elaborar argumentos, dar exemplos e citar autores, algumas pessoas ainda continuavam me olhando com aquela típica cara de interrogação.

Agora começo a escrever minha monografia, e toda a pesquisa que foi feita até agora precisa tomar forma, sair da minha cabeça e ir para o papel de forma clara e objetiva, e explicar de uma vez por todas o que é essa tal de Cultura do Medo? De onde ela veio? E para onde está nos levando?

Sendo assim resolvi organizar aqui minhas idéias, e expô-las aos leitores deste blog antes de traduzi-las para o “sociologuês”, idioma que confunde até mesmo os mais fluentes. E para começar do princípio, e seguindo o método de Jack Estripador, ir por partes, nesse artigo vou tentar responder à questão mais óbvia:

Mas afinal, o que é Cultura do Medo?

Como eu disse antes, o medo é uma emoção tipicamente associada ao indivíduo, ao “eu”, e realmente todos nós temos nossos medos, não adianta querer dar uma de 300 de Esparta, pois até os soldados de Leônidas  tinham medo da desonra, e lutar e enfrentar a morte não é deixar de ter medo, mas ter coragem para enfrentá-lo e superá-lo, individualmente.

Mas como transportar essa noção de medo para o social? Como transcender o individual e encontrar o coletivo?

Raciocine comigo: os seres humanos são criaturas frágeis e efêmeras frente às forças da natureza, do Estado e até da religião, e porque não, da própria sociedade. Esses seres cheios de vícios e fraquezas são facilmente suscetíveis ao medo, e, aceitemos o fato, a coragem heróica tem saído de moda. Dessa forma, é lógico pensar que uma sociedade formada por criaturas amedrontadas será ela mesma uma sociedade amedrontada, basta que um medo comum se dissemine entre seus membros e a própria sociedade civil se organizará e reagirá sob a influência desse medo buscando restabelecer o sentimento de segurança, seja se protegendo, seja atacando a fonte de seus temores.

Até aí nada demais, até mesmo os grupos de animais que se organizam em bandos, rebanhos ou colônias reagem dessa forma às ameaças que os cercam, mas a sociedade humana tem um diferencial, e é este diferencial que caracteriza a Cultura do Medo: o poder de controle social e político do medo!

O ser humano aprendeu que o medo, mais do que uma emoção, é uma poderosa ferramenta de controle e de dominação, e desde então tem feito uso freqüente desta ferramenta.

Ficou confus@? Pois é, mas o medo é usado para dominar e controlar por vários agentes e há muito mais tempo do que parece. O medo está sempre presente nas manchetes da mídia, no discurso dos políticos e até nos sermões da Igreja. Temos medo de queimar no inferno, das pandemias globais, da violência urbana, da crise financeira, do terrorismo e do aquecimento global. Medos que podem até ser sentidos individualmente, mas que estão tão disseminados e enraizados que trazem conseqüências à esfera do social e do coletivo.

Essa conseqüências podem ser vistas facilmente na elaboração de políticas públicas de segurança e sustentabilidade, ou no fortalecimento de ONGs e comunidades identitárias. Mas as conseqüências mais profundas, e mais sutis, estão nas mudanças que tem lugar nas relações sociais, nas formas como a sociedade se organiza, como os indivíduos se relacionam entre si e como se relacionam com o próprio Estado.

Podemos ver na sociedade o crescimento do individualismo, a desconfiança com relação ao outro, o esvaziamento da vida pública e a crise das instituições políticas. Todas essas mudanças, muitas outras, estão relacionadas à difusão sempre crescente da Cultura do Medo, mas isso é assunto pra muitas páginas, e em outro momento com certeza irei retomá-lo.

O que é importante deixar claro sobre a Cultura do Medo e sobre seus usos como ferramenta de controle social e político é que muitos desses medos que sentimos socialmente estão direcionados para as causas erradas ou são simplesmente fictícios!

Isso mesmo! Muitos dos medos que nos afligem são uma grande falácia posta em ação por aqueles que, de alguma forma, possam se beneficiar desse estado de medo constante, seja a mídia, o governo, a religião ou qualquer outro grupo de interesse.

Quer um exemplo bem claro, e um expoente mundial da Cultura do Medo? A Guerra do Iraque (essa que acabou há algumas semanas). Tanto o governo, quanto a mídia estadunidense se uniram numa campanha para dar ao mundo, e especialmente aos seus cidadãos, a noção de que o Iraque, e Saddam Hussein, eram uma ameaça à democracia e ao mundo ocidental, munidos de armas químicas e biológicas de destruição em massa, conseguindo até ligar os atentados de 11 de setembro à essa ameaça.

