Pensamento, raciocínio e imaginação em Pascal

Por Guilherme Diniz

Resumo O presente trabalho procura investigar algumas teses de Blaise Pascal sobre a teoria do conhecimento na sua obra Pensamentos. Apresentarei análises de alguns dos seus textos fundamentais que têm ligação com o tema. Contudo, o conjunto dos ensaios pascalianos não possui boa organização nem conclusão (que é de se esperar de uma obra de natureza ensaística), entretanto as partes significativas de seus escritos são profundamente relevantes. Por essa razão, irei explicar as noções essenciais do tema trabalhado. O objetivo final será responder a questão: o que Pascal nos afirma sobre o entendimento do homem?

I – Introdução

Analisar a noção de pensamento em Pascal revela a profunda confiança que o filósofo depositava sobre a razão humana. Iremos investigar essa noção com o objetivo de expor como o conceito é pertinente tendo em consideração a sua função. Trata-se de um certo ensaio, ou melhor, de alguns fragmentos do artigo Os filósofos. Nos propomos a analisar também a noção de raciocínio no primeiro artigo da obra intitulado Pensamentos sobre o espírito e sobre o estilo. Assim como, a noção de imaginação (fragmento 82) do artigo Miséria do homem sem Deus que nos levará a concluir que apesar da importância do pensamento, a imaginação exerce sobre o homem uma influência consideravelmente mais vantajosa.

Evidentemente não será objeto de nosso exame o conjunto integral dos artigos citados, mas somente alguns de seus fragmentos. Essa proposta é necessária haja vista, como já dissemos, que muitos dos escritos da obra pascaliana não mantém a continuidade temática do princípio, desviando-se facilmente de um assunto a outro sem se importar com os arranjos das articulações entre os conceitos. Todavia, as partes que apresentam um elo conceitual ordenado são suficientes para nos indicar o valor de suas ideias e o caráter de sua filosofia.

2 – Pensamento: a grandeza humana

Qual a grandeza humana diante da natureza? “O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante”. Eis o valor humano. Destacando a sua fragilidade física comparando-o a um caniço, Pascal procura defender o pensamento como a essência humana, o diferencial com relação a natureza e a qualidade primeira que dignifica a sua espécie. Ele não possui garras, não corre rapidamente, não voa, não pode carregar um peso várias vezes maior do que o seu próprio. De todos os animais é o mais débil. Se não fosse um animal pensante, já estaria extinto há muito tempo. “Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo”. Entretanto sua fragilidade é compensada pela capacidade de pensar. O pensamento lhe constitui soberania entres os seres naturais.

É importante fazer aqui a compreensão do termo pensamento, se compreende por entendimento racional oposto a sentir, uma atividade cognitiva do espírito (cf. Lalande). Pascal procura discutir a pequenez natural humana e a sua gradeza espiritual. Faz isso anunciando o que o homem possui de mais elevado, acima de seu corpo e de suas fragilidades naturais: a razão. “O pensamento faz a grandeza do homem”, isto é, o homem possui um potencial espiritual que ultrapassa sua pequenez natural. Em um primeiro momento, o autor procura apresentar a essência do homem, depois a superioridade que isso lhe dá sobre a natureza.

Posso conceber um homem sem mãos, pés, cabeça (pois só a experiência nos ensina que a cabeça é mais necessária do que os pés); mas não posso conceber o homem sem pensamento: seria uma pedra ou um animal. Mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, por que sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso (p. 127).

O homem enquanto ser natural é o mais fraco da natureza, entretanto ele não é apenas um ser natural, também é um ser pensante, capaz de abstrair ideias de objetos sensíveis e compreender o todo através do estudo das substâncias. Por essa razão, ele é superior a toda natureza. Se ele pudesse permanecer apenas no plano físico, imanente, sem a possibilidade do pensamento, seria a criatura mais medíocre dentre todas as naturais. Mas por sua essência pensante, se faz a mais sublime e especial. Pela razão o homem se põe em uma condição superior ao universo, pois pela força natural de sua inteligência, ele pode ter uma noção do universo que nenhuma outra criatura pode se igualar. Essa é a característica principal da natureza homem, pois ela o define. “Pelo espaço, o universo me abarca e [me] traga como um ponto; pelo pensamento, eu o abarco”.

Em suma, Pascal quer dizer que o homem é o animal mais frágil da natureza, mas também é o mais digno porque pensa. O pensamento é a essência do homem porque o eleva sobre a sua miséria física e natural. Todavia, para chegarmos a tese filosófica do autor sobre a noção de entendimento é preciso compreender que o pensamento se divide em dois modos de apreender a realidade chamados de raciocínios.

