Sobre a Summa contra Gentiles de Tomás de Aquino – Parte 2

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As verdades divinas inacessíveis a razão não são para poucos, nem são excessivamente difíceis de se conceber, nem são passíveis de erros porque foram propostas por Deus ao homem com objetos de fé. São coisas que a fé procura e que foram apresentadas ao homem para serem cridas e sabidas. O que Tomás nos quer dizer sobre essa necessidade? Simplesmente que é justo que as verdades divinas sejam propostas como objetos de fé. Se não fosse assim, o conhecimento destas verdades seria praticamente impossível e o homem jamais poderia se assegurar da existência das razões mais sublimes e essenciais. Teríamos portanto um homem mais próximo da natureza imanente do que da transcendente, um homem mais corpo e menos alma, mais voltado aos particulares do que ao geral. Praticamente não haveria pessoas que fizessem profissão de conhecer a sabedoria, não se veria homens sábios, apenas técnicos e práticos.

Por tudo isso, se pergunta agora, são necessários objetos de fé para o homem conhecer as verdades supra-racionais? A resposta parece evidente. Vamos verificar o significado dessa necessidade e concluir a seu respeito. Qualquer estudioso pode conceber que o homem é um ser que não se satisfaz consigo e com o mundo, há sempre em sua alma um desejo de ir além da “imediaticidade” de sua vida e dos fenômenos físicos. O homem parece um animal defeituoso que não se contenta apenas com o imanente. Os outros animais, por exemplo, se houverem todos os componentes naturais para a sua sub-existência, eles se contentam. Entretanto, a vida humana precisa de mais do que as sua necessidades naturais. Uma ansiedade pelo transcendente seria a expressão mais adequada. Ansiedade esta que está nas verdades divinas. Como encontrá-las? Como saciar esse desejo de transcendência? Quem tem poder de dar ao homem o que ele busca ansiosamente é a religião, pois ela “promete bens espirituais e eternos”. A promessa desses bens corresponde a ansiedade que atormenta a alma humana, pois a religião por meio do conhecimento das verdades divinas reveladas apresenta aos homens os objetos de fé que são em última análise o fator decisivo, o que corresponde ao desejo humano de bens eternos.

Além disso, outro fator determina que os objetos de fé sejam necessários, se trata do conhecimento verdadeiro de Deus. Se não fosse pelos objetos de fé, não haveria um conhecimento verdadeiro das verdades divinas. O conhecimento que tratamos aqui está além do que a razão pode compreender naturalmente. Queremos explicar como Tomás prova que é preciso que Deus mesmo revele aos homens as verdades divinas, verdades que o homem nunca poderia por si mesmo descobrir. Elas são necessárias para responder aos anseios humanos de transcendência, sem elas os homens viveriam em estado animalesco. A principal informação que devemos nos deter é que sem a revelação divina não haveria conhecimento verdadeiro de Deus. Além do mais, o conhecimento que nos são propostos como objetos de fé são transmitidos por Deus, isto é, pela própria sabedoria divina. Ora, Deus não se equivoca sobre si mesmo, pois como já vimos, ele conhece tudo sobre si mesmo, e, analogamente, Ele não pode enganar o homem, pois sua revelação não é nada mais do que a verdade manifestada. O que se pode deduzir disso é que as verdades acessíveis pela fé são completamente seguras, haja vista que o conhecimento de Deus sobre si é mais elevado do que o conhecimento de Deus que o homem pode fazer, por isso é mais verdadeiro. Em outras palavras, o conhecimento verdadeiro que o homem tem de Deus foi revelado divinamente e por isso não pode estar equivocado.

Um dos principais benefícios que essa noção acarreta talvez seja o de repreender a presunção humana. Esse erro tão comum ao homem e tão universal impede que a correta apreensão das verdades divinas seja feita. O fruto da presunção sempre será o erro, pois ela possui a capacidade de iludir a mente fazendo com que o falso parece correto. A revelação de verdades supra-racionais promove justamente o oposto, é o contraveneno da presunção, pois afirma as verdades que a segunda confunde. Em linhas claras, a presunção impede a compreensão correta das verdades divinas, a revelação se opõe a ela. Isso é evidente em si mesmo. Um conhecimento superior a capacidade intelectiva humana obriga o homem a humildade, pois ele vê a sua própria limitação e o quanto necessita de algo maior do que si para compreender. O homem pode com a revelação não apenas conhecer corretamente as verdades fundamentais para a sua alma, mas também combater o inimigo universal que se opõe a essa compreensão: a presunção de achar que ele mesmo pode compreender todas as verdades com suas próprias forças.


A razão mais convincente de como é justo que as verdades divinas superiores sejam apresentadas ao homem pela fé se refere a superação das possibilidades naturais do homem. Existem algumas possibilidades naturais que podem ser realizadas apenas com o uso da razão, entretanto, a revelação divina amplia o campo de possibilidades do homem fazendo com que ele consiga compreender muito mais. Isto é, a revelação liberta o homem das suas possibilidades o levando a parâmetros antes impossíveis. Sem ela, como já sabemos, o homem permanece circunscrito aos contornos naturais de seu próprio ser. Consequentemente, ele deve agora se voltar para as coisas divinas, pois a possibilidade de conhecer as verdades antes inacessíveis foi permitida. É conveniente que o homem busque a Deus, pois agora ele pode conhecê-lo corretamente e com mais segurança.

Por fim, a última causa que levaria o homem a buscar a Deus definitivamente é o bem que isso implica. O conhecimento das coisas perfeitas faz com que aquele que o possui também consiga maior perfeição. Quero dizer, o conhecimento da perfeição divina permite que a alma humana também goze dessa perfeição: as verdades divinas conferem a alma uma elevação destinada também à perfeição. Prova disso é o fato de que o objeto investigado é perfeito, ou melhor, é a própria perfeição. Por mais difícil que seja encontrar esse bem, que na verdade é o bem da inteligência, o homem anseia por ele o tempo todo. Quem o encontra, sente que encontrou um tesouro, faz tudo o que pode para possuí-lo. Em suma, o que tentamos explicar nessas breves linhas é que a revelação sobrenatural dos objetos de fé é necessária para o conhecimento das verdades divinas supra-racionais.

3 – Objetivo final

Para concluir nosso trabalho, explicaremos duas questões que não só reforçam as idéias apresentadas acima, como também revelam que a obra de Tomás versa sobre o principal problema filosófico da Idade Média, trata-se da conformidade entre fé e razão. Mas, além disso, nos debruçaremos na seguinte pergunta: seria leviano crer em verdades supra-racionais? Ora, como debater tal questão se já expomos a resposta? Todavia, essa pergunta é mais relevante do que parece a essa altura do trabalho, pois nos obriga a debater as provas das verdades divinas. Vamos verificar uma parte de cada vez, primeiramente a resposta imediata: não é leviano crer em verdades reveladas porque foi a sabedoria divina quem as revelou como objetos da fé. Contra isso ninguém pode reclamar, não há maior razão para confiar nos objetos de fé do que saber que eles nos foram entregues pela inteligência suprema. Além do mais, se não fosse assim, seria praticamente impossível conhecer tais verdades tão elevadas.

Vamos agora às provas da presença divina. O que podemos chamar de provas divinas, isto é, justificações que Deus deu aos homens para convencê-los de que Ele é verdadeiramente Deus? São elas confirmações das verdades supra-racionais: milagres, ressurreição, inspiração da sabedoria nos espíritos simples. Tudo isso são fenômenos extraordinários que nos servem de provas para crermos com mais confiança. Primeiramente, Deus provou as verdades supra-racionais de maneira visível para confirmá-las. Dito de outro modo, as verdades mais altas foram confirmadas por Deus de maneira visível, isto é, por milagres. Os milagres são demonstrações visíveis das verdades divinas que ultrapassam as capacidades intelectuais humanas. Deus as confirmou como objetos de fé, provas de sua presença. A maior demonstração talvez seja a “inspiração do espírito” que fez de quem era simples, sábio e eloquente. Deus chama os mais simples, estou convencido disso. Ele fez discípulos entre os mais simples, e os chamou a conhecerem e pregarem as verdades mais sutis e sublimes. Tudo isso justifica a seriedade das verdades supra-racionais, em hipótese alguma poderiam ser declaradas levianas.

Enfim, a segunda questão trata da fé e da razão, particularmente, da conformidade entre elas. A última pergunta do nosso trabalho pretende mostrar que todo o empreendimento filosófico da obra que analisamos perpassa vitalmente a principal discussão do medievo. A fé estaria em contradição com a razão? Após analisarmos tudo o que Tomás disse sobre os limites e as capacidades da razão, nos resta finalmente compreender se a razão em seus contornos naturais se opõe a fé. Inicialmente, nos deteremos em dois princípios, ou ainda, em dois axioma. O primeiro deles diz assim: são verdadeiras as verdades inatas da razão. Isso quer dizer que o conhecimento inato não pode estar incorreto, pois sendo inato, foi Deus mesmo quem os concedeu. Visto isso, passamos ao segundo: também são verdadeiras as verdades reveladas. A razão disso é que a verdades supra-racionais foram confirmadas por Deus como acabamos de ver. O que podemos observar disso é que não há contradição entre razão e fé, pois ambas formas de entendimento são justificadas por Deus.

Outra explicação da conformidade entre fé e razão está nos princípios naturais que a mente dispõe para conhecer o verdadeiro. Esses princípios não surgiram do nada, existe uma razão para eles cumprirem a função tal como o fazem. A razão disso é que os princípios naturais estão incluídos na sabedoria divina. Deus construiu a mente humana com princípios para que o homem pudesse encontrar a verdade. Desse modo, os princípios que recebemos de Deus nos permite conhecer verdadeiramente quem é Deus, embora não completamente, pois nosso espírito não é perfeito o suficiente para isso. O segundo motivo pelo qual não há contradição entre fé e razão é que os princípios da razão são princípios da verdade primeira, da substância inacessível, por isso são corretos e conformes às verdades da substância divina. Tais princípios não podem se opor a sua causa primeira.


A conclusão desse trabalho não poderia ser outra senão que existe verdadeiramente uma conformidade entre fé e razão. Em primeiro lugar porque não é possível que os limites da razão contradigam as verdades da fé, em segundo lugar porque os princípios da fé necessariamente estão contidos na razão natural dada por Deus. Todo projeto filosófico-teológico de Tomás nessa obra que estudamos procura justificar esse momento final. Embora a obra ainda possui dois outros capítulos que nada mais acrescentam às informações já trabalhadas sendo eles apenas resumos do que já foi dito, escolhemos concluir por aqui, pois são essas últimas ideias que devem ser retidas mais claramente. Toda construção argumentativa, passando pelo conceito de sábio, pelos limites naturais da razão, pela transcendência intelectual da fé, termina nesse momento afirmativo.

REFERÊNCIAS

Tomás de Aquino. Súmula contra os Gentios, São Paulo, Abril, 1973 

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