E o que eles ganharam com isso? Aprovação da população, e legitimação para invadir um dos maiores produtores de petróleo do mundo, a instauração da Lei Patriota em seu país, que permite que o governo vigie de perto todos os atos de seus cidadão, inclusive de sua vida privada, e a reeleição do ex-presidente George W. Bush.

Mas esse é apenas uma exemplo de maior destaque. A cultura do medo está em formas e eventos bem mais sutis, e bem mais freqüentes do que imaginamos.

Observe por um momento a construção do telejornal, preste atenção na ordem em que as notícias são apresentadas, ouça a trilha sonora das reportagens, o tom de voz usado pelo âncora, as imagens escolhidas para a ilustração da notícia, as palavras usadas na manchete e até a escolha dos dados e dos “especialistas sobre o assunto” apresentados durante a matéria.

Todos esses âmbitos da apresentação de uma notícia são usados para criar  “clima” escolhido para a matéria, e devemos estar mais atentos quando o tal clime é o medo.

Por quê? Como senso comum estamos acostumados a acreditar em tudo que a imprensa nos diz e não questionar suas fontes, mas como Barry Glassner (sociólogo estadunidense) demonstra claramente em seu livro “Cultura do Medo”, a mídia é a maior especialista em nos apresentar estatísticas forjadas e mal interpretadas, e usar a declaração de pseudo-especialistas para confirmar suas análises.

Por exemplo: De acordo com Glassner a violência decaiu 20% nos EUA nos últimos 10 anos, entretanto as notícias sobre violência na mídia aumentaram em 600%! E no Brasil a situação não é diferente, por mais que as estatísticas demonstrem que a taxa de homicídios é a mais baixa desde a ditadura, temos a nítida sensação de estarmos vivendo em uma zona de guerra, e podemos ser brutalmente assassinados ao virar a esquina saindo do cinema, mesmo morando em uma cidade de 30 mil habitantes!

Outro exemplo mais preso ao tempo: a Pandemia de Gripe Suína que poderia significar a morte de 1/3 da população mundial em questão de meses de acordo com a mídia, e que no fim teve uma taxa de mortalidade inferior até mesmo à da gripe comum no mesmo período.

Muitos de nossos medos são criados ou “turbinados” pela mídia, pelos políticos e por vários outros agentes do medo, que só estão interessados em exercer o controle através do medo, e lucrar, econômica ou politicamente com as conseqüências da disseminação dessa cultura do medo.

Há muito mais a ser dito sobre esse assunto, muitas pontas que podem ser melhor explicadas ou mais aprofundadas, e como meu objetivo aqui é explorar um passo de cada vez com esses ensaios, só espero que até aqui @ amig@ leitor/a tenha conseguido formular uma noção básica do que é a Cultura do Medo e que possa começar a enxergar mais claramente essa sutil e poderosa ferramenta de controle e dominação à qual estamos tod@s submetid@s, e que possamos juntos ter a força daqueles 300 de Esparta, não para não sentir medo, mas para enfrentá-los e superá-los.

Diego Coletti Oliva tem 24 anos, é Cientista Social, escreve nos blogs O Poterkin e Papos&Goles e é idealizador do Espaço CULT. Na universidade, pesquisa Cultura do Medo e participa do Laboratório de Política e Governo. Em casa, passa a maior parte do tempo com a moça aí de cima, joga RPG, ouve blues e adora cinema e quadrinhos.
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2 responses to “Um breve ensaio sobre o medo”

  1. Tiago Pereira says :

    Concordo com você Diego e também acho que o que é a Cultura do Medo ficou bastante claro pra todo mundo. Eu vi bem o que é tudo isso há alguns meses quando levei minha namorada ao hospital com uma gripe muito forte e logo já colocaram uma máscara nela. Lembro que ela começou a chorar só de ver a máscara. No final não era nada demais. Parabéns pelo post e continue assim.

  2. Nádia says :

    Achei!!!
    Muito bom e esclarecedor o seu texto, Diego! Tenha a certeza de que refletirei bastante ainda sobre ele!
    Aguardo mais posts sobre o tema!
    Beijos e parabéns!
    Ná.

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