O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – I

Por Sérgio Alberto Ramos Jr.

No estudo da História Geral, os acontecimentos do passado brasileiro são os que menos despertam interesses nos alunos, ora por se ater em demasia aos controversos feitos dos grandes nomes de nosso panteão político-militar, ora por esmiuçar rotinas de uma economia que é sempre apresentada como anacrônica e que teima em abandonar seus aspectos coloniais. Resumidamente, a história do Brasil na forma como é tratada em muitos livros escolares carrega de antemão o estigma de um entediante circo de “absurdos gloriosos”.

Porém, no nosso passado recente ou mesmo nos primórdios do colonialismo, é possível encontrar narrativas interessantíssimas, para não dizer no mínimo cinematográficas, preservadas em documentos como registros judiciais e policiais ou mesmo mantidos pela tradição oral, que remontam a um passado insólito e curioso.

Uma dessas histórias se passa no sudeste brasileiro, no início do século XIX, período marcado pela decadência da exploração do ouro nessa região, e narra os feitos da família Garcia Leal, mas especificamente os de Januário Garcia Leal que seria proprietário de terras e fazendeiro na região que hoje abrange as cidades de São Bento Abade e Três Corações, sul de Minas. Após a morte de Pedro Garcia Leal, pai de Januário, a fazenda de grande extensão é dividida entre ele e os irmãos João e Matheus Garcia Leal, já homens feitos, casados e residentes em pontos distintos da propriedade que tinha como vizinho outro conhecido sesmeiro de nome Francisco Silva, o Chico Silva.

Há vários registros que documentam as desavenças entre a família Leal e os Silva, sempre relatando queixas dos Garcia quanto ao roubo de gado ou demarcação ilegal de divisas por parte dos Silva. Ocorre que o dito Chico Silva e sua extensa prole eram indesejados e desonestos, e notórios pela truculência e nenhuma moral no trato com os vizinhos. Certa vez, os Silva teriam alterado a demarcação de divisas (cercas) de sua propriedade usurpando um “pasto” inteiro pertencente ao João Garcia Leal, irmão do meio de Januário.

Diante de mais esse abuso, João comunicou os outros dois irmãos de que iria pessoalmente exigir satisfações de Chico Silva, mesmo sendo advertido pelo irmão mais velho sobre a ignorância e intempestividade do fazendeiro rival. João, ao chegar sozinho na presença de Chico, foi ofendido e houve feroz discussão, que obviamente não resultou na devolução das terras roubadas de sua família. No mesmo dia, Chico Silva, inconformado com a audácia de João, mandou chamar todos os seus filhos: Luís, Carlos, Antônio, Joaquim, Francisco, Paulino e Bento. Os irmãos Silva, como eram conhecidos.

Com todos reunidos, lhes ordenou uma sinistra tarefa:

“Procurem João Garcia e, onde o encontrarem, atem-no vivo a uma árvore e tirem-lhe a pele estando ele vivo, tragam-na para mim, e deixem o corpo exposto para os urubus”.

Dias depois, João selou seu cavalo e saiu à procura de algumas reses que haviam sumido, já com o sol alto as avistou próxima a um bambuzal, e foi aí o lugar da emboscada. Assim que se aproximou, os irmãos Silva saltaram sobre ele segurando seu cavalo. Já no chão e em meio a socos e pontapés, teve suas roupas arrancadas e foi arrastado até uma figueira próxima. Nu e amarrado à árvore, os Silva iniciaram sua funesta tarefa de arrancar a pele do pobre coitado que suplicava por uma morte rápida. A partir da cabeça, foram o esfolando até a morte e, como requisitado, abandonaram o corpo dependurado.

É sabido que o mandante do crime, Francisco Silva, teria morrido no mesmo dia, vítima de apoplexia, uma espécie de derrame, sem, contudo, poder receber seu agourento troféu. Desorientados com a morte do pai, que figurava como importante peça na política de coronelismo da época garantindo a impunidade dos filhos, os mesmos decidiram vender as partes que lhe cabiam na propriedade e fugir para outras sesmarias.

Diante o sumiço de João, os outros dois irmãos saíram separadamente em sua busca. Januário, cavalgando próximo à divisa com a fazenda dos Silva, avistou um bando de urubus e, já esperando o pior, rumou na mesma direção. Ao encontrar a chocante cena, Januário ainda conseguiu retirar o corpo de seu irmão da figueira ensanguentada, expulsando as aves que o devoravam, recolheu-o e retornou para a sede da fazenda. Conta-se que a mãe dos Garcia, já idosa, ao avistar o tumulto de funcionários que cercava o cavalo de Januário, irrompeu no meio desses e, no momento em que se deparou com o corpo barbarizado de seu filho, ficou catatônica até o dia de seu falecimento, meses depois.

