Realidades do ensino: Aluno primata? Professor um capitalista Selvagem!

Por Eduardo Kull

Certa vez, esperando na fila de um banco encontrei ao acaso outro colega professor. Lógico que começamos a conversar sobre educação, escolas e alunos, nada de anormal até ali. Porém este meu colega também trabalhava em uma escola particular e, analisando o que ele havia conversado comigo, percebi algo de diferente e perguntei se não era para ele estar lecionando naquela escola, naquele instante. Ele, com um sorriso, disse que sim.  A justificativa me deixou boquiaberto. Como uma pessoa pode pensar mais em si mesmo em um altruísmo quase que barroco e deixar seus alunos de lado. Vejam:

“Sim, era para eu estar agora em aula, porém escolhi faltar hoje(uma quinta-feira), pois semana passada faltei na terça-feira e já prejudiquei o sétimo ano,  hoje eu estou prejudicando o nono ano. O colégio não me paga o salário há três meses e estou fazendo esta greve de um homem só para poder receber o que mereço. Apesar de manter minhas contas com as aulas em outros estabelecimentos não vou sair prejudicado! Nem que eu entre na justiça! Trabalhei por muito tempo já e quero ter o meu conforto, eu mereço! Você me entende, sabe que sem salário não há motivo para lecionar…”

Naquele instante decidi parar de escutar aquele absurdo. Aquele “sem salário não há motivo para lecionar…” ecoou em minha mente, fazendo com que um repúdio enorme surgisse por aquela pessoa que se julgava ser professor.

Refletindo sobre o depoimento comecei a pensar nas raízes daquele problema. Hoje uma parte das escolas particulares está em uma situação na qual há um déficit grande em seu balanço financeiro, ou seja, gastam mais do que recebem. E isso se dá por dois motivos e na maioria das vezes ambos simultaneamente: má administração e inadimplência.

A má administração ao se planejar o quadro financeiro de uma escola pode levá-la a fechar suas portas. Contratar professores caros, pagar horas-aula mais caras para motivar seus funcionários ou investir absurdamente em propaganda são movimentos comuns que os gestores ruins fazem de maneira equivocada e desesperada para tentar salvar o colégio em um momento que ele precisava economizar. Uma escola hoje em dia deve-se saber investir, pagar seus funcionários em dia e saber dosar a propaganda. Estas são as chaves para se manter no mercado.

No mercado da educação é fato: a inadimplência com as escolas particulares gira em torno de 11 a 20%. Vendo isso para uma escola de pequeno porte esse montante pode chega a quase cinco mil reais por mês. Em um ano mais de cinquenta mil reais! Dinheiro que é pago somente com ações judiciais as quais ao serem colocadas em prática pegam bens do devedor para sanar parte da dívida com a escola. Uma vez, vi um caminhão de bens ser descarregado em uma escola e para sanar a dividida foi dado para a escola 8 padiolas! O que uma escola vai fazer com oito padiolas? Trazer terra para enterrar de vez a escola? Dinheiro perdido!

Esses dois parâmetros fazem com que a escola de maneira injusta deixe de pagar parte de seus bens mais preciosos: Seus professores. Trabalhar e receber seu salário é parte da base de nossa vida em sociedade, pois sem dinheiro, não se pode viver com dignidade hoje em dia. Todos nós precisamos comer, precisamos consumir, temos sonhos, desejos e vontades e esse suado dinheiro ajuda a realizar parte de tudo que almejamos.

Não receber um salário é muito ruim, é um mal que acontece com a vida de muitos professores, porém isso jamais deveria sobrepor a ética e o profissionalismo. O velho ditado “não de cospe no prato em que se come” explica bem isso.  O professor é um título que em si carrega um grande fardo de respeito. Adoro quando os frentistas do posto que abasteço meu carro para viajar quando dou aulas em outra cidade chegam e dizem: “Bom dia professor! Posso lavar o para brisa enquanto abastece?”, eles não sabem meu nome mas sabem que sou professor e isso os faz lembrar, de certa maneira nostálgica, de um tempo que foi maravilhoso para eles. Alguns já me confessaram que quando estavam na escola desejavam ser professores por admirar o respeito e o conhecimento que tinham. Outro exemplo simples foi que mesmo no time de paintball que participo meu nome de guerra ficou Professor. Carregamos este “fardo” de respeito e responsabilidade, boa parte nos escuta com atenção e tomam o que falamos como verdade, nos dão esse crédito. E quando falamos mal do próprio local que trabalhamos, estamos falando mal de nós mesmos. Parte da culpa da má situação dos colégios hoje em dia é sim dos professores que se omitem ao ver a situação, não falam ou fazem nada em alerta por acharem que não são pagos para ajudar ou mesmo pela inacessibilidade aos chefes e diretores.