3 – Os raciocínios ou modos de entendimento

Segundo o autor, existem dois modos de raciocinar: o geométrico e o sutil. Cada um deles opera com princípios diferentes e se destinam a fins também diferentes. Iremos tratar aqui da distinção entre dois “espíritos” ou dois modos mentais de buscar o conhecimento verdadeiro. Mas, o termo espírito é amiúde confundido e causa de equívocos, por isso é necessário definí-lo. Se entende por espírito coisa pensante, inteligência, em oposição a matéria que é representada por ele (cf. Lalande). Espírito é, portanto, a capacidade natural da razão humana de capitar do mundo externo as fontes da sua representação, isto é, as imagens que constroem as noções das coisas e os modos como o espírito aplica-se são os raciocínios.

Visto isso, vamos analisar agora o significado do raciocínio geométrico. A primeira constatação que se pode fazer dele é que possui princípios claros. O princípio é a causa primeira e essencial de um movimento e indício original que constitui coerência ao movimento (Lalande). O processo de entendimento é um movimento intelectual, no raciocínio geométrico ele possui a sua causa em imagens claras. Em outras palavras, o processo de entendimento do raciocínio geométrico possui princípios evidentes.

Pascal afirma que os geômetras operam com princípios palpáveis. A razão do raciocínio geométrico possuir princípios tão fortes está na própria natureza da geometria, pois ela é a ciência que lida com a quantidade de espaço. Isto é, por trabalhar com quantidades espaciais, a geometria propiciou à razão impressões fortes que de certa forma a condicionaram a vê-las desse modo. Os princípios retirados do raciocínio geométrico são facilmente visíveis, isso faz com que a razão frequentemente em relação com eles se habitue a sua visibilidade clara. Tal hábito se tornou uma das causas de distanciamento entre os dois modos de raciocinar.

Por outro lado, o raciocínio sutil, isto é, o espírito de finura opera de maneira oposta ao geométrico. Esse raciocínio não se volta para dados claramente visíveis, mas para nuances que escapam a uma olhada desatenta. O espírito de finura observa uma realidade que de certa forma também é clara, mas apenas para o modo certo de ver: uma disposição de espírito adequada. Se trata de um modo que lida com princípios diversos, numerosos e comumente usados quase imperceptivelmente. Os princípios que se relacionam ao raciocínio sutil não são claro e grosseiros como os do modo geométrico, mas, como o termo esclarece por si mesmo, sutil, isto é, um nuance.

De modo geral, o espírito de geometria lida com princípios muito claros, enquanto o espírito de finura trabalha com princípios sutis e numerosos. Por causa da natureza diversa desses princípios, o espírito de finura desenvolveu uma visão clara para os princípios sutis, enquanto o geômetra desenvolveu uma visão também clara, só que para os princípios bem visíveis. Para os geômetras basta ter princípios claros para avançar retamente no raciocínio especulativo; em contra-partida, os sutis operam com princípios não tão claros, mais numerosos e de uso comum, basta ter boa vista, sentidos delicados e precisos para pressentí-los. Existe ainda mas probabilidade de errar no espírito de finura do que no geométrico, pois, sendo princípios sutis e numerosos, é mais fácil se equivocar ou negligenciar um deles. “A omissão de um princípio leva ao erro; assim, é preciso possuir a vista bem clara para ver todos os princípios”. A expressão “vista bem clara” para o filósofo significa ter o espírito iluminado pela razão e entender corretamente a causa essencial investigada.

Estando cada espírito habituado a trabalhar com seus tipos elementares de princípios – sutis para o de finura, grosseiros para o de geometria – deriva daí que cada um dos espíritos não pode se relacionar como faz com os princípios de sua natureza do mesmo modo como faz com o do outro. Em outras palavras, o raciocínio sutil não pode lidar com os princípios grosseiros do geométrico e, por sua vez, o raciocínio geométrico não pode lidar com os princípios sutis do espírito de finura. O espírito de geometria não realiza a função do espírito de finura e vice-versa. Sempre haverá uma carência no método, pois seria mais adequado se um pudesse realizar-se com as qualidades dos outro. “… é raro que os geômetras sejam sutis e que os sutis sejam geômetras, porque os geômetras querem tratar geometricamente essas coisas sutis e tornam-se ridículos”.

A respeito dessa discussão, Pascal sustenta a tese de que as disposições cognitivas, os espíritos, circunscritas a suas próprias naturezas limitam a compreensão das coisas primeiras. O modo como cada espírito aborda os princípios é determinado pelas particularidades e pelos limites naturais de cada raciocínio específico. Assim, o modo geométrico e o sutil são dois espírito igualmente limitados e necessários para o conhecimento. Ambos lidam com realidades opostas, entretanto cumprem funções próximas. O nosso entendimento tanto especulativo na forma geométrica quanto imediato na finura é limitado pela própria natureza desses dois modos de entender.

4 – Imaginação: “senhora de erro e falsidade”

O entendimento se constrói com a representação da realidade, todavia, nem toda forma de capitar a realidade pode ser considerada um entendimento. Exemplo disso é a imaginação, a faculdade mental de ordenar imagens que imitam os fatos da natureza. Nesse caso é realizado um processo de compreensão visto que a imaginação direciona-se a natureza como faz o entendimento, entretanto de modo completamente diferente da forma racional que abordamos acima. Ela é uma espécie de distorção do entendimento porque não cumpre a mesma função que este executa.

Para Pascal, a imaginação é fonte de equívocos, pois de modo geral todos os homens estão subordinados aos domínios dessa faculdade. “Parte enganadora do homem e inimiga da razão”. As impressões da imaginação nos fazem pré-julgar as coisas e nos levam ao erro, “um dos princípios do erro” está em “experimentar as impressões falsas da imaginação que a razão foi obrigada a ceder”. Nesses termos, razão e imaginação são conceito opostos porque realizam tarefas mentais contrárias. A imaginação serve ao homem em imagens, a razão, por outro lado, em representação de fatos reais.

A imaginação engana a todos, até os mais sábios estão vulneráveis as seduções e influências dessa faculdade do espírito. Domina até mesmo o maior dos filósofos, o mais sábio e prevenido dos homens. “O maior filósofo do mundo, sobre uma tábua, por mais larga que seja, se houver embaixo um precipício, embora a razão o convença de sua segurança, a imaginação prevalecerá”. Se o entendimento é natural ao homem porque não se pode conceber um homem sem a razão, a imaginação é, portanto, conatural. O homem possui uma espécie de natureza dupla, então? Isso parece absurdo de se pensar.

Contudo, o problema principal da imaginação está em outra perspectiva. Uma última análise negativa da imaginação nos revela que ela satisfaz mais o homem do que a razão. É mais agradável acreditar em imagens que em raciocínios, pois as imagens são mais atraentes ao homem. Em contrapartida os raciocínios são mais difíceis, mais problemáticos e definitivamente mais realistas que as docilidades das imagens. Consequentemente, os homens preferem os prazeres fictícios que as imagens proporcionam que a dureza da razão.

Mas, por mais contraditório que pareça a princípio, ela é útil para a sociedade por salientar o lado superficial da coisas. É o que se pode chamar de ressalva da necessidade da simples aparência. É necessária para que haja a reputação e o respeito às coisas que devem ser conservadas como as leis, as obras, aos grandes.

Um homem realmente sábio, mas não aparente, é diminuído em comparação a outro muito aparente, porque em geral as pessoas comuns tomam por verdadeiro o que é superficial, apenas tendo como critério de discriminação a imagem que ela transmite. A carência de impressões imaginativas nas roupas, por exemplo, dificulta consideravelmente o trabalho de quem precisa do reconhecimento de sua reputação, como o caso de um advogado, por exemplo.

Tem uma utilidade para os homens: “parece induzir-nos a um erro necessário, pois quem quisesse seguir apenas a razão seria louco perante o juízo do homem comum”. Porque ela satisfaz aos homens comuns mais que a razão, além do mais, tem um caráter prático, pois é um dom de persuadir. Uma faculdade enganadora, mas necessária a reputação, aos respeitáveis cargos, etc. “Eis, aproximadamente, os efeitos dessa faculdade enganadora que parece nos ser dada de propósito para induzir-nos a um erro necessário”.

Podemos notar com essas considerações que o entendimento para Pascal está entrelaçado a imaginação, porém de forma negativa. O entendimento é para o filósofo a marca principal da essência humana. Podemos destacar os seguinte pontos a esse respeito: (1) o pensamento faz a essência do homem. (2) O homem é o animal mais frágil, mas é o mais digno porque pensa. Por essa razão, (3) o pensamento eleva o homem sobre o universo. Além disso, o entendimento também está ligado aos modos de raciocinar e aos diferentes princípios pré-existentes, sendo (4) o espírito de geometria o modo científico de conhecer que (5) opera com princípios claros sem fazer o mesmo com princípios sutis e (6) o espírito de finura o modo prático e comum de conhecer que (7) vê claramente e de uma única vez diversos princípios e não tem paciência de operar de modo especulativo. Por fim, o entendimento está constantemente ameaçado pela imaginação, ou, melhor dizendo, pela tendência humana de preferir a imagem à razão. Sendo assim, (8) a imaginação engana a razão e leva o homem ao erro, (9) ilude todos os homem sem exceção, (10) porém, é útil para a sociabilidade.

Bibliografia

Lalande, André. Vocabulário Técnico e Critico da Filosofia, Tradução: Fátima Sá Correia, Maria Emília V. Aguiar, José Eduardo Torres, Maria Gorete de Souza – 1ª ed., São Paulo, Martins Fontes, 1993 (3ª ed., 1999).

Pascal, Blaise. Pensamentos, Tradução: Sérgio Milliet – São Paulo, Abril S.A., 1973 (Os Pensadores XVI).


 

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2 responses to “Pensamento, raciocínio e imaginação em Pascal”

  1. jotamucheroni says :

    Excelente texto! Ajudou-me bastante.

  2. Franciscleyton Santos says :

    Muito bom o texto! Estou fazendo monografia com embasamento pascaliano!

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