A veracidade sobre esse crime levanta muitos debates. Como prova documental do incidente há apenas o registro de óbito de João Garcia Leal, datado no ano de 1802, mas que abstém qualquer detalhe sobre as circunstâncias de sua morte. Porém, a história do despelamento é bastante conhecida entre os moradores da região de São Bento Abade e, ainda hoje, a aproximadamente seis quilômetros da cidade, às margens da rodovia que faz a ligação entre São Bento e Três Corações, existe a lendária “figueira do tira-couro”, que também dá nome à fazenda que a comporta. A Fazenda Tira-couro bem como a figueira, que hoje corresponde à terceira brotação da árvore original, atraem muito curiosos.

Januário e sua família procuraram as autoridades e representantes da coroa portuguesa para exigir a imediata prisão de todos os irmãos Silva, sem sucesso. A condição de fuga dos citados criminosos dilapidava cada vez mais as possibilidades de captura. Passadas algumas semanas do assassinato, Januário se dirigiu até São João Del Rei, então capital da comarca, da onde retornou também sem nenhum comprometimento da milícia.

No caminho de volta, à noite, Januário encontrou outro cavaleiro que disse estar se dirigindo para uma festa de despedida, onde haveria muita aguardente e o convidou para ir também. Chegando a uma fazenda de nome Campo Formoso, os dois se dirigiram até um rancho onde havia muita algazarra e som de cateretê. Januário preferiu esperar do lado de fora até entender o que estava se passando e, ao conversar com um conhecido, esse lhe informou que se tratava da festa de despedida dos filhos mais velhos do finado Chico Silva: Francisco e Paulino Silva, que haviam vendido suas terras e estavam de partida.

Nesse ponto, Januário decidiu que deveria fazer a justiça por conta própria e, pacientemente, esperou os convidados se retirarem, sentado próximo aos cavalos amarrados. No momento em que viu Francisco e Paulino se aproximando dos cavalos cheios das “tralhas” para a viagem, caminhou na direção deles como se fosse apertar-lhes o estribo, um gesto que exprime amizade e “boa viagem”. Quando Francisco já estava sobre o animal, foi atingido em cheio, bem no peito por um disparo de bacamarte à queima roupa, que o arremessou para trás da montaria. Com o estampido, os cavalos se agitam derrubando também Paulino que estava a montar. Já caído, ele reconheceu Januário e se colocou a correr gritando por socorro, mas antes que pudesse erguer totalmente o corpo, foi fulminado com um golpe de terçado na altura do pescoço. Januário se abaixou sobre cada um dos corpos sem vida, decepou-lhes uma das orelhas e as levou consigo.

Januário abandonou os corpos insepultos no meio da noite e jurou vingar a morte cruel do irmão, matando cada um dos outros cinco algozes que faltavam, colecionando as orelhas de cada um numa fiada.

…continua…

Sérgio Alberto Ramos Júnior, 24 anos, é historiador formado pela FFCL de São José do Rio Pardo. Atualmente persiste como professor da rede pública estadual, onde ministra aulas de história e geografia, também leciona informática e secretariado em cursos profissionalizantes na cidade de São Carlos.
Gosta de boas histórias,música, cinema e sair para beber com a namorada e amigos.

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4 responses to “O relato de um Brasil rural e violento: A história das sete orelhas – I”

  1. Ernesto de Castro Machado says :

    Prezado Sérgio: sou pentaneto de Joao Garcia Leal, irmao de Januario Sete Orelhas. Gostaria de receber novas informacoes sobre a familia Garcia Leal. Resido na cidade de Morro Agudo. Grato. Ernesto.

  2. Luciano Bruno Ribeiro Garcia D'Alessandro says :

    Ernesto, entre em contato comigo no e-mail luciano.dalessandro@gmail.com Tenho novidades sobre o caso das sete orelhas. Acabo de terminar um livro de 240 páginas sobre o assunto. Nessa obra, a versão abordada no presente blog – a que chamamos versão mineira para o caso das sete orelhas – constitui apenas uma parte daquele obscuro caso, que teria acontecido no Brasil Colônia, e foi contado no Brasil Império e repetido na República. Obrigado

  3. Simone do Carmo Garcia says :

    Sérgio,cresci ouvindo está história contada pela minha família que é de Três Corações,mais temos parentes nas intermediações de São Bento Abade e Carmo da Cachoeira.
    Nós assinamos o sobrenome Garcia e somos vistos pela sociedade como perigosos, muitas das vezes usam piadas de mal gosto, mais não me importo.
    Eu gostaria de conseguir um exemplar do Livro “Das Sete Orelhas”, para presentear meu pai que adora contar para as pessoas esta história, ele já está com 65 anos e tem muito orgulho do sobre nome Garcia.
    A tempos atrás procurei informações na internet sobre o assunto mais não encontrei muita coisa interressante, vou imprimir está página e levarei para minha família ler e fazer um fichário para guardar.
    Com relação ao livro nunca consegui encontrar, vc sabe algo a respeito.

  4. Wanilda Garcia Santos says :

    Amei ler está história sempre ouvi muitas histórias da minha família contadas pela minha mãe, avos e tios gostaria de saber mais ou ver a continuação desta.

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