Não se espantem quando digo nesta inacessibilidade aos donos e diretoria. Boa parte das direções não querem que os professores saibam da situação da escola, devido ao fato de muitos falarem mal do próprio local onde se dignificam como foi explicado acima.

A aula que aquele professor teria dado hoje poderia ter mudado a vida de uma jovem mente. Poderia ter feito com que aquela mente se interessasse pelo tema, passando a ver a matéria com outros olhos, fazendo o aluno estudar mais para passar no vestibular, cursar a matéria e quem sabe fazer grandes descobertas e avanços que o mundo de hoje tanto precisa.

O dinheiro é importante para cada um de nós, precisamos de sustento, precisamos dele para poder de certa forma melhorar. Mas não há nada que pague um dia um antigo aluno seu aparecer no colégio e te dar um abraço de agradecimento por tudo que você fez, por ter mudado e ajudado a vida dele a crescer, por ter influenciado para que ele focasse seu pensamento em seu futuro.

Nós professores mostramos para os alunos vários caminhos, ele pode sonhar com todos e mesmo assim não o deixamos tirar os pés do chão, pois estes sonhos dependem do esforço dele de estudar e querer aprender e de nós professores de cada dia que passa dar uma aula melhor que a outra. Cada aluno de cada sala deixa sua marca em nossos corações, muitos deixam histórias e apenas alguns entram para a história, mas mesmo que estes alguns sejam poucos, um dia eles vão lembrar com carinho daquele velho professor que no meio daquela matéria difícil fez piadas, criou musicas, rebolou e faria qualquer coisa, mas deu um jeito de facilitar e ajudar os alunos a entenderem. Aquiles para não se tornar uma lenda lutou contra Tróia mesmo sabendo que iria morrer, nós professores só precisamos mostrar aos alunos as verdades da vida, da natureza e da ciência que jamais seremos esquecidos.

Dicas: Assistam um filme de 1967 chamado “Ao mestre, com carinho” com Sidney Poitier, todo professor deveria vê-lo.

Eduardo Kull, 25 anos, é Químico em evolução pela Unesp  e Professor de química no Ensino Médio. Pesquisa jogos didáticos, com enfase em jogos de interpretação e neurociência.  RPGista há 14 anos, jogador de paintball de finais de semana, apaixonado pela namorada,  tenta conciliar tudo isso e ainda tramar planos para a dominação mundial.

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One response to “Realidades do ensino: Aluno primata? Professor um capitalista Selvagem!”

  1. Tiago Pereira says :

    Parabéns Eduardo pelo ótimo texto e parabéns ao meu amigo Diego e a todos os envolvidos nesse projeto chamado Espaço Cult. Venho de uma família de professores e posso dizer que conheço relativamente bem o assunto. O professor citado no texto não é exemplo para nenhum outro profissional, seja ele professor ou não. Mas as administrações de certas instituições de ensino também não são. Não acho ético o que ele fez e concordo que “aquela” aula poderia ter mudado o rumo da vida de alguém, como já aconteceu comigo. Mas confesso que não sei o que faria na situação dele. Os professores recebem baixos salários e não recebem hora extra pelas incontáveis horas que trabalham em suas próprias casas corrigindo provas e planejando aulas. Mas, ao menos, recebem alguma coisa. Agora, 3 meses sem salário é complicado, tá certo que o professor citado tinha outras fontes de renda, mas… e se não tivesse? Por isso me coloco no lugar dele e, de novo, digo que não sei o que faria.
    Parabéns mais uma vez e continuem com esse importante trabalho. Textos inteligentes são sempre bem-vindos.

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