Teoria do conhecimento metafísico

Por Guilherme Diniz

Existem diversos modos de se acreditar que se entende uma coisa, por diversas vias se pode crer que aquilo que está diante de nosso entendimento é de fato apreendido pelo espírito. Tomamos inicialmente uma coisa estranha que se encontra em completa alienação de nosso espírito, alguns já diriam como se pode provar a existência de algo absolutamente estranho, outros ainda, de que modo se garante a realidade do espírito e da coisa. Antes dessas refutações, observemos o problema sobre um prisma comum: a divisão clássica entre a coisa extensa, elementar e passível de ser decodificada e a coisa pensante com suas faculdades e meios de apreender. Nele há uma proposta demasiada sugestiva para ser ignorada, seu uso à primeira vista nos propicia uma posição inicial fundamental para a construção do problema. Com isso, pretendemos introduzir uma reflexão sobre a fé no conhecimento ou em termos mais sutis, como se pode acreditar que se entende? Que haja entendimento não há dúvidas, resta-nos investigar como se chega a ele.

Eu que penso não posso ser nada além daquilo que sou enquanto penso, pois se o pensamento existe de fato por um princípio claro e distinto, ele é, portanto, a base nuclear que governa e sustenta o espírito. Por todos os meios que se pretenda entender a coisa extensa, é, pois, pelo pensamento que se depreende segundo a regra clássica (cf. Descartes. Meditações metafísicas). O pensamento é o princípio de aproximação da substancia espiritual para a realidade objetiva. Nada existe a não ser essas duas verdades: o pensamento e a coisa sobre a qual o pensamento se volta. Por essa razão, a verdade pode ser entendida como a adequação do entendimento à coisa, do espírito à realidade, do sujeito ao objeto.

Vejamos a título de exemplo uma demonstração clássica: uma partícula em movimento. Digamos que ela esteja em queda retilínea, graças a sua quantidade de matéria a gravidade lhe emprega uma força que lhe empurra em direção a outra massa, a superfície terrestre. “Todos os objectos no Universo atraem todos os outros objectos com uma força direcionada ao longo da linha que passa pelos centros dos dois objectos, e que é proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da separação entre os dois objectos” (cf. Newton, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica). Há, portanto uma relação de atração estabelecida pela quantidade de matéria entre dois objetos e a distância entre eles. Esses dois corpos se atraem com uma força de intensidade igual, a atração possui uma proporção igual ao produto das duas massas, além disso, é inversamente proporcional ao quadrado da distância. Newton transcreveu em uma linguagem exata a seguinte formula: F é a força de atração, G é a constante gravitacional (de modo simplificado empregamos o valor 10), m, massa de um corpo, r, a distância entre as massas:

F = G.m1.m2/r²

Através de uma linguagem matemática é possível descrever um fenômeno natural de ordem física como a queda de um objeto, entretanto há diversas refutações a esse modo particular de expressar-se. No campo das ciências humanas, por exemplo, existem muitos elementos disciplinares que fogem a esse modelo científico. Uma neurose provocada pela confusão de dois estímulos de sentimentos antagônicos não pode ser expressa por uma equação. A avaliação de uma poesia, analogamente, não se encaixa nos moldes de um plano cartesiano (cf. Peter Weir, Sociedade dos poetas mortos). De um modo geral, a natureza humana possui no mínimo dificuldades para ser definida em linguagem exata.

Isso evidencia a necessidade de uma investigação que não use como ferramenta esse tipo de linguagem. Mas, como é possível obter certeza sobre aquilo que se crê ser depreendido do objeto estudo? Essa é a pergunta dos filósofos e de muitos pesquisadores das humanidades. Uma possível resposta seria a negação, isto é, afirmar a impossibilidade de adquirir uma certeza absoluta sobre o fenômeno observado. Mas, tal postura apresenta um problema sutil: o da leviandade racional. Se dissermos que aquilo que creditamos ser verdadeiro é impreciso, o que garante a verdade da crença? Todo conhecimento deve se basear num fundamento firme, racionalmente provado e verificável, pois, ao contrário, ninguém poderá encontrar qualquer razão de assentir ao que dizemos.

Nenhum nuance poder ser mais irritante do que a questão sobre a validez do uso da linguagem como ferramenta do entendimento. A persistência do problema ocorre porque de fato a questão parece não se render a uma resposta, pois toda vez que tentamos esboçar uma solução, caímos numa definição que nos amarra ao formalismo fechado. Se dissermos que a linguagem não é útil para o entendimento, a própria afirmação pela natureza absoluta que apresenta se desmente. Não se pode dizer que a linguagem não é uma ferramenta do entendimento porque se elabora tal afirmação pelo uso dela. O mesmo se dá ao dizer “eu estou mentindo”. Se dissermos que a linguagem não é válida para o entendimento caímos diretamente num paradoxo, já ilustrado como o “paradoxo do mentiroso”: se diz que está mentindo, está dizendo a verdade e, portanto não está mentindo.

Por tudo isso, se estabelece que a razão faz uso da linguagem para compreender um objeto. Não existe nenhum pensamento abstraído da linguagem, porque ela é de certo modo a roupagem do pensamento. Um pensamento sem linguagem seria um pensamento puro, ora algo dessa natureza não passa de uma linguagem interior. “O pensamento não existe antes nem fora da palavra. Ele está nela, estão envolvidos um no outro. A palavra não é exterior ao pensamento no sentido de que ela apenas o formularia, ela antes o forma do que o formula ‘o sentido é realmente tomado na palavra e esta nada mais é que a sua existência exterior’ A linguagem é apenas um caso particular da união entre alma e corpo. Assim como a alma não tem um corpo como um objeto que lhe seria exterior, estranho, o pensamento não tem uma linguagem. Na realidade, nós não temos um corpo, nós somos o nosso corpo. E, do mesmo modo, nosso pensamento é sua própria linguagem” (Denis Huisman; André Vergez, Compêndio moderno de filosofia II).

Há, sobretudo, uma primazia do pensamento sobre a linguagem, pois ela é um mecanismo social e não natural do ser humano. Não existem órgãos propriamente da linguagem no corpo humano, a laringe é antes um órgão de respiração que por causa da necessidade social humana é utilizada para a comunicação verbal. Mas, até que ponto se pode garantir o uso correto ou a precisão dela para apropriação da coisa? É evidente que a linguagem exata se exclui dessa possibilidade por suas características próprias, talvez a lingüística possa ser a melhor opção. De um modo geral, a linguística estuda os signos da linguagem e não a própria linguagem. Por causa desse escopo, ela não pode ser a via correta para se resolver a questão. Além do mais, toda linguagem é uma forma de traduzir em um sistema de signos os elementos já compreendidos. Para isso, é necessário falarmos de um filósofo especial: Henri Bergson. Sua filosofia está fundamentada sobre duas estruturas, a intuição e a duração:

Intuição se define como apreensão imediata da realidade pela simpatia com o objeto. Em outras palavras, é a realidade sentida e compreendida absolutamente de modo direto, sem utilizar as ferramentas lógicas do entendimento: a análise e a tradução. Diferencia-se da inteligência que, apropriando-se do mundo através de ferramentas, calcula e prevê intervalos do mesmo plano espaço-temporal; a intuição, ao contrário, penetra no interior da vida coincidindo com o real imediatamente. Dizemos, portanto, que o real passou a ser conhecido pela metafísica como numa certeza imanente ao próprio ser do sujeito cognoscente. A intuição é uma forma de conhecimento que penetra no interior do objeto de modo imediato, isto é, sem o ato de analisar e traduzir. A análise é o recorte da realidade, mediação entre sujeito e objeto. A tradução é a composição de símbolos linguísticos ou numéricos que, analogamente a primeira, também servem de mediadores. Ambas são meios falhos e artificiais de acesso a realidade. Somente a intuição pode garantir uma coincidência imediata com o real sem o uso de símbolos nem da repartições analíticas. A intuição pode ser entendida, portanto, como uma experiência metafísica.

A Duração é o correr do tempo uno e interpenetrado. Os momentos temporais somados uns aos outros formando um todo indivisível e coeso. Oposto ao tempo físico ou sucessão divisível que é passível de ser calculado e analisado pela ciência, o tempo vivido é incompreensível para a inteligência lógica por ser qualitativo, enquanto o tempo físico é quantitativo. Tempo e espaço não pertencem a mesma natureza, tanto que podemos afirmar que a consciência – duração interna – e o “tempo espacilizado” se opõem. Esse último é criticado pelo filósofo como uma das expressões da vertente determinista das ciências e filosofias.

Tudo o que pertence a faculdade espacial, isto é, a variável t das leis físicas da mecânica clássica, é suscetível de ser repetida, decomposta e traduzida pela lógica científica, como, por exemplo, a medição do tempo por um relógio. Esse tempo físico, comumente confundido com o espaço, como o fez Kant na Crítica da Razão Pura, não corresponde ao tempo real experimentado pelo espírito. O tempo vivido ou duração interna ou simplesmente consciência é o passado vivo no presente e aberto ao futuro no espírito que compreende o real de modo imediato. É um tempo completamente indivisível por ser qualitativo e não quantitativo como o fator t. A duração, não é compreendida através da inteligência técnica, também não pode, por consequência, ser entendida como sucessão linear de intervalos, pois ela é justamente o oposto disso, haja vista que não há como justapor ou analisar o tempo vivido qualitativo. Ora, se não há como esmiuçar a duração percebida pelo espírito, também não há como prever os momentos temporais da duração interna, apenas a experiência física que se repete facilmente pode ser prevista e repetida, logo, a duração do tempo vivido e experimentado pelo espírito é imprevisível, uma novidade incessante e um fluir contínuo. Porém, há uma ciência que possibilite a compreensão completa de uma realidade abstrata?

Existem duas maneiras profundamente diferente de conhecer uma coisa: rodeando ou adentrando no objeto. A primeira maneira se expressa pelo termo Relativo, definido como o modo de compreensão que progride segundo os pontos de vista e os símbolos, detém-se nos contornos do objeto. A segunda se refere à noção de Absoluto que dispensa pontos de vista e símbolos e adentra no próprio objeto (cf. Henri Bergson. O pensamento e o movente, p. 181).

Para ilustra a questão, Bergson usa como exemplo o movimento de um objeto no espaço.

1. O movimento relativo possui duas condições de relatividade:

  • Ponto de vista: móvel ou imóvel.
  • Tradução em símbolos: sistema de eixos ou de pontos de referência.

2. O movimento absoluto:

  • É atribuído ao móvel um interior como se fossem estados de alma
  • O sujeito se insere por um esforço de imaginação
  • E se simpatiza com os estados de alma

Portanto as apreensões relativas são depreendidas de fora; as absolutas, de dentro. O conhecimento de um possível movimento absoluto (Bergson em nota fala que não propõem um modo de reconhecer se um movimento é absoluto, mas define metafisicamente o que seria isso) é experimentado, em outras palavras, o conhecimento metafísico é uma experiência. Essa experiência do absoluto não está vinculada às condições de relatividade.

O mesmo ocorre com a leitura de um romance, intuitivamente podemos fazer uma simpatia com um personagem. Os pontos de vista e os símbolos acrescentam cada vez mais informações ao personagem, enriquecendo-o mais e mais sem nunca poder completá-lo. As condições de relatividade só revelam o que o personagem tem em comum com outras coisas e não o que é dele próprio. Só a coincidência do leitor com o personagem em seus estados de alma atinge o personagem intimamente. O personagem só é de fato conhecido quando o leitor coincide com ele. Quando os acidentes deixam o personagem, a sua essência aparece ao leitor. O conhecimento experimentado com a coincidência do leitor com o personagem é superior a toda descrição e ação do personagem no livro.

Um possível objeto de discussão caberia aqui se dispuséssemos de mais tempo: O personagem só pode ser compreendido integralmente quando o estado de alma do leitor coincide com o do personagem, um interior com outro interior, porém, há como reconhecê-los no momento de simpatia? Entretanto essa pergunta não poderá ser respondida nesse trabalho, pois as relações estabelecidas na simpatia não figuram nos textos estudados.

Deixemos essa questão e passemos a já abordada. Para respondê-la, o filósofo utiliza quatro argumentos fundamentais:

I. A perfeição do absoluto. “O absoluto é perfeito na medida em que ele é perfeitamente aquilo que ele é.”.

Com o qual ele exprime que o relativo não é perfeitamente aquilo que é, possui imperfeições. As fotografias de uma cidade são apenas partes analíticas ou pontos de vista, não podem imitar um passeio pela cidade que fornece a visão do todo. Assim como a tradução de um poema é uma reposição da linguagem original à linguagem estrangeira, é uma conversão de elementos estranhos a elementos conhecidos sem revelar o essencial do poema.

II: Infinidade do movimento. A perspectiva interna ou externa determina a infinidade do movimento.

O infinito é ao mesmo tempo indivisível e inesgotável. O Absoluto é infinito porque ao mesmo tempo fornece uma apreensão indivisível e inesgotável. O movimento do braço percebido interiormente é uma ação simples e indivisível. O mesmo movimento percebido exteriormente é complexo e sua análise é inesgotável.

III: Intuição implica absoluto. É a intuição e não a análise que alcança o absoluto.

A intuição é a “simpatia pela qual nos transportamos para o interior de um objeto para coincidir com aquilo que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível (…) A análise multiplica incessantemente os pontos de vista para completar a representação sempre incompleta, varia sem descanso os símbolos para perfazer a tradução sempre imperfeita (…), é a operação que reconduz o objeto a elementos já conhecidos, isto é, a elementos comuns a esse objeto e a outros. Analisar consiste, portanto em exprimir uma coisa em função daquilo que não é ela”.

IV: Metafísica. A metafísica é a ciência intuitiva.

A ciência positiva fundamenta-se na análise. Estuda a realidade relativa sob símbolos e pontos de vista. A metafísica estuda a realidade absoluta penetrando no seu interior através da intuição. Com esse último argumento ele responde a pergunta sobre a ciência que estuda de modo completo uma realidade abstrata.

Perfeição e infinidade compõem as características comuns de entendimento metafísico. Elas podem ser alcançadas graças a um método elegido por Bérgson, a intuição. É através dela que se constrói a metafísica. Em suma, esse é o esquema utilizado pelo filósofo para estabelecer seu pensamento em volta com o absoluto.

De um modo geral, o conhecimento metafísico se traduz nos termos que expressamos acima. Todas as formas de apreensão são delimitas por uma lei geral que as governa. A metafísica não poderia fugir a essa regra. O que circunscreve o entendimento absoluto da realidade abstrata é o método estabelecido. Por uma via se dispersa do caminho seguro, por outra, o encontra.

Bibliografia

Bergson, Henri. O pensamento e o movente: ensaios e conferências, São Paulo, Martins Fontes, 2006

Descartes, René. Obra escolhida, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1994

Huisman, Denis; Vergez, André. Compêndio moderno de filosofia; vol. II: o conhecimento, Rio de janeiro, Freitas Bastos, 1978

Kant, Immanuel. Crítica da Razão Pura, São Paulo, Abril Cultural, 1974

Newton, Isaac. Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, São Paulo, Abril Cultural, 1974

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