Situação do aleitamento materno é crítica em São Paulo

Por Rodrigo de Oliveira Andrade

Pesquisadores do Instituto de Saúde (IS) da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), com apoio da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (MS), realizaram, durante a 2ª fase da campanha de multivacinação de 2008, a II Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal – PPAM/Capitais e DF, a fim de obter dados que contextualizassem a situação da prática do aleitamento materno no País. O estudo teve como objetivo analisar a evolução dos indicadores de aleitamento materno (AM) no período de 1999 a 2008, identificar grupos populacionais mais vulneráveis à interrupção do AM e avaliar práticas alimentares saudáveis e não saudáveis. Os dados coletados foram compilados e poderão atualizar as informações sobre as diferentes modalidades de aleitamento materno e alimentação complementar no País. Além de todas as capitais e DF, participaram do estudo mais 200 municípios brasileiros.

A pesquisa debruçou-se, também, sobre a influência da Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC) – lançada em 1991 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), junto ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), e que tem como objetivo a promoção da amamentação nas maternidades e o cumprimento do Código Internacional de Comercialização dos Substitutos do Leite Materno – sobre as taxas de amamentação noPaís. Para isso, foram analisadas informações das 120.125 crianças incluídas no estudo sobre seus respectivos hospitais de nascimento, sendo possível, desta forma, identificar que 28,9% delas haviam nascido em Hospitais Amigo da Criança (HAC).

Outra ação fomentadora do AM é a Semana Mundial de Aleitamento Materno (SMAM), organizada anualmente pela Word Alliance for Breastfeeding Action (WABA) em mais de 170 países e que este ano, em sua 19ª edição, trabalha o tema “Amamentação: 10 passos para ser amigo da criança”. Recentemente, a UNICEF divulgou a redução da mortalidade infantil de 13 milhões, em 1990, para 8,8 milhões em 2008, e enfatizou que a diminuição deste número está estritamente relacionada com a adoção de intervenções básicas de saúde, como a do aleitamento materno exclusivo. Este ano, a SMAM acontecerá entre os dias 1° e 7 de agosto, em todos os municípios brasileiros.

Perfil do aleitamento materno em São Paulo

Dentre as regiões inseridas na pesquisa, a Sudeste foi a que apresentou maior número de municípios envolvidos no inquérito. No caso de São Paulo, 77 municípios participaram da coleta de dados referente à prevalência de crianças menores de 1 ano que foram amamentadas na 1ª hora de vida, sendo que 49 apresentaram prevalências superiores à média nacional. No entanto, embora o Estado São Paulo possua 36 hospitais credenciados na IHAC, mais de 27 municípios paulistas tiveram índices de prevalência de amamentação na 1ª hora de vida inferior à brasileira, incluindo grandes cidades, como São Paulo, Campinas e Santos. Para Sonia Venâncio, pesquisadora do Instituto de Saúde e coordenadora do estudo, “é fundamental ampliar o número de hospitais amigos da criança no Estado, tendo em vista que estudos nacionais e internacionais têm mostrado o impacto positivo dessa iniciativa sobre os indicadores de amamentação”.

Ao todo, em São Paulo, 62,4% das crianças tiveram o AM na 1ª hora de vida, número inferior à média Nacional (67,7%), embora percentualmente maior que o encontrado na Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de 2006 – PNDS/2006 (43%). Nacionalmente, no entanto, constatou-se que há maior proporção de crianças menores de um ano amamentadas na 1ª hora de vida entre as que nasceram em HAC (71,9%), quando comparadas àquelas nascidas em maternidades não credenciadas na Iniciativa pelo Ministério da Saúde (65,6%).

No que se refere às práticas de aleitamento materno exclusivo em menores de seis meses no Estado de São Paulo, 39,1% das crianças analisadas se alimentaram apenas do leite da mãe. 38 municípios paulistas apresentaram prevalências superiores à média nacional e 39 municípios, incluindo a Capital, apresentaram prevalências de AM exclusivo inferiores à prevalência do Brasil (41%), número superior à média registrada no PNDS de 2006 (39,8%). Quanto à proporção de crianças menores de seis meses amamentadas exclusivamente no dia anterior à pesquisa, verificou-se que, no Brasil, 50% delas nasceram em HAC, enquanto que 46% nasceram em maternidades não credenciadas à Iniciativa. Por fim, em relação ao aleitamento materno em crianças entre 9-12 meses, 59 municípios paulistas apresentaram médias inferiores à prevalência do Brasil. Ainda de acordo com a pesquisa, nos 77 municípios do Estado de São Paulo, 48,75% das crianças entre 9 e 12 meses receberam leite materno. No Brasil, a média foi de 58,74%, sendo a região Norte a apresentar, dentre todas, a melhor situação, com 76,9% das crianças amamentadas nessa faixa etária.

Situação no Brasil

Observou-se, todavia, que em todas as regiões do País as probabilidades de as crianças estarem sendo amamentadas nos primeiros dias de vida são superiores a 90%, com queda mais acentuada após o quarto mês. A análise da situação do Brasil, no que diz respeito à situação do aleitamento materno, de acordo com parâmetros propostos pela OMS, constatou, ainda, que, em relação ao AM na 1ª hora de vida, todas as capitais e Distrito Federal apresentam uma situação considerada “boa”. Já em relação ao aleitamento materno exclusivo em menores de 6 meses, apesar dos avanços do País, 23 capitais ainda se encontram em uma situação considerada “ruim”, segundo a OMS, com apenas 4 capitais em “boa situação”.

Apesar da evidência de uma significativa melhora da situação do aleitamento materno no País entre 1999 e 2008, ainda é distante o cumprimento das metas propostas pela OMS e o Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Aleitamento Materno, criada em 1981. Entretanto, de acordo com Sonia, a comparação dos resultados alcançados a partir da análise dos dados coletados durante a realização da pesquisa com aqueles provenientes do estudo realizado nas capitais em 1999 poderá fornecer informações importantes para a avaliação das ações de incentivo à amamentação no País, “bem como para o planejamento de estratégias futuras”, afirma.

Incentivo ao Aleitamento

O Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno teve seu início na década de 1980. De lá pra cá, os índices de AM no Brasil vêm aumentando gradativamente. Em 1999, durante a campanha nacional de vacinação implementada em todas as capitais brasileiras, exceto no Rio de janeiro, o Ministério da Saúde organizou um inquérito sobre amamentação que trouxe contribuições significativas para a análise e elaboração, no que diz respeito à prática da amamentação no País, de políticas públicas que atuassem em todos os estados e regiões estudadas. Todavia, a necessidade de manter atualizadas as informações coletadas por meio do inquérito de 1999, levou à realização de uma segunda pesquisa de âmbito nacional – utilizando a mesma metodologia do estudo anterior –, que verificasse a atual situação da amamentação e da alimentação complementar no País.

O fomento às ações que visam conscientizar e sensibilizar a população brasileira sobre a importância do aleitamento materno durante os primeiros anos de vida da criança faz parte do elenco de estratégias que pretendem reduzir a mortalidade infantil no Brasil, compromisso que faz parte do Pacto de Redução da Mortalidade Materna e Neonatal, Pacto pela Vida, Programa Mais Saúde e o Termo de Compromisso – firmado entre as instâncias públicas federal e estadual – que tem como objetivo a elaboração de estratégias de redução das desigualdades regionais.

Coleta e comparação de dados

Durante a pesquisa, para facilitar a coleta de dados, foi desenvolvido – com o apoio da equipe de informática do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (ICICT/Fiocruz) –, um sistema de digitalização de dados com os mesmos recursos do aplicativo “Amamunic”, Projeto de Amamentação e Municípios, desenvolvido pelo Instituto de Saúde desde 1998, cujo objetivo é monitorar as práticas de alimentação infantil no Estado de São Paulo. A implementação deste sistema no processo de coleta de dados possibilitou aos estados e municípios a obtenção de relatórios com indicadores sobre as práticas de AM propostos pela OMS, além de recursos que permitiam a exportação das informações constantes do banco de dados.

No que se refere às informações sobre as práticas alimentares, utilizou-se o método “recordatório de 24 horas”, que consiste na coleta de dados sobre a dieta das crianças nas últimas 24 horas. Além disso, foram coletados dados sobre as crianças e suas mães, de modo a potencializar a análise dos padrões de alimentação infantil, segundo características da população. Com isso, as informações podem ser utilizadas como ferramentas para o planejamento e avaliação da Política Nacional de Aleitamento Materno em todas as esferas de gestão e de auxilio para ações de organizações não-governamentais (ONGs) que estejam inseridas dentro da prática de fomento à promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno.

A comparação entre os dados obtidos nesta pesquisa com aqueles provenientes da pesquisa realizada nas capitais e DF em 1999 foi realizada por meio de três indicadores: “Aleitamento Materno Exclusivo (AME) em crianças menores de 4 meses”, “AM em crianças entre 9 e 12 meses” e “ Uso de chupeta em crianças menores de 1 ano”. Os dados de cada região brasileira e capitais foram ponderados segundo tamanho da população de crianças menores de 1 ano. Ao todo, nas capitais e DF foram coletados dados de 34.853 crianças, das quais 1,3% foram excluídas da análise por falta de informação sobre as data de nascimento e 0,05% por inconsistência na idade.

Rodrigo de Oliveira Andrade, 21 anos, é jornalista do Núcleo de Comunicação Técnico-Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, crítico nas horas vagas e escritor após a meia-noite. Como pesquisador, finalizou recentemente seu artigo de Iniciação Científica sobre o jornalismo na sociedade do espetáculo. Como colaborador, escreve para a Revista Eletrônica de Jornalismo Científico (ComCiência) do Labjor da Unicamp e para o blog Espaço Cult, além de coordenar o blog O Poterkin.
Anúncios

Tags:, , ,

2 responses to “Situação do aleitamento materno é crítica em São Paulo”

  1. Ministério da Saúde says :

    Olá blogueiro,

    Dê ao seu filho o que há de melhor. Amamente!

    Quando uma mulher fica grávida, ela e todos que estão à sua volta devem se preparar pra oferecer o que há de melhor para o bebê: o leite materno.
    O leite materno é o único alimento que o bebê precisa, até os seis meses. Só depois se deve começar a variar a alimentação.

    A amamentação pode durar até os dois anos ou mais.

    Caso se interesse na divulgação de materiais e informações sobre esse tema, entre em contato com comunicacao@saude.gov.br

    Obrigado pela colaboração!

    Ministério da Saúde

  2. Rodrigo de Oliveira Andrade says :

    Olá,

    É uma ótima idéia. Conversarei com o pessoal que escreve para o blog sobre isso e, assim que possível, entrarei em contato com vocês por meio desse e-mail, OK?

    Obrigado pela sua visita.
    Abraços